Houthis anunciam bloqueio no Mar Vermelho e ameaçam comércio global

Os rebeldes Houthis, do Yemen, anunciaram nesta segunda-feira, 20, um bloqueio à navegação no Mar Vemelho , ampliando a crise no Oriente Médio para uma das principais rotas marítimas do comércio internacional.
A ação dos aliados ao Irã ocorre em resposta ao retorno de ataques norte-americanos na região de Ormuz., intensificando confrontos envolvendo aliados de Teerã na região.
Segundo o porta-voz militar dos Houthis, Yahya Saree, o grupo passou a impor um "embargo marítimo" contra a Arábia Saudita em resposta ao que classificou como um bloqueio imposto por Riad aos portos e aeroportos localizados em áreas sob controle da organização no norte e oeste do Iêmen.
Embora o grupo não tenha detalhado como pretende executar a medida, integrantes da estrutura de comunicação dos Houthis afirmaram que o objetivo é impedir a passagem de embarcações sauditas peloestreito de Bab al-Mandab, corredor marítimo que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e serve deacesso ao Canal de Suez.
A Arábia Saudita condenou poucas horas depois o anúncio feito pelos Houthis. Com o bloqueio, os rebeldes ameaçam a capacidade do maior exportador de petróleo mundial de contornar o Estreito de Ormuz.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da monarquia do Golfo afirmou "expressar a mais veemente condenação do Reino da Arábia Saudita às declarações feitas pelo suposto porta-voz militar da milícia terrorista Houthi... impondo um bloqueio marítimo ao Reino", acrescentando que Riad "continua a apoiar o povo iemenita irmão e seu governo legítimo".
Corredor marítimo ganhou importância estratégica
O Bab al-Mandab tem cerca de 32 quilômetros de largura em seu trecho mais estreito e conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho. Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em outubro de 2023, os Houthis passaram a lançar drones, mísseis e ataques contra navios mercantes que cruzavam a região, afirmando agir em apoio aos palestinos.
Os ataques reduziram drasticamente o fluxo de embarcações pelo corredor marítimo, levando empresas de navegação a desviarem suas rotas para o extremo sul da África, pelo Cabo da Boa Esperança, o que elevou custos de transporte e aumentou o tempo das viagens.
Mesmo após uma pausa nas ofensivas durante um cessar-fogo em Gaza, o tráfego pelo estreito ainda não retornou aos níveis anteriores.
Dados de empresas de monitoramento marítimo indicam que aproximadamente 7,4 milhões de barris de petróleo e derivados passaram diariamente pelo Bab al-Mandab em junho, volume equivalente a cerca de 7% da produção mundial.
Mercado acompanha risco de nova interrupção
A possibilidade de um bloqueio no Mar Vermelho elevou novamente as preocupações sobre o abastecimento global de energia.
Analistas destacam à BBC que a Arábia Saudita vem utilizando intensamente a rota do Mar Vermelho justamente para contornar as restrições impostas no Estreito de Ormuz.
Estimativas apontam que mais de 3,5 milhões de barris diários de petróleo e combustíveis têm sido exportados por Yanbu, principalmente para mercados asiáticos como China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
Trégua no Iêmen também entrou em colapso
O anúncio dos Houthis ocorre poucos dias após a deterioração da trégua informal que vigorava desde 2022 entre o grupo e a Arábia Saudita.
Na semana passada, os Houthis acusaram Riad de bombardear o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de uma aeronave iraniana. Em resposta, lançaram mísseis contra o aeroporto de Abha, no sul saudita.
A guerra civil no Iêmen começou em 2014, quando os Houthis tomaram a capital, Sanaa. No ano seguinte, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita passou a apoiar militarmente o governo reconhecido internacionalmente.
Segundo estimativas da ONU, o conflito já deixou mais de 150 mil mortos e provocou uma das maiores crises humanitárias do mundo, com mais de 22 milhões de pessoas necessitando de algum tipo de assistência.
Nova frente em uma guerra regional
O anúncio ocorre enquanto o conflito entre Estados Unidos e Irã continua se intensificando. Também nesta segunda-feira, o Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM) informou ter iniciado uma nova rodada de ataques contra alvos iranianos.
Segundo os militares americanos, as operações começaram às 16h (horário de Brasília) e têm como objetivo "degradar ainda mais as capacidades militares iranianas utilizadas para atacar a navegação comercial no Estreito de Ormuz".
O Estreito de Ormuz, por onde tradicionalmente passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, já vinha sofrendo forte impacto desde a retomada dos confrontos entre Washington e Teerã. Com isso, a Arábia Saudita passou a redirecionar grande parte de suas exportações de petróleo para o porto de Yanbu, na costa do Mar Vermelho, utilizando o estreito de Bab al-Mandab como rota alternativa.
Caso os Houthis coloquem o bloqueio em prática, especialistas avaliam que a alternativa logística saudita também poderá ser comprometida.
