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Sacre Investimentos
NegóciosMPOLACS
23/06/2026
4 min

‘Hoje pagamos R$ 7 milhões de juros por dia’, diz CEO do Assaí

‘Hoje pagamos R$ 7 milhões de juros por dia’, diz CEO do Assaí

Quando o Assaí desembolsou cerca de R$ 7 bilhões para adquirir e reformar 66 pontos do Extra, em 2021, a conta parecia fazer sentido. A taxa básica de juros estava em 2%, e as projeções apontavam para um cenário de Selic ao redor de 7%. Cinco anos depois, a realidade é bem diferente.

"Quando me perguntam qual série estou assistindo, eu brinco que hoje assisto uma série de terror chamada Selic", diz Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.

A brincadeira do executivo resume o impacto que a política monetária teve sobre a companhia. Hoje, o Assaí desembolsa cerca de R$ 7 milhões por dia em despesas financeiras, incluindo fins de semana e feriados. No acumulado do ano, a conta chega a aproximadamente R$ 2,3 bilhões.

"Mesmo pagando esse valor, nós reduzimos o montante da dívida líquida em R$ 1,2 bilhão no último ano. Isso mostra a capacidade de geração de caixa da companhia", afirma.

A aposta que mudou o Assaí

A compra dos pontos do Extra marcou uma mudança estratégica na história da varejista. O objetivo era acelerar a presença do Assaí em regiões centrais das grandes cidades e ampliar sua participação entre consumidores de renda mais alta.

"Por muito tempo, o atacarejo foi visto como um varejão de pobre. Havia um desejo nosso de levar o modelo para as classes sociais mais elevadas", afirma.

A barreira imobiliária nas grandes metrópoles, segundo Belmiro, tornava quase impossível conseguir novos terrenos em regiões estratégicas. A aquisição dos pontos do Extra foi a maneira encontrada para acelerar essa expansão.

"Alguns desses pontos são muito difíceis de serem replicados, seja pela questão imobiliária ou pelo próprio licenciamento", afirma.

'Eu compraria o Extra novamente'

Apesar da conta dos juros, Belmiro diz que não se arrepende da operação.

"Se fosse hoje, eu compraria o Extra novamente, mas talvez tivesse negociado de forma diferente, principalmente a correção, se soubéssemos qual seria a taxa real de juros", afirma.

Segundo ele, parte da frustração veio do fato de que toda a operação foi construída em um cenário macroeconômico completamente diferente.

"Nós trabalhamos com a expectativa do Boletim Focus da época. Ninguém imaginava esse nível de juros", diz.

A expansão ficou mais lenta

O aumento dos custos financeiros obrigou o Assaí a mudar a rota. O plano original era abrir cerca de 15 lojas por ano. Agora, a prioridade é outra.

"Estamos investindo menos do que gostaríamos para reduzir a dívida", afirma o executivo que adiantou que para este ano estão previstas 5 novas lojas no estado de São Paulo.

"Hoje a prioridade é preservar caixa e reduzir a dívida", diz.

Veja também: Exclusivo: Farmácia, serviço financeiro e postos de gasolina - os novos investimentos do Assaí

Novas apostas continuam

Frear a expansão não significa interromper investimentos. Pelo contrário.

Farmácias, marcas próprias, serviços financeiros, parceria com iFood e Mercado Livre e até a entrada no mercado de postos de combustíveis fazem parte das novas frentes de crescimento da companhia.

"Estamos segurando investimentos, mas preparando as próximas transformações", afirma Belmiro.

O peso dos juros no Brasil

Para o executivo, o problema vai muito além do Assaí.

"Hoje, tirando a Rússia, que está em guerra, talvez o Brasil tenha a maior taxa de juro real do mundo", afirma.

Na avaliação dele, os juros elevados acabam cobrando um preço ainda maior da população.

"O impacto para as companhias existe, mas talvez o custo maior seja para a sociedade. O juro alto por muito tempo aumenta a desigualdade social", diz.

Olhar para os próximos dez anos

Sob o comando de Belmiro Gomes desde 2011, o Assaí saiu de um faturamento de R$ 3 bilhões para R$ 84,7 bilhões. Hoje, conta com cerca de 90 mil funcionários e recebe 40 milhões de clientes por mês.

Mesmo diante de um cenário mais adverso, o executivo mantém a convicção de que a aposta feita em 2021 será julgada pelo longo prazo, e não pelo custo atual da dívida.

"Algumas decisões estratégicas precisam ser tomadas, mesmo que exista o risco de as coisas não acontecerem como imaginávamos. Daqui a dez anos, a dívida terá ficado para trás. Os ativos continuarão lá", afirma.

Veja a entrevista completa de Belmiro Gomes, CEO do Assaí, no "De frente com CEO", programa de entrevista da EXAME:

AutorLayane Serrano
FonteExame
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