Houthis ameaçam novos ataques à Arábia Saudita após atingir sede de petroleira estatal
Investida contra a maior petrolífera saudita ocorreu em meio a uma escalada militar no Iêmen e ampliou os riscos para aeroportos, instalações energéticas e rotas globais de petróleo

Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, prometeram intensificar os ataques contra aeroportos e instalações petrolíferas da Arábia Saudita após uma ofensiva contra a sede da estatal Saudi Aramco, na cidade de Dhahran, nesta terça-feira, 13.
Segundo informações apuradas tanto pelo Financial Times quanto pela Reuters, o ataque provocou danos extensos em vários andares do edifício administrativo da companhia, embora o Ministério da Energia saudita tenha informado que houve apenas um incêndio localizado. Não foram registrados mortos nem feridos dentro do prédio.
O complexo atingido abriga setores fundamentais para o funcionamento da Aramco, segundo a CNN, incluindo o departamento responsável pelo planejamento e programação do fornecimento de petróleo, além de escritórios da direção executiva e dos setores financeiro e jurídico. Fontes ouvidas pela Reuters dizem que as operações da companhia continuaram normalmente, com funcionários trabalhando de casa.
Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, 14, os houthis reivindicaram ataques com mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones contra a sede da Aramco em Dhahran, o aeroporto internacional de Riad e uma refinaria da empresa na capital saudita. O grupo afirmou que continuará alvejando aeroportos e instalações energéticas no país e classificou esses locais como “alvos legítimos”, recomendando que trabalhadores, civis e empresas internacionais de navegação se mantenham afastados.
As forças da coalizão liderada pela Arábia Saudita, por sua vez, afirmaram ter interceptado mísseis balísticos dirigidos a Riad e a outras localidades do país. Segundo a CNN, três mísseis de cruzeiro e dois drones que visavam a região da capital e o sul do país também foram interceptados. Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas por destroços das interceptações, segundo autoridades sauditas.
Guerra na Arábia Saudita
Destroços de um projétil sobre um veículo danificado, encontrados por equipes da Defesa Civil que verificavam os danos em um prédio de apartamentos em Riad, capital da Arábia Saudita, após um ataque. (Ahmed Nureldine/AFP)
A ofensiva contra a Aramco ocorre após uma série de ataques houthis ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad. No sábado, 10, uma dessas investidas matou 13 pessoas e deixou mais de 300 feridas, no episódio mais letal contra a Arábia Saudita em mais de uma década. O aeroporto foi atacado quatro vezes em meio à escalada recente e, segundo a Reuters, permanecerá fechado até 17 de outubro. Companhias aéreas cancelaram voos para o país, enquanto os Estados Unidos, o Reino Unido, a Espanha e o Canadá emitiram alertas sobre o uso do aeroporto. O Departamento de Estado americano também ampliou as restrições ao deslocamento de funcionários do governo no país.
A resposta saudita incluiu ataques contra instalações sob controle dos rebeldes no Iêmen. Na terça-feira, a coalizão liderada por Riad anunciou uma operação contra um depósito de combustível da Yemen Petroleum Company, localizado nos arredores de Sanaa, capital controlada pelos houthis. Os sauditas afirmaram que o local era utilizado para abastecer o arsenal de mísseis e drones empregados contra aeroportos, infraestrutura energética e embarcações comerciais no Mar Vermelho. O governo saudita havia orientado os civis a deixarem a região antes da ofensiva.
Os houthis contestaram a justificativa e afirmaram que o depósito não armazenava produtos petrolíferos. Segundo o grupo, os ataques mataram dois civis e feriram outros dois, informações que os veículos não puderam verificar de forma independente. A troca de ofensivas evidencia a ampliação da disputa para além dos alvos militares, com instalações de energia e áreas civis expostas aos confrontos.
A escalada também afeta os interesses econômicos da Arábia Saudita. O ataque à Aramco ocorreu durante o Congresso Mundial do Petróleo, realizado em Riad, quando executivos de grandes companhias internacionais deveriam participar de discussões sobre o setor. Segundo o Financial Times, dirigentes da ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies desistiram de comparecer devido à deterioração das condições de segurança. Executivos da Siemens Energy, da Baker Hughes e da SLB estavam entre os participantes previstos para o evento.
Os riscos para o mercado energético vão além da Península Arábica. Na quarta-feira, o petróleo Brent, referência internacional, subiu 0,5%, para US$ 106,22 por barril. O Financial Times relacionou a alta às tensões crescentes no Oriente Médio e aos ataques à navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do comércio mundial de petróleo.
Na noite de terça-feira, pelo menos quatro embarcações foram atingidas na região: um navio-tanque de produtos petrolíferos, de propriedade de uma empresa de Dubai, e três porta-contêineres, administrados pela GFS Management, também sediada em Dubai. Um deles, o GFS Pride, afundou em águas de Omã, segundo analistas de segurança marítima ouvidos pelo jornal.
Os ataques em Ormuz fazem parte da escalada envolvendo o Irã e o conflito com os Estados Unidos e Israel, e não devem ser confundidos com as ofensivas dos houthis contra a Arábia Saudita. Teerã afirma que o estreito permanece fechado, e autoridades militares iranianas reivindicam controle sobre a passagem marítima, o Golfo e o Mar de Omã, embora dados de navegação indiquem que as exportações de petróleo continuam a transitar pela região. A ampliação da área de atuação dos ataques e das ameaças contra embarcações aumenta a incerteza para transportadores e para os mercados internacionais.
O presidente americano Donald Trump afirmou ter conversado com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, sobre as ofensivas. Em publicação na rede Truth Social, Trump acusou os houthis de agir provavelmente sob ordens do Irã e sugeriu que o objetivo seria elevar os preços do petróleo antes das eleições americanas. O governo saudita, por sua vez, declarou que o grupo enfrentará consequências pelos ataques a aeroportos e cidades do reino.
A crise atual está ligada à retomada da guerra civil no Iêmen. A Arábia Saudita interveio no conflito em 2015, após os houthis tomarem Sanaa, para apoiar o governo internacionalmente reconhecido. Uma trégua mediada pela Organização das Nações Unidas em 2022 manteve uma paz frágil até a escalada deste ano. O cenário se deteriorou com a retomada da campanha militar saudita em apoio às forças governistas, que buscam recuperar áreas estratégicas da costa do Mar Vermelho. Os houthis avançaram em direção ao estreito de Bab el-Mandeb, passagem fundamental para o tráfego marítimo entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden.
Além dos riscos à navegação e à infraestrutura energética, o recrudescimento dos combates aprofunda a crise humanitária no Iêmen. Em comunicado divulgado na quarta-feira, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), agência da ONU, informou que cerca de 800 mil pessoas perderam acesso à assistência humanitária vital devido ao deslocamento das linhas de frente, ao bloqueio de estradas e à insegurança. Na cidade de Taiz, cercada por combatentes houthis, mais de 600 mil pessoas não conseguem receber ajuda, incluindo mais de 200 mil mulheres e crianças.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha também alertou que hospitais em Taiz, Marib e em áreas próximas à costa do Mar Vermelho estão sobrecarregados pelo aumento do número de vítimas dos combates e enfrentam escassez de materiais médicos. A expansão das ofensivas, portanto, ameaça não apenas os interesses econômicos sauditas e o abastecimento internacional de energia, mas também a população de um país que já enfrenta uma das crises humanitárias mais graves do mundo.
