Guterres abre Assembleia da ONU com adeus pessimista: "as rachaduras viraram cânions"
Prestes a deixar o cargo em dezembro, secretário-geral cobra fim das guerras, alerta para o avanço da IA e vê divisões que viraram abismos

Nova York - O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu nesta terça-feira a 81ª Assembleia Geral com o discurso de despedida de seu mandato.
Aos 77 anos, o português deixa o cargo em dezembro, ao fim do segundo período de cinco anos no comando da organização, que já busca quem irá substituí-lo.
Coube a ele encerrar sua trajetória à frente de uma instituição que tenta se manter influente num cenário internacional cada vez mais tensionado - e o fez sem suavizar o quadro, num tom que beirou o desalento.
Guterres comparou as divisões do mundo a fendas que se abriram até virar abismos e descreveu uma década em que os conflitos armados se multiplicaram, ganharam duração e brutalidade.
"Populações civis viradas em alvo, garantias fundamentais ignoradas, a fome convertida em instrumento de guerra e equipes de ajuda humanitária atacadas", em suas palavras, compuseram esse retrato.
Ao abordar as guerras em curso, o secretário-geral afirmou que os confrontos no Oriente Médio precisam terminar e alertou que a violência na região vem se espalhando em cadeia.
E foi irônico ao tratar das tréguas anunciadas, dizendo que muitas não passaram de pausas superficiais enquanto a população continuava pagando a conta. "Já basta", declarou.
Guterres responsabilizou diretamente a Rússia pela invasão da Ucrânia e lembrou tanto o sofrimento humano provocado pela guerra quanto o estrago nas cadeias de abastecimento de alimentos e energia. Ao falar do Oriente Médio, no entanto, evitou nomear os Estados Unidos e Israel pela ofensiva contra o Irã, iniciada há mais de sete meses e com repercussões que se espalharam pela economia global.
O diagnóstico reflete a frustração que acompanha o fim de sua gestão, encerrada sem que ele tenha conseguido resolver as principais crises do período. Sobre a Ucrânia e a escalada no Oriente Médio, reconheceu que o quadro se agrava a cada dia.
Grande parte da fala foi dedicada à noção de poder e à forma como ele se reorganiza globalmente. Guterres descreveu três deslocamentos que ocorrem ao mesmo tempo. A força econômica se espalhou por novos polos entre os países, a influência escorreu dos governos para as grandes empresas e as pessoas passaram a transferir escolhas para a inteligência artificial.
Foi sobre a tecnologia que ele fez seu alerta mais duro. O secretário-geral observou que sistemas de armamento capazes de operar sozinhos já saíram das telas de cinema e chegaram aos campos de batalha, enquanto as estruturas de governança seguem moldadas por uma realidade que ficou para trás.
Reduzir essa distância, afirmou, é a tarefa central do momento. A preocupação não é inédita em sua agenda. Dias antes, ele havia reunido representantes de vários países para pedir uma regulação coordenada da IA, capaz de impedir que a tecnologia amplie desigualdades já existentes.
O clima, bandeira que acompanhou os dois mandatos, também teve espaço na despedida. Guterres pediu que todos os governos adotem planos nacionais para abandonar os combustíveis fósseis, alinhados ao limite de 1,5°C, com prazos definidos e amparo aos trabalhadores e comunidades afetados pela transição.
A definição do próximo secretário-geral está prevista para o fim de 2026, e a disputa já tem um nome à frente.
Favorita na sucessão
A principal candidata ao comando da ONU é a economista Rebeca Grynspan, que já foi vice-presidente da Costa Rica e hoje dirige a agência da organização voltada a comércio e desenvolvimento, a UNCTAD.
Ela saiu na frente na mais recente consulta informal do Conselho de Segurança, feita em 18 de setembro, uma sondagem usada para medir a força de cada candidatura antes da indicação oficial.
Num evento na Devex Impact House, Grynspan garantiu que promoverá mudanças de peso caso assuma o cargo. Em sua avaliação, a ONU concentra estrutura demais na cúpula, hesita diante de decisões arriscadas e evita lidar com as próprias falhas internas. Ela se apresenta como uma gestora acostumada a modernizar instituições.
A ideia, ressalvou, é renovar sem demolir. Para a economista, a organização reuniu ao longo de oito décadas uma cultura e um conjunto de instrumentos que merecem ser preservados e aperfeiçoados, não descartados.
Entre as metas, mencionou direcionar mais recursos à atuação local, estreitar a cooperação com países em desenvolvimento e ousar mais na hora de mediar disputas. Defende ainda que quem ocupa o cargo precisa assumir o ônus dos fracassos, já que, na visão dela, a ONU é a única instância disposta a tentar repetidas vezes até chegar a um resultado.
