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InvestMercadosACS
13/08/2026
6 min

Hapvida cai 20% após balanço: veja os pontos que deixaram o mercado em alerta

Lucro líquido ajustado ficou em apenas R$ 12,5 milhões, contra R$ 143 milhões esperados pelo BTG Pactual (mesmo grupo controlador da EXAME)

Hapvida cai 20% após balanço: veja os pontos que deixaram o mercado em alerta

As ações da Hapvida (HAPV3) despencam mais 20% no pregão desta quinta-feira, 13, liderando com folga a pior queda do dia, após a operadora de saúde reportar seus resultados do segundo trimestre de 2026 no dia anterior. Na avalição do Itaú BBA e do BTG Pactual (mesmo grupo controlador da EXAME), os resultados vieram abaixo das expectativas e foram lidos pelo mercado como negativos.

Um dos pontos de destaque é a sinistralidade, ou seja, quanto da receita do plano está sendo consumida pelos gastos com atendimento médico. No momento atual, a empresa está recebendo dinheiro dos clientes, mas uma parcela maior desse dinheiro está sendo gasta para prestar os serviços de saúde. Isso pôde ser visto nos números.

No trimestre, a sinistralidade caixa ficou em 75,2%. Isso significa que aproximadamente R$ 75 de cada R$ 100 recebidos pelos planos foram consumidos pelos custos médicos. E isso piorou. No trimestre anterior, estava 3 pontos percentuais abaixo. Ou seja, cerca de 72,2%. A projeção do Itaú BBA era de uma sinistralidade de 74,6%, enquanto do BTG Pactual era de 74,5%.

Para o banco, um dos motivos da piora desse indicador foi sazonal, já que o segundo trimestre costuma ser mais pesado para as operadoras de saúde. A Hapvida disse que teve mais contas médicas relacionadas ao aumento da utilização dos serviços em março.

Mas há ainda um outro: os processos judiciais. “Além da sazonalidade normalmente desfavorável do segundo trimestre, o desempenho refletiu um maior carregamento de contas médicas relacionadas à utilização mais elevada observada em março de 2026, assim como maiores despesas com depósitos judiciais cíveis, que adicionaram R$ 37 milhões aos sinistros na comparação trimestral”, diz o Itaú BBA em relatório.

Processos e depósitos judiciais

A judicialização voltou a pesar sobre os resultados da Hapvida no segundo trimestre. Segundo o Itaú BBA, a empresa registrou R$ 350 milhões em novos depósitos judiciais líquidos no 2T26, valor consideravelmente acima do ritmo dos trimestres anteriores. Os depósitos judiciais são valores que a companhia precisa desembolsar ou deixar vinculados a processos enquanto as disputas na Justiça são resolvidas.

Com isso, as despesas com contingências e tributos chegaram a R$ 359 milhões, ante R$ 283 milhões no primeiro trimestre e R$ 169 milhões no mesmo período de 2025. Para o banco, a judicialização se consolidou como “a principal fonte de incerteza para os resultados daqui para frente”.

O aumento dessas despesas também ajudou a pressionar o resultado operacional da companhia. O BTG Pactual destacou que a Hapvida teve um EBITDA ajustado de R$ 504 milhões no 2T26, queda de 44% em relação ao mesmo período do ano passado e 30% abaixo da estimativa do banco. Foi o pior resultado de EBITDA da companhia nos últimos cinco anos. A margem Ebitda, por sua vez, caiu 5,5 pontos percentuais, para 6,3%.

De acordo com o BTG, a queda refletiu, entre outros fatores, a piora da sinistralidade, maiores despesas corporativas e de vendas e, principalmente, “um salto nas despesas com contingências, que, por sua vez, estiveram relacionadas à judicialização”.

A relação entre os processos judiciais e o EBITDA, portanto, está principalmente no aumento das despesas que a Hapvida precisa reconhecer em razão dessas disputas. Quanto maiores as contingências e os gastos associados à judicialização, maior a pressão sobre o resultado operacional e, consequentemente, sobre o EBITDA.

O problema não ficou restrito ao lucro contábil: os depósitos judiciais também representam uma saída de caixa para a companhia. Depois do resultado operacional mais fraco e das despesas relacionadas às contingências, a Hapvida terminou o trimestre com prejuízo líquido contábil de R$ 217 milhões, enquanto o lucro líquido ajustado ficou em apenas R$ 12,5 milhões, contra R$ 143 milhões esperados pelo BTG, uma queda de 98,5% ante o mesmo período do ano anterior.

Para os bancos, o ponto de atenção é justamente saber se o aumento da judicialização é pontual ou se representa uma pressão que continuará afetando a rentabilidade da Hapvida.

Beneficiários, ticket médio e revisão da carteira

A Hapvida terminou o segundo trimestre com perda líquida de 16 mil beneficiários de planos de saúde, uma melhora em relação à redução de 44,5 mil no primeiro trimestre. Tanto o Itaú BBA quanto o BTG Pactual destacaram que o principal impacto veio da carteira Corporativa, enquanto os planos Individuais e de Afinidade ajudaram a compensar parte das perdas.

Ao mesmo tempo, o ticket médio aumentou 5,7% na comparação anual, para R$ 306 por mês. Esse avanço, porém, não significa que toda a carteira esteja apresentando a mesma rentabilidade. A Hapvida identificou aproximadamente 947 mil beneficiários, equivalentes a 11% da base de saúde suplementar, cujos contratos estão passando por uma revisão comercial por apresentarem condições econômicas consideradas desfavoráveis.

Segundo os dois bancos, o ticket médio desse grupo é aproximadamente metade do ticket médio da carteira consolidada. A estratégia da companhia, portanto, é revisar esses contratos para tentar melhorar sua rentabilidade, seja por meio de reajustes de preços ou, eventualmente, da descontinuação de alguns planos.

O BTG destacou que cerca de 9 mil das perdas de beneficiários no trimestre já estavam relacionadas a contratos em revisão. Para o Itaú BBA, esse processo pode levar algum tempo, mas indica uma tentativa da Hapvida de deixar de priorizar apenas o crescimento da base e passar a buscar uma carteira mais rentável. Como resumiu o banco, a companhia está fazendo uma “otimização da carteira” para identificar contratos potencialmente deficitários e estabelecer critérios mais rígidos para clientes inadimplentes.

Recomendação neutra

A combinação de maiores depósitos judiciais, piora da sinistralidade e pagamentos de juros pressionou o fluxo de caixa livre no trimestre. A dívida líquida aumentou R$ 236 milhões na comparação trimestral, elevando a alavancagem financeira para 2,49 vezes, ante 2,0 vezes no trimestre anterior, segundo as métricas utilizadas pela companhia.

Desde a chegada da nova equipe, a Hapvida vem promovendo mudanças em sua estratégia, mas os efeitos ainda não apareceram nos resultados. Para o BTG Pactual, a companhia continua enfrentando desafios importantes, como a judicialização, a utilização elevada dos serviços médicos, a estrutura de custos fixos e a perda de participação de mercado, refletida na redução da base de beneficiários.

O banco também chama atenção para o fato de que 11% da carteira de saúde está em condições econômicas desfavoráveis, o que pode levar a Hapvida a aplicar reajustes relevantes nos preços ou até descontinuar alguns contratos.

Apesar de acompanhar os próximos passos da reestruturação, o BTG diz que ainda prefere esperar sinais mais concretos de recuperação antes de incorporar esse potencial ao valor das ações. “Preferimos não antecipar os ganhos da recuperação”, afirma o banco, que mantém recomendação neutra para a Hapvida diante dos riscos de execução e dos desafios operacionais que ainda permanecem.

O preço-alvo do Itaú BBA para 2026 é R$ 13, enquando do BTG Pactual para os próximos 12 meses é R$ 15.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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