Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
26/10/2026
6 min

Hitachi investe mais de R$ 1,8 bilhão para preparar o Brasil para a Era da Eletricidade

Com a demanda por energia em alta, companhia amplia produção de transformadores e aposta no potencial do país para atrair novos investimentos.

Hitachi investe mais de R$ 1,8 bilhão para preparar o Brasil para a Era da Eletricidade

O Brasil tem energia renovável em abundância, um mercado consumidor em expansão e potencial para atrair bilhões em investimentos ligados à inteligência artificial. Mas há um desafio a ser superado: a eletricidade nem sempre consegue chegar aonde é necessária — e no prazo que as empresas precisam.

Um data center, por exemplo, pode ficar pronto em dois ou três anos. Já a infraestrutura de transmissão necessária para abastecê-lo leva de quatro a cinco anos para ser concluída. Na prática, isso significa que um empreendimento pode estar pronto para operar, mas ainda não ter acesso à energia de que precisa.

O contexto desafiador é também uma oportunidade ao Brasil. Em entrevista à EXAME, Glauco Freitas, Presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head da Região Sul da América Latina, explica como o cenário é oportuno para a companhia anunciar medidas para posicionar o país como destino de investimentos em inteligência artificial e digitalização da economia.

“É preciso garantir que a energia renovável, abundante e barata chegue aonde precisa chegar”, afirma.

O desafio ganha dimensão à medida que os data centers se tornam peças cada vez mais importantes da economia digital. São eles que abrigam os equipamentos responsáveis por processar desde uma pergunta ao ChatGPT até uma transação bancária, um vídeo por streaming ou o armazenamento de arquivos na nuvem. Por trás de serviços que parecem funcionar instantaneamente, há instalações físicas que dependem de grandes volumes de eletricidade.

É para ajudar a preparar o sistema elétrico para essa nova demanda que a Hitachi Energy está ampliando sua operação industrial no Brasil. Nesta quinta-feira, 22 de outubro, a companhia apresentou a expansão da fábrica de transformadores de potência em Guarulhos, na Grande São Paulo, e anunciou um novo investimento de R$ 385 milhões na produção de componentes.

Com isso, o ciclo de investimentos da empresa no país entre 2024 e 2026 ultrapassa R$ 1,8 bilhão, em uma aposta no crescimento da demanda por infraestrutura elétrica.

A corrida da IA também depende de transformadores

Quando se fala em inteligência artificial, a atenção costuma se voltar para chips, servidores e grandes centros de processamento de dados. Mas existe uma infraestrutura menos visível, e igualmente indispensável, para que tudo isso funcione: a rede elétrica.

É nesse mercado que a Hitachi Energy atua. A empresa fabrica equipamentos como transformadores de potência, responsáveis por elevar ou reduzir a tensão da eletricidade para permitir seu transporte por longas distâncias e sua distribuição aos consumidores.

A expansão da unidade de Guarulhos eleva em 40% a capacidade produtiva da companhia. O movimento vai atender não apenas à demanda tradicional do setor elétrico, mas também às necessidades de uma economia cada vez mais dependente de eletricidade.

Além dos data centers, essa pressão vem de projetos de hidrogênio verde, da expansão dos veículos elétricos e de indústrias que precisam substituir combustíveis fósseis por fontes de energia menos poluentes.

Para Freitas, o desafio brasileiro não é apenas produzir mais eletricidade. É garantir que ela possa ser transportada até os locais onde esses novos negócios serão instalados.

Uma oportunidade que não pode esperar

O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, um sistema elétrico com instituições e regras que deram previsibilidade aos investimentos. Na avaliação de Freitas, essa estrutura foi fundamental para o desenvolvimento do setor, mas precisa acompanhar a velocidade das transformações em curso.

A preocupação é que os prazos de planejamento, autorização e construção das redes elétricas não acompanhem a chegada de novos empreendimentos. E, em um mercado global no qual países disputam investimentos em tecnologia e descarbonização, o tempo pode ser decisivo.

“Reforços e melhorias são uma questão para ontem, para não perder essa janela de oportunidades. Os próximos 25 anos serão fundamentais para estabelecer a infraestrutura elétrica que as gerações futuras vão precisar.”

O executivo também defende que a discussão sobre a expansão da infraestrutura considere o impacto das tarifas de energia. Afinal, não basta garantir o fornecimento: o custo da eletricidade também pesa na decisão de empresas que avaliam onde instalar suas operações.

Na visão de Freitas, modernizar a estrutura tarifária e dar condições para que os investimentos na rede avancem são medidas que precisam caminhar juntas.

Por que a Hitachi aposta mais de R$ 1,8 bilhão no Brasil

A decisão de ampliar a produção local também reflete o peso que o Brasil conquistou dentro da operação global da Hitachi Energy.

Presente no país desde 1954, a companhia considera o mercado brasileiro um dos dez mais importantes do grupo, tanto em faturamento quanto em dimensão.

Segundo Freitas, essa posição foi construída ao longo de décadas de desenvolvimento tecnológico, formação de profissionais especializados e relacionamento com clientes do setor elétrico. “A empresa foi desenvolvendo tecnologia e pessoas que viraram referência mundial”, afirma.

O executivo também destaca o papel de instituições como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) na construção de um ambiente mais previsível para os negócios.

Durante a apresentação da expansão em Guarulhos, Sandoval Feitosa, representante da Aneel, reforçou a importância dessa estabilidade para atrair capital. Segundo ele, o ambiente institucional permite que as empresas “tenham confiança de investir no Brasil de hoje, mas principalmente no Brasil de amanhã”.

Outro fator que pesa na estratégia da Hitachi Energy é o potencial exportador da indústria brasileira. A produção local atende tanto ao mercado doméstico quanto a clientes internacionais, em um momento de crescimento global dos investimentos em infraestrutura para a transição energética.

A demanda cresceu — e revelou novos gargalos

A expansão do mercado de transformadores trouxe um desafio adicional para a indústria: garantir o fornecimento das peças necessárias para fabricar esses equipamentos. “Começaram a aparecer outros gargalos, por exemplo, componentes”, afirma Freitas.

É justamente nessa frente que a Hitachi Energy decidiu concentrar o novo aporte de R$ 385 milhões. O investimento será destinado à ampliação da produção de componentes essenciais para transformadores, como buchas, comutadores e materiais isolantes.

Embora pouco conhecidos fora do setor elétrico, esses itens cumprem funções fundamentais. As buchas permitem a passagem segura dos condutores de alta tensão pelos equipamentos. Os comutadores regulam a tensão elétrica, enquanto os materiais isolantes protegem os componentes internos.

Ao aumentar a fabricação dessas peças no Brasil, a companhia pretende reduzir a dependência de fornecedores externos, aliviar gargalos na cadeia produtiva e encurtar os prazos de entrega.

Mas produzir mais equipamentos é apenas parte da solução. Para Freitas, também será necessário melhorar o planejamento dos projetos que demandam infraestrutura elétrica, aproximando os calendários de expansão da rede dos cronogramas de novos empreendimentos.

A lógica é simples: quanto antes o setor souber onde e quando haverá necessidade de energia, maiores serão as chances de preparar a infraestrutura a tempo.

AutorExame Brand Solutions
FonteExame
Distribuído por