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InvestMercadosACS
23/09/2026
5 min

Hypera, RD Saúde e Pague Menos: quem ganha (e quem perde) com canetas no SUS?

Analistas independentes veem oportunidade para Hypera e efeitos mistos para RD Saúde e Pague Menos

Hypera, RD Saúde e Pague Menos: quem ganha (e quem perde) com canetas no SUS?

A eventual entrada das canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) pode redesenhar parte do mercado farmacêutico brasileiro e criar impactos diferentes para empresas listadas na bolsa. Fabricantes nacionais podem ganhar uma nova avenida de volume caso o governo avance com compras em grande escala.

Por outro lado, redes de farmácias como RD Saúde (RADL3) e Pague Menos (PGMN3) podem perder parte das vendas privadas das canetas, mas também se beneficiar de maior fluxo de clientes e até de uma eventual participação na dispensação dos medicamentos.

Entre as empresas brasileiras listadas, a Hypera (HYPE3) aparece como uma das exposições mais diretas à expansão desse mercado, na avaliação de especialistas ouvidos pela EXAME.

Hypera pode capturar volume

O especialista em investimentos e sócio da GT Capital, Gabriel Pinheiro, vê a Hypera bem posicionada caso o SUS abra espaço para fornecedores nacionais. "Na minha leitura, a grande beneficiada e o grande nome para ficar de olho é a Hypera", afirma.

Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, também vê potencial para aumento de volume entre os fabricantes nacionais. "Se tiver a possibilidade de participação de fabricantes nacionais nessas compras, pode ter uma oportunidade aqui de volume", afirma.

Isso não significa, contudo, que a Hypera já esteja contratada ou que necessariamente fornecerá medicamentos ao governo. O impacto dependerá de quais produtos forem incorporados, das regras de contratação, dos preços negociados e da capacidade de cada fabricante de competir em escala.

Para Saravalle, a entrada de um comprador do tamanho do SUS pode mudar a lógica de produção do setor. "Se a gente tem um governo passando a comprar esses medicamentos em grande escala, ganha poder de negociação e isso pode estimular também a produção local, escala, competição, tudo isso."

RD Saúde e Pague Menos podem perder vendas?

Para RD Saúde e Pague Menos, o cenário é mais ambíguo. As redes têm exposição às vendas de canetas emagrecedoras, uma categoria de alto valor nas farmácias. A principal ameaça aparece caso consumidores que hoje pagam pelos medicamentos passem a recebê-los gratuitamente pelo SUS.

"Hoje a caneta emagrecedora é um dos produtos mais caros e mais lucrativos que têm nas prateleiras da farmácia. Se o SUS começa a dar de graça para quem tem indicação médica, uma parte de quem hoje paga do próprio bolso, muitas vezes parcelado, simplesmente para de comprar na farmácia", segundo Pinheiro.

O especialista pondera, porém, que ainda é cedo para transformar essa possibilidade em uma estimativa financeira para as empresas. "Não tem cronograma, não tem orçamento, não tem protocolo fechado. Então, o impacto de bolsa agora é mais expectativa do que caixa real", diz.

Mais fluxo pode compensar parte da perda

A possível perda de vendas diretas não é o único efeito para as drogarias. O especialista em investimentos e sócio-fundador da AW Capital, Augusto Parente, vê a possibilidade de aumento no fluxo das lojas, especialmente se as redes privadas forem usadas para a entrega das canetas.

"Pode ter um fluxo de pessoas indo às drogarias coletar as canetas emagrecedoras e consumir outros produtos, como produtos de higiene, perfumes e outros itens", afirma. As redes poderiam perder margem diretamente nas canetas, mas compensar parte desse efeito com a venda de outras categorias.

Saravalle acrescenta que a própria popularização dos medicamentos pode ampliar o mercado total. "As canetas vão deixando de ser um produto de nicho, de alta renda, para caminhar talvez para algo que tenha maior escala."

Com isso, mesmo que parte dos pacientes migre para o SUS, uma categoria mais conhecida e acessível pode continuar atraindo consumidores que não se enquadrem nos critérios da rede pública, na sua visão.

Farmácias podem participar da dispensação

Existe ainda uma terceira possibilidade para RD Saúde, Pague Menos e outras redes, que é receber para fazer a dispensação das canetas compradas pelo governo.

Carlos Suslik, médico, sócio e CEO da L4 Capital, lembra que o programa Farmácia Popular já utiliza estabelecimentos privados para entregar medicamentos financiados pelo poder público.

"Na Farmácia Popular, você vai numa Droga Raia com a receita médica, tem os critérios, e ela dispensa de graça. A farmácia ganha a dispensação", explica. Um modelo semelhante poderia criar uma fonte de receita para as redes caso fosse adotado para as canetas emagrecedoras.

O desenho, contudo, ainda não está definido. O Ministério da Saúde não anunciou que poderá usar drogarias privadas para fazer a entrega desses medicamentos. Qualquer benefício ligado à dispensação ainda depende das regras que serão estabelecidas pelo governo.

Novo Nordisk e Eli Lilly podem enfrentar mais pressão

A transformação do mercado também afeta as multinacionais que lideram o segmento de GLP-1. Pinheiro avalia que a Novo, fabricante de Ozempic e Wegovy, e a Eli Lilly, dona de Mounjaro e Zepbound, podem enfrentar maior competição com a entrada de fabricantes nacionais.

"Do lado global, Novo e Eli Lilly perdem monopólio de preço no Brasil, mas já se anteciparam", afirma.

Ele explica que a Novo ressubmeteu o Wegovy à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) com desconto de 59% para o governo, em uma nova proposta voltada a pacientes com obesidade e histórico de infarto, na tentativa de viabilizar a incorporação do medicamento à rede pública.

Parente também considera as multinacionais mais expostas à pressão competitiva gerada pela entrada de novos fabricantes, especialmente em mercados em que há perda de exclusividade e maior disputa por preço.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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