Holanda retira 78 toneladas de ouro dos EUA: importante sinal político, diz especialista
Medida foi justificada com várias razões práticas e logísticas, mas carrega grande peso político de maneira sutil

O Banco Central holandês transferiu 78 toneladas métricas de ouro, avaliadas em cerca de US$ 11 bilhões, de bancos em Nova York para Londres, citando preocupações geopolíticas.
A movimentação sinaliza uma estratégia de prioridade para a proteção das reservas diante do aumento das tensões diplomáticas e comerciais entre os Estados Unidos e a Europa.
A operação, que levou meses para ser concluída, alterou significativamente a distribuição das reservas holandesas. Quase um terço do ouro agora está em Londres, enquanto 19% permanece em Nova York, o que inverte a posição que as duas cidades ocupavam anteriormente.
Segundo o Banco Central holandês, a mudança visa ampliar a capacidade de negociar o metal em caso de eventual crise.
A instituição também retirou uma parcela de suas reservas armazenadas no Canadá, em uma operação que envolveu cerca de 86 toneladas no total, considerando os diferentes deslocamentos.
Para Diogo Castro e Silva, sócio da Nostrum Public Affairs e colunista da EXAME, porém, a justificativa não deve ser interpretada isoladamente. Segundo Castro, a medida é, de fato, um movimento político altamente calculado e igualmente sutil: “O famoso autor e estatístico norte-americano Nate Silver ensinou-nos a distinguir o sinal do ruído. O ruído é abundante e barulhento: tarifas, ameaças ao Fed, tweets. O sinal é raro, discreto e custa dinheiro.”
"A justificação é negociabilidade", continua Castro. "Ninguém desconfia de ninguém. Simplesmente descobriu-se, em 2026, que Londres é mais segura."
Por trás das cortinas, todavia, a operação não exigiu aviões nem caminhões: o banco holandês simplesmente vendeu 59 toneladas de ouro em Nova York e comprou a mesma quantidade em Londres, eliminando a necessidade de transportar fisicamente o metal pelo Atlântico.
“É um lançamento apenas contabilístico. E é isso que o torna um sinal, não um ruído: ninguém faz um gesto político com uma calculadora”, afirmou Castro.
Para ele, a decisão indica uma preocupação concreta com a capacidade de mobilizar reservas em um cenário de instabilidade.
Silêncio, estratégias e mensagens
Tensões geopolíticas entre os EUA e a Europa foram aprofundadas pela segunda administração de Trump, pondo em risco alianças históricas (SAUL LOEB/AFP)
Londres é hoje o principal centro mundial de negociação de ouro físico e concentra um mercado ativo de empréstimos e operações com o metal.
Segundo o banco holandês, as barras armazenadas no Banco da Inglaterra atendem aos padrões internacionais e, por isso, são consideradas mais fáceis de negociar em situações de crise.
Outro motivo logístico está nas características do ouro mantido em Nova York. As reservas armazenadas nos cofres do Federal Reserve incluem barras de formatos e tamanhos variados, o que dificulta sua utilização imediata em determinadas operações do mercado.
Por sua vez, o presidente do banco central holandês, Olaf Sleijpen, afirmou que a instituição espera nunca precisar utilizar as reservas em uma crise, mas considera necessário reforçar sua capacidade de resposta.
A estratégia é manter os ativos preparados para diferentes cenários, em vez de reagir apenas quando uma emergência já estiver instalada.
Todavia, a escolha ainda ganha peso político diante do desgaste das relações entre Washington e os países europeus nos últimos 18 meses. Tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, ameaças de tomar a Groenlândia e dúvidas sobre o compromisso militar americano com a Europa ampliaram a percepção de vulnerabilidade entre os aliados.
Para Castro, o próprio subterfúgio da operação é seu aspecto mais revelador:
“Quando os holandeses — e talvez isso seja importante para a realidade brasileira — reposicionam reservas em cenários de crise, não é pânico; é pensado e planejado. E a contabilidade, ao contrário da diplomacia, não sabe mentir.”
Tendência?
Ouro: Tensões políticas entre Trump e Europa levantam dúvidas sobre manter metal de vários países nos EUA (EyeEm Mobile GmbH/Getty Images)
A decisão também se insere em uma tendência mais ampla entre os bancos centrais. Depois de décadas de redução, as instituições voltaram a ampliar seus estoques de ouro a partir da crise financeira de 2008, enquanto a expansão das sanções internacionais levou países como a Rússia a buscar reservas menos dependentes do sistema financeiro americano.
A Holanda não é o único país europeu a rever a localização de seu ouro. O Banco Central da França informou neste ano que havia vendido 129 toneladas armazenadas em Nova York e comprado um volume equivalente na Europa, em uma operação que, segundo a instituição, encerrou duas décadas de aprimoramento de suas reservas.
Manter ouro no exterior, entretanto, também envolve riscos. A Venezuela passou anos em uma disputa judicial para recuperar bilhões de dólares em reservas mantidas no próprio Banco da Inglaterra, o que demonstra que, em momentos de ruptura política, até mesmo a posse física de um ativo pode se tornar uma questão diplomática.
“E o sinal também é que, quando o dinheiro anuncia que perde a confiança, não faz declaração; ele apenas pede a chave do cofre de volta”, afirma Castro.
No caso holandês, essa “chave” não foi tomada em meio a uma crise, mas uma retirada preventiva — e é justamente essa cautela que torna a medida relevante.
