Hapvida (HAPV3) ganha novo problema: ANS barra estratégia que coloca 950 mil clientes na mira e ações caem quase 7%
Regulador vê indícios de seleção de risco e suspende reajustes e cancelamentos envolvendo cerca de 950 mil beneficiários; Hapvida contesta versão e ações caem quase 7%

Se a Hapvida (HAPV3) voltou a respirar por aparelhos na bolsa depois dotrágico balanço do segundo trimestre, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) parece disposta a testar até onde os fios aguentam. Nesta quinta-feira (20), o presidente do órgão, Wadih Damous, anunciou a suspensão preventiva de reajustes e cancelamentos de contratos anunciados recentemente pela operadora.
De acordo com a ANS, a medida busca assegurar o cumprimento das normas regulatórias e a proteção dos beneficiários diante da dimensão da medida anunciada. A notícia foi publicada pelo jornal O Globo.
Na última semana, após divulgar números desastrosos referentes ao período de abril a junho e amargar uma queda de 33% na bolsa em um único dia, a companhia aproveitou a teleconferência de resultados para tentar acalmar os ânimos e apresentar um plano para colocar a casa em ordem. No cerne da estratégia, está a busca por rentabilidade.
No entanto, a companhia encontrou quase 947 mil beneficiários, cerca de 11% da base de clientes, que não se encaixam nos critérios, uma vez que não entregam retorno suficiente para a operadora, segundo a diretoria.
Com isso, durante a teleconferência, o CEO Luccas Adib afirmou que pretende aproveitar os próximos ciclos de renovação para tentar reequilibrar esses contratos por meio de reajustes. Se a conta não fechar, a companhia admite abrir mão dos clientes — ou seja, rescindir a cobertura dessas vidas.
Uma ANS no caminho
Em comunicado sobre a decisão, a ANS afirmou que a operadora foi notificada a prestar esclarecimentos e terá uma reunião com a agência para explicar a proposta de aplicar reajustes elevados ou cancelar unilateralmente contratos que envolvem cerca de 950 mil beneficiários.
“Em vista do grande número de contratos e de vidas envolvidas, essa medida tem uma aparência muito forte de seleção de risco, o que é proibido e que será apurado pela ANS. Assinamos uma medida cautelar para frear qualquer medida de rescisão ou reajuste até que os esclarecimentos sejam prestados”, afirmou Damous.
A Hapvida, porém, apresenta uma versão diferente. A companhia afirma que tomou conhecimento da medida pela imprensa e que não foi devidamente notificada nem chamada previamente a prestar esclarecimentos ou apresentar os elementos técnicos, contratuais e regulatórios relacionados ao tema. Diante disso, informou ter solicitado uma audiência com a ANS.
Segundo a operadora, as medidas questionadas pelo regulador estão relacionadas a contratos inadimplentes e à renegociação de grandes contratos coletivos empresariais que apresentam desequilíbrio econômico-financeiro.
No caso desses grandes contratos, a Hapvida afirma que as negociações ocorrem durante os períodos regulares de renovação, de forma individualizada e em conformidade com as normas da ANS. A companhia ressalta ainda que a revisão das condições não implica necessariamente o cancelamento dos contratos.
“A revisão desses contratos não significa, necessariamente, o seu cancelamento. O processo contempla a negociação com as empresas contratantes e a busca por condições que permitam o reequilíbrio e a continuidade dos contratos, respeitados os critérios contratuais e regulatórios aplicáveis. A decisão de rescisão ou saída será sempre do cliente, caso as bases de sustentabilidade do contrato não sejam, dentro do regime da livre iniciativa, alcançadas”, afirmou a Hapvida.
A companhia acrescentou que apresentará ao órgão regulador todos os esclarecimentos e informações pertinentes e reiterou sua confiança no diálogo com a ANS.
Com isso, as ações da Hapvida fecharam o dia em queda de 6,82%, a R$ 6,11. Isso porque, segundo analistas do Itaú BBA, as medidas de revisão de contratos e reajuste de carteira eram uma parte importante do plano da administração para melhorar a rentabilidade e a geração de caixa nos próximos trimestres.
“Ainda não está claro se a análise regulatória reportada poderá, no fim das contas, limitar a implementação dessas medidas ou apenas afetar seu cronograma. Neste momento, o desdobramento representa um risco de baixa para nossas estimativas futuras, ao potencialmente atrasar, restringir ou alterar o alcance das medidas planejadas”, afirmaram os analistas em relatório a clientes nesta quinta-feira, segundo a Reuters.
