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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
14/09/2026
5 min

'Haverá um impacto severo sobre a produtividade': o alerta do CEO da Yara

Guerra no Oriente Médio pressiona fertilizantes enquanto agricultores reduzem o uso do insumo para proteger as margens, diz Svein Tore Holsether, CEO global da Yara

'Haverá um impacto severo sobre a produtividade': o alerta do CEO da Yara

SLUISKIL* (HOLANDA) – Cerca de metade da produção mundial de alimentos depende diretamente de fertilizantes, segundo Svein Tore Holsether, CEO global da Yara. Agora, a combinação da guerra no Oriente Médio, da energia mais cara e das margens apertadas dos agricultores ameaça justamente o insumo que sustenta essa produção.

Para o executivo, a guerra no Irã, em curso desde fevereiro deste ano, piora ainda mais esse quadro. Segundo ele, os impactos sobre energia, matérias-primas e logística mostram a fragilidade da cadeia global de fertilizantes.

“É um dos estreitos mais importantes para a exportação de fertilizante de ureia. Cerca de 30% da ureia comercializada passa pelo Estreito de Ormuz, mas ele também é importante para o enxofre, que é muito relevante para a produção de fertilizantes fosfatados”, diz o executivo.

A ureia, que custava cerca de US$ 80 por tonelada em 2024, chegou a aproximadamente US$ 1,2 mil por tonelada no auge da guerra no Irã, uma alta de quase 1.400%. Embora tenha recuado para a faixa de US$ 800 por tonelada, o preço continua elevado e pressiona a cadeia de fertilizantes.

Já o enxofre, embora não seja aplicado diretamente em grandes volumes nas lavouras, é uma matéria-prima essencial para a produção de ácido sulfúrico, usado na fabricação de fertilizantes fosfatados como MAP e DAP. São esses fertilizantes que entregam fósforo às plantas, nutriente importante para o desenvolvimento das raízes, a formação de energia celular e o ganho de produtividade no campo.

O problema não termina na oferta. Com fertilizantes mais caros, agricultores de diferentes mercados estão reduzindo a aplicação para proteger as margens já apertadas. Na safra 2026/27, o produtor deve ter uma daspiores margens para a soja dos últimos 20 anos.

As exportações globais de enxofre caíram quase 40% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O preço médio do produto chegou a US$ 733 por tonelada, valor 2,7 vezes superior à média de 2025, segundo cálculos do Rabobank, banco holandês voltado para o agronegócio.

Para Holsether, essa decisão pode aliviar o caixa no curto prazo, mas cobra uma conta mais adiante: a menor disponibilidade de nutrientes no solo tende a reduzir a produtividade das lavouras.

“Se você não fornecer os nutrientes adequados aos campos dos agricultores, a produção e a produtividade cairão. Em alguns casos, você pode adiar isso por algum tempo, mas eventualmente isso aparecerá na forma de rendimentos menores”, afirma.

O efeito, segundo o executivo, não precisa aparecer imediatamente. O produtor pode postergar a reposição de nutrientes por algum tempo, mas a redução prolongada da aplicação tende a comprometer o rendimento das culturas.

“Todos os estudos de longo prazo mostram o mesmo resultado: haverá um impacto severo sobre a produtividade”, afirma Holsether.

Levantamento do Rabobank, mostra que o produtor rural brasileiro deve pisar no freio na atual temporada. Após um recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes entregues em 2025, o país deve reduzir o consumo para 45,1 milhões de toneladas em 2026, segundo projeções do banco.

A estimativa já caiu de 47 milhões de toneladas em abril, e o Rabobank ainda vê espaço para uma nova revisão para baixo. O banco estima que esse processo de ajuste financeiro dure mais um ano e meio.

O efeito El Niño

A preocupação ganha uma dimensão maior, diz o CEO da Yara, quando o El Niño, fenômeno climático que deve chegar ainda este mês ao Brasil, é adicionado à equação.

O executivo alerta para o risco de uma combinação entre eventos climáticos extremos, aplicação inadequada de fertilizantes e umEl Niño mais forte. Isoladamente, cada fator já pode pressionar a produção; juntos, podem ampliar o impacto sobre a oferta mundial de alimentos.

“Se houver uma combinação de condições climáticas severas, aplicação inadequada de fertilizantes e talvez também um El Niño mais forte, a combinação de tudo isso pode ser grave”, afirma.

Para o Brasil, a questão é particularmente sensível. O país tem disponibilidade de terra agricultável, água e condições climáticas favoráveis, mas depende de uma quantidade significativa de fertilizantes para manter a produtividade dos solos. Cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.

“O fertilizante é particularmente importante no Brasil porque o país tem muitos elementos importantes para a produção de alimentos. Há terras agricultáveis disponíveis e boas condições climáticas, com sol e água. Mas o solo brasileiro precisa de uma quantidade significativa de fertilizantes para continuar produtivo”, afirma Holsether.

O executivo também chama atenção para o efeito econômico da redução do uso de fertilizantes. Agricultores estão administrando seus negócios e precisam tomar decisões diante de custos elevados. O problema é que uma economia feita hoje pode significar uma perda de produtividade nas próximas safras.

“Os agricultores também administram negócios, certo? Portanto, precisam fazer o que é adequado para seus resultados financeiros”, afirma.

*O repórter viajou a convite da Yara Fertilizantes

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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