Hipermercado, atacarejo e expansão de shopping: o plano do bilionário Grupo Zaffari para São Paulo
Companhia que faturou R$ 8,83 bilhões em 2025 estreia a bandeira Cestto fora do Rio Grande do Sul e prepara uma nova etapa de investimentos no mercado paulista

Durante os 18 anos em que está em São Paulo, o Grupo Zaffariabriu apenas dois supermercados. O primeiro veio em 2008, junto com o Bourbon Shopping São Paulo, no bairro Pompeia, que também é administrado pelo grupo gaúcho. O segundo, no Morumbi Town, chegou em 2016.
Agora, a rede que domina o Rio Grande do Sul prepara dois movimentos em um intervalo bem menor. Até o fim de agosto, abre em Taboão da Serra a primeira unidade paulista do Cestto, sua bandeira de atacarejo.
No primeiro semestre de 2027, a previsão é inaugurar um novo hipermercado no Shopping Center Norte, na zona norte da capital. Em paralelo, a companhia tenta destravar um projeto imobiliário comercial e residencial do outro lado da rua do Bourbon Pompeia.
É uma mudança de ritmo para uma companhia acostumada a maturar imóveis por anos antes de transformá-los em lojas. Fundado em 1935, o Grupo Zaffari lidera o varejosupermercadista do Rio Grande do Sul.
A Companhia Zaffari faturou R$ 8,83 bilhões em 2025 e aparece na 15ª posição do Ranking Abras 2026 entre as maiores empresas do varejo alimentar do país. Além dos supermercados e atacarejos, o grupo administra 14 shopping centers e atua com cartões e incorporação imobiliária.
A lógica da expansão paulista, segundo Claudio Luiz Zaffari, diretor do grupo e membro da família controladora, passa menos por uma corrida por pontos comerciais e mais pelo tempo necessário para preparar cada endereço.
“Veja, nós abrimos a primeira operação em 2008, a segunda em 2016, vamos abrir a porta agora em 2026. Quer dizer, nós temos um bom tempo de preparação”, diz Zaffari.
Como será o primeiro atacarejo do Zaffari em São Paulo
O primeiro movimento dessa nova fase está praticamente pronto. O Grupo Zaffari investiu R$ 95 milhões, sem considerar o terreno, para construir o Cestto Taboão da Serra. Será a quinta unidade da bandeira, criada em 2023, e a primeira fora do Rio Grande do Sul.
A loja terá 6.443 metros quadrados de área de vendas, a maior entre as unidades do Cestto. Serão mais de 10 mil itens, 485 vagas de estacionamento e uma galeria comercial com 17 lojas. A operação deve gerar 350 empregos diretos, dos quais 290 dentro do próprio atacarejo.
O terreno ainda preserva 12.611 metros quadrados de área ambiental. Segundo o Zaffari, o endereço não foi escolhido apenas pelo tamanho disponível. A loja fica junto à Rodovia Régis Bittencourt, em uma cidade com alta densidade populacional e integrada à mancha urbana da capital. Para o Zaffari, também há uma coincidência histórica.
No fim dos anos 1950, quando a família começou a ampliar as relações comerciais entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, os caminhões do grupo levavam cereais produzidos no Sul para atacadistas paulistas e retornavam carregados de produtos fabricados pela indústria de São Paulo. O caminho passava justamente pela Régis Bittencourt e por Taboão da Serra.
Mais de seis décadas depois, a estrada volta a fazer parte da estratégia de expansão.
O formato escolhido para o local também recupera uma atividade antiga do grupo. Antes de consolidar os supermercados, o Zaffari teve operação de atacado no Rio Grande do Sul. O Cestto retoma esse negócio em uma versão que mistura venda em volume com serviços encontrados nos supermercados da companhia.
“Da parte da companhia Zaffari, que é tradicionalmente operadora de supermercados e atacados, não tem como nós não levarmos a nossa experiência, nossos produtos, nossos serviços, nossos funcionários, o nosso jeito para o atacarejo”, afirma o diretor Claudio Luiz Zaffari.
Na prática, o Cestto tenta atender dois públicos no mesmo prédio. Restaurantes, escolas, fábricas e outros compradores profissionais podem acessar preços por volume. O consumidor doméstico também consegue comprar em quantidade, mas encontra padaria, rotisseria, hortifrúti, adega, açougue e ilha de frios — áreas mais associadas ao supermercado tradicional.
Claudio Luiz Zaffari, diretor do Grupo Zaffari: companhia prepara novas operações de atacarejo, hipermercado e um projeto imobiliário ligado ao Bourbon Shopping São Paulo (Leandro Fonseca/Exame)
Como o Zaffari atendera as unidades paulistas
Antes de colocar a nova loja de pé, o Zaffari preparou a retaguarda.
Entre o fim de 2025 e o começo de 2026, o grupo montou um centro logístico em Embu das Artes, próximo ao Rodoanel. A estrutura foi criada para apoiar os novos empreendimentos que a companhia pretende ter em São Paulo nos próximos anos.
O centro de Embu concentra produtos não perecíveis. Parte da estrutura para perecíveis e processamento ficará ligada à operação de Taboão da Serra. A localização também encurta o caminho para a loja do Morumbi: Zaffari estima uma viagem de cerca de 15 minutos entre os dois pontos.
É uma inversão da lógica mais visível de expansão do varejo. Em vez de abrir primeiro uma sequência de lojas e depois ampliar a distribuição, o grupo criou capacidade logística antes de acelerar o número de endereços.
“O principal é ampliar a nossa capacidade de logística e fazer esse atendimento em Taboão, que é muito próximo da nossa central logística, em Embu das Artes”, afirma Zaffari.
A própria loja de Taboão levou anos para sair do papel. Segundo o diretor, o imóvel foi adquirido em 2019. Entre compra, projetos, negociações com o poder público, obras de infraestrutura e construção, foram cerca de sete anos.
Não é um prazo fora do padrão da família. O imóvel do antigo Shopping Matarazzo, que daria origem ao Bourbon Shopping São Paulo, foi adquirido no fim dos anos 1990. A operação só abriu em março de 2008, quase uma década entre planejamento, aprovações e obras.
Onde será o novo hipermercado do Zaffari em São Paulo
O endereço de mais um projeto do grupo em São Paulo já está definido. O Grupo Zaffari prepara um hipermercado no Shopping Center Norte, na zona norte paulistana, em uma área anteriormente ocupada por outra grande operação supermercadista.
Será a terceira loja Zaffari na capital e, segundo o grupo, a maior de suas operações paulistas. A expectativa de Claudio Luiz é colocá-la em funcionamento no primeiro semestre de 2027, mas ainda não há uma data de inauguração.
Por enquanto, o cronograma depende das obras realizadas pelo próprio Center Norte. O shopping está fazendo demolições, ajustes e reconstruções no espaço e deverá entregá-lo ao Zaffari para que a rede faça instalações e acabamentos.
“Não começamos a nossa parte da obra. O Shopping Center Norte está concluindo as demolições que está fazendo lá”, afirma Zaffari. “É uma loja grande, tinha uma loja grande lá, vai ser uma loja grande, só que totalmente repaginada, com outras características”.
A abertura amplia uma presença em São Paulo que começou pelo próprio modelo de hipermercado dentro de shopping. No Bourbon São Paulo, o supermercado funciona como uma das principais âncoras do empreendimento. No Morumbi Town, o grupo repetiu a combinação a partir de 2016.
Na visão da companhia, recuperar uma área de varejo já consolidada também reduz a necessidade de ensinar o consumidor a usar um novo endereço. O desafio passa a ser adaptar estruturas antigas às exigências atuais de circulação, equipamentos, exposição de produtos e serviços.
O executivo cita esse processo como parte de uma renovação geracional do varejo. Muitos dos grandes hipermercados brasileiros surgiram a partir das décadas de 1960 e 1970. Décadas depois, alguns prédios continuam comercialmente relevantes, mas precisam ser reconstruídos por dentro para receber novos formatos.
Ampliação de shopping
A terceira frente não é apenas supermercadista. Na esquina da Rua Palestra Itália com a Avenida Pompeia, o Zaffari tem um terreno de quase 5 mil metros quadrados onde pretende erguer um empreendimento de uso misto, com áreas comerciais e residenciais. O projeto está em fase de estudos e aprovações e ainda depende da Prefeitura de São Paulo.
A ideia é fazer o novo complexo funcionar como uma continuação do Bourbon Shopping São Paulo.
Pelo desenho apresentado por Zaffari, serão inicialmente três grandes pavimentos comerciais, com a parte residencial construída acima. Uma passarela deverá cruzar a Rua Palestra Itália para ligar diretamente o novo empreendimento ao shopping existente.
A intenção da companhia é começar as obras em 2027, mas o executivo evita estabelecer um calendário enquanto as aprovações não estiverem concluídas.
O projeto também mexe com um endereço conhecido do bairro. O grupo fechou um acordo com a Pastelaria Brasileira, que ocupa parte da área e está na região desde os anos 1970. O estabelecimento deverá migrar para um imóvel maior, alguns metros adiante, mais próximo ao estádio do Palmeiras, liberando o restante do terreno para as obras.
É a próxima etapa de uma estratégia imobiliária que o Zaffari já vinha preparando na Pompeia. A companhia adquiriu mais de 20 terrenosna região para a ampliação do complexo.
Hoje, o Bourbon Shopping São Paulo possui 44,6 mil metros quadrados de área bruta locável, cerca de 200 lojas e fluxo médio de 1,2 milhão de pessoas por mês.
A expansão para o outro lado da rua adiciona outro componente ao modelo: moradia. Em vez de depender exclusivamente do fluxo gerado por lojas, restaurantes e supermercado, a companhia passa a colocar residências no mesmo conjunto imobiliário.
O que mais pode vir
Cestto, Center Norte e a expansão da Pompeia são os projetos paulistas em estágio mais avançado, mas não encerram os planos do grupo.
Zaffari diz que há outros imóveis sendo avaliados e que a escolha do formato não começa pela vontade de abrir um supermercado ou um atacarejo. Começa pelo terreno e pelo público ao redor.
“A escolha entre um atacarejo ou um supermercado ou hipermercado convencional é muito da localização do terreno, daquele entorno ali”, afirma Zaffari.
Na região metropolitana, ele vê espaço para outros atacarejos. Na capital, supermercados tradicionais também continuam na mesa. Nenhum desses projetos, porém, está definido.
O histórico ajuda a entender a cautela. O grupo levou cerca de dez anos entre a compra do antigo Matarazzo e a abertura do Bourbon São Paulo. Foram sete anos no caso do imóvel de Taboão da Serra. E há propriedades compradas há décadas que ainda não receberam um empreendimento.
“Cada imóvel, cada localização, no seu tempo, no seu momento, vai ter a análise e a definição”, diz Zaffari.
