IA do Google chega ao SUS do Paraná para ajudar médicos a identificar tratamentos contra o câncer

O Paraná se tornou o primeiro estado brasileiro a implementar, em hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), uma plataforma de inteligência artificial desenvolvida para auxiliar médicos na análise de casos oncológicos complexos.
Batizada de Projeto Capricórnio, a iniciativa reúne tecnologias do Google Cloud para pesquisar literatura científica, cruzar informações clínicas anonimizadas e apresentar evidências que possam apoiar a tomada de decisão dos especialistas.
Nesta primeira etapa, o Projeto Capricórnio está em operação no Hospital do Câncer de Londrina e no Hospital São Vicente, na Cidade dos Lagos, em Guarapuava, duas referências no atendimento oncológico pelo SUS no Paraná. A experiência nesses hospitais deverá orientar a ampliação da iniciativa para outras unidades da rede estadual.
A proposta, segundo os responsáveis pela iniciativa, não é substituir a avaliação médica. A decisão sobre o tratamento continua sendo do oncologista. A IA atua como uma ferramenta de apoio, reunindo estudos científicos relevantes em poucos minutos — um trabalho que, em alguns casos, poderia exigir horas de pesquisa manual.
Para Nelson Morozini, médico oncologista do Hospital São Vicente, a principal contribuição da tecnologia é facilitar o acesso ao conhecimento científico disponível em todo o mundo.
""Ela funciona como um segundo cérebro. Consegue reunir rapidamente informações que levaríamos muito mais tempo para localizar, mas a decisão continua sendo sempre da equipe" médica"Nelson Morozini

Segundo ele, a plataforma amplia a capacidade de análise dos especialistas sem substituir a experiência clínica.
Como funciona o Projeto Capricórnio
O sistema foi desenvolvido pelo Google Cloud em parceria com o Princess Máxima Center, centro especializado em oncologia pediátrica localizado nos Países Baixos.
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Sua principal função é acelerar a consulta a evidências científicas publicadas em revistas médicas e bases internacionais, como o PubMed, que reúne mais de 35 milhões de artigos científicos.
Segundo Priscila Cruzatti, especialista em Inovação e Saúde Digital do Google Cloud Brasil, o projeto nasceu para reduzir o tempo gasto pelos médicos na busca por evidências científicas e ampliar o tempo dedicado ao paciente.
"Com a IA no grau de maturidade que está, utilizando para tantas coisas na nossa vida, por que não aplicar isso na medicina para agilizar o levantamento da bibliografia, permitindo mais tempo para ler os artigos que são pertinentes e, aí sim, ter mais tempo com o paciente?", declara Priscila.

Para isso, a plataforma utiliza recursos como busca vetorial e modelos de inteligência artificial capazes de compreender o significado das informações pesquisadas, em vez de localizar apenas palavras idênticas às digitadas pelo médico.
Na prática, isso permite que o sistema encontre estudos relacionados a um determinado caso clínico mesmo quando utilizam terminologias diferentes ou abordagens semelhantes.
Cruzatti explica que a plataforma combina o modelo Gemini com uma base estruturada de literatura científica.
O médico coloca o caso clínico, o Gemini processa isso, transforma numa pergunta estruturada e consulta a literatura científica
Segundo ela, "não existe IA sem dados. Uma boa IA depende de bons dados".
Outro diferencial é a possibilidade de cruzar essas informações com dados clínicos anonimizados dos pacientes, oferecendo aos médicos uma visão mais ampla sobre pesquisas recentes, terapias investigadas e possíveis caminhos para discussão do tratamento.
O que muda para os médicos
O volume de pesquisas publicadas em oncologia cresce diariamente, tornando cada vez mais difícil acompanhar todas as descobertas relevantes para diferentes tipos de câncer.
Nesse cenário, ferramentas baseadas em inteligência artificial podem reduzir o tempo necessário para localizar evidências científicas, permitindo que os especialistas tenham acesso mais rápido a estudos relacionados a casos específicos.
Antes da adoção da plataforma, esse trabalho era feito manualmente pela equipe médica. Era necessário revisar o caso clínico, definir palavras-chave e consultar diferentes bases científicas, um processo que podia ser dificultado inclusive por artigos pagos ou de difícil acesso.
“Com o Projeto Capricórnio, a revisão bibliográfica é consolidada em cerca de 15 a 20 minutos, reunindo artigos classificados por relevância e impacto científico”, afirma o médico oncologista, Morozini.
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IA apoia, mas não decide
Apesar do uso de inteligência artificial, a plataforma não define diagnósticos nem recomenda tratamentos de forma autônoma. As informações apresentadas pelo sistema funcionam como apoio à decisão clínica e precisam ser avaliadas pelos profissionais responsáveis pelo atendimento.

"Ele não é prescritivo. Ele não determina a conduta médica. Ele traz o que aconteceu com pacientes com características semelhantes e quais foram os riscos e benefícios encontrados na literatura”, declara a especialista em inovação e saúde digital.
Segundo o governo estadual, todas as decisões permanecem sob responsabilidade da equipe médica, e os dados utilizados pelo sistema passam por processos de anonimização para atender às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Utilização da ferramenta na prática clínica
Segundo o médico oncologista, um dos casos mais marcantes envolveu um paciente com um tumor agressivo cuja origem não era conhecida. A inteligência artificial do Google cruzou evidências científicas e estudos internacionais que indicavam biomarcadores compatíveis com câncer gástrico. A partir dessas informações, a equipe conseguiu direcionar melhor a investigação, confirmar o diagnóstico e personalizar o tratamento.
Em outro caso, a plataforma ajudou a identificar uma síndrome hereditária rara em um paciente que apresentava tumores recorrentes de pele, permitindo mudar a estratégia cirúrgica e evitar procedimentos desnecessários.
Expansão para outros hospitais
Inicialmente, o Projeto Capricórnio está sendo utilizado em dois hospitais de referência vinculados ao SUS no Paraná. A expectativa do Google, em parceria com os órgãos estaduais reguladores, é ampliar a iniciativa para outras unidades de saúde após a avaliação dos primeiros resultados.
"Queremos que profissionais de saúde, em qualquer especialidade e em qualquer região do Brasil e do mundo, tenham acesso rápido e preciso ao conhecimento científico global para tomar decisões baseadas em dados."Priscila Cruzatti
Além da oncologia, a tecnologia poderá futuramente ser adaptada para outras áreas da medicina que também dependem de grande volume de produção científica e análise de evidências. Segundo o oncologista, a expectativa é que especialidades como neurologia e cardiologia também possam se beneficiar da ferramenta no futuro.
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