IA, dados e monitoramento 24 horas: a estratégia de Espriella na Colômbia

Bogotá - O advogado Abelardo de la Espriella venceu o primeiro turno da eleição presidencial da Colômbia prometendo defender a pátria, endurecer a segurança e dizer o que tem que ser dito. É uma estratégia usada em larga escala na política global desde 2016, mas ela vem sendo melhorada com base em muitos dados e no uso de inteligência artificial.
A EXAME conversou, de forma reservada, com estrategistas da campanha de Espriella. Eles contam que as táticas da candidatura começaram a ser construídas a partir de uma quantidade enorme de entrevistas com cidadãos, em várias partes da Colômbia, para entender os sentimentos atuais dos colombianos.
Essas conversas, assim como outras fontes de informações, geraram um imenso banco de dados, com milhões de entradas, que foram analisadas por especialistas de várias áreas, com o apoio de serviços de inteligência artificial.
Neste trabalho, foi detectado que havia espaço para atender aos temores dos cidadãos sobre a segurança pública e que boa parte dos colombianos também tinham um orgulho nacionalista e religioso. Além disso, segundo os estrategistas, havia uma forte rejeição ao governo de Gustavo Petro, criticado por não conseguir conter uma onda de aumento da violência.
A partir daí, a comunicação de Espriella foi trabalhada para reforçar suas mensagens de modo contínuo e coerente. A campanha o mostra como um advogado e empresário de sucesso, que ouviu um chamado do destino para salvar seu país das ameaças trazidas pela esquerda.
Em seguida, criou-se um movimento, os Defensores da Pátria, para atrair cidadãos que pensam da mesma forma e que aposta em um chamado à luta -- mas com espaço para diversão. Nos comícios, os discursos políticos são curtos e intercalados por vídeos e apresentações musicais, para manter os eleitores engajados.
Abelardo de la Espriella, candidato a presidente da Colômbia mais votado no 1º turno, durante discurso em Barranquilla (Rodrigo Buendia/AFP)
Gestos e visual
Espriella repete uma sequência de gestos, como bater continência, dar um soco no ar e depois bater no peito. Ele também foi apelidado de tigre. Na Colômbia, o animal é referência para definir uma pessoa capaz de cumprir tarefas difíceis.
O visual do candidato foi definido nos detalhes. Espriella só aparece de ternos bem cortados ou com roupas de primeira linha. Barba e cabelo estão sempre alinhados, para o colocar como o oposto dos candidatos de esquerda. Gustavo Petro, o presidente, costuma aparecer com os cabelos bagunçados e camisas mais soltas. Seu rival na disputa, Iván Cepeda, adota roupas mais simples no dia a dia, como camisas sem gola e calças jeans.
O advogado tem apostado também em usar a camisa da Seleção Colombiana em eventos, e convocou seus apoiadores a irem votar com o uniforme. A ação gerou críticas de Cepeda, que diz que a camisa amarela é um símbolo de todos.
Estratégia de distribuição
Para espalhar a mensagem de Espriella, montou-se um ecossistema digital, com canais oficiais nas redes sociais, como Instagram e Tiktok, além de várias páginas afiliadas, com aparência de grupos de seguidores, e convênios com influenciadores e microinfluenciadores.
A estratégia inclui criar conteúdos variados, que respeitem as linhas gerais da campanha, mas sejam adequados para cada público. Assim, eleitores jovens no Tiktok podem receber um vídeo de um tigre lutando contra um bandido, com estética de videogame, enquanto um senhor pode ver um grupo de músicos rurais cantando um jingle de campanha e tocando viola.
O aumento do volume de conteúdos foi possível com a ajuda da inteligência artificial, que permite fazer mais vídeos em menos tempo, mesmo com animações mais elaboradas.
A IA também é usada para monitorar o desempenho da campanha nas redes sociais e analisar grandes volumes de dados, com equipes de pessoas que trabalham 24 horas por dia, de modo a acompanhar como as falas do candidato estão repercutindo, e corrigir o rumo rapidamente conforme necessário.
Bandeira de Israel e garra de tigre em comício de Espriella em Barranquilla (Vanessa Romero/AFP)
Desafios do 2º turno
O segundo turno será realizado em 21 de junho. Serão apenas três semanas de campanha, o que reduz o espaço para que o rival, Ivan Cepeda, possa armar uma reação.
Mas Espriella terá de se expor mais. Não houve debate no primeiro turno, e ele deu entrevistas a meios selecionados.
O candidato de direita já obteve apoio da candidata Paloma Valencia, que teve 6% dos votos e representa a direita tradicional. Se todos os eleitores dela seguirem a recomendação, o advogado tem grandes chances de se eleger, pois teve 44% dos votos na primeira rodada.
Sua campanha também precisará lidar com ataques mais duros do rival, que o tem chamado publicamente de "ladrão dos ladrões", pois Espriella defendeu acusados de graves crimes, como o de roubar recursos da poupança dos cidadãos e de lavar dinheiro desviado pelo governo de Nicolás Maduro na Venezuela, em meio às virulentas narrativas da eleição colombiana.
Espriella precisa, ainda, ganhar mais espaço entre os jovens, que costumam participar pouco das eleições, pois o voto não é obrigatório no país.
Como parte dessa estratégia, o candidato deu sua última entrevista antes da eleição, na noite de sábado, 30, ao influencer Westcol, um dos mais famosos do país, especialmente entre jovens.
