IA poderá ajudar África a criar 40 milhões de empregos, diz estudo

A inteligência artificial surge como uma oportunidade importante para o futuro do mercado de trabalho africano, mas especialistas do think tank Centre for Strategic and International Studies (CSIS) alertam, em novo estudo, que seu potencial dependerá da inclusão do vasto setor informal da economia. O continente deverá adicionar cerca de 700 milhões de trabalhadores até 2050, o que representará 85% do crescimento da força de trabalho mundial.
Apesar do avanço populacional, a criação de empregos não acompanha esse ritmo. Atualmente, cerca de 81% dos trabalhadores africanos atuam na informalidade, cenário que limita o acesso à proteção social, à qualificação profissional e a oportunidades de crescimento econômico.
O CSIS indica que a África precisará criar aproximadamente 15 milhões de novos empregos por ano para absorver a expansão da força de trabalho. Nesse contexto, a inteligência artificial é apontada como uma ferramenta capaz de aumentar a produtividade e estimular novos modelos de negócios.
Estimativas do Banco Africano de Desenvolvimento, apuradas pelo estudo, apontam que a inteligência artificial poderá responder por quase 20% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) africano até 2035. O avanço da tecnologia teria potencial para criar até 40 milhões de empregos em áreas como agricultura, saúde, varejo, finanças e indústria.
Potencial e risco
Os autores afirmam que, no curto prazo, a automação deverá afetar principalmente as ocupações administrativas e profissionais baseadas em escritórios. Contudo, como a maior parte da economia africana é composta por atividades informais e manuais, o impacto inicial sobre o emprego tende a ser menor, alerta o CSIS. Ademais, o amplo acesso a essa tecnologia é limitado na África, cobrindo apenas 9,1% do continente, o que representa os menores números em comparação com outras regiões, apontam os gráficos do estudo.
Mesmo assim, o otimismo quanto ao uso da IA cresce entre governos e cidadãos. A União Africana incluiu a tecnologia entre os pilares para acelerar sua Agenda 2063, enquanto países como Quênia, Nigéria e África do Sul desenvolveram estratégias nacionais voltadas à geração de empregos, à diversificação econômica e à capacitação profissional.
Atualmente, a divisão entre empregos formais e informais é desproporcional nesses países. Gráficos do estudo apontam as porcentagens de trabalhadores empregados no setor informal nesses países: 83,7%, 93% e 77%, respectivamente.
Mesmo assim, essas três nações registraram avanços nos índices internacionais de preparação para a inteligência artificial entre 2023 e 2025. As políticas priorizam investimentos em infraestrutura digital, pesquisa científica, formação de profissionais e parcerias com empresas globais de tecnologia.
Na Nigéria, o destaque é o programa 3 Million Technical Talent (3MTT), criado para capacitar três milhões de pessoas em competências digitais, incluindo inteligência artificial. A iniciativa conta com apoio de empresas privadas e já reúne mais de 135 mil participantes.
Já o Quênia aposta na ampliação da infraestrutura tecnológica, com investimentos em centros de dados, conectividade e polos de inovação. Por sua vez, a África do Sul elaborou uma política nacional que coloca a inteligência artificial como instrumento para promover crescimento econômico inclusivo e geração de empregos.
Apesar desses avanços, os pesquisadores realçam que as estratégias nacionais ainda priorizam o setor formal da economia. Em países como Nigéria e Quênia, onde mais de 80% dos trabalhadores estão na informalidade, essa abordagem pode limitar significativamente os benefícios da revolução tecnológica.
Entre as propostas apresentadas para ampliar a inclusão estão o desenvolvimento de ferramentas adaptadas às necessidades de agricultores, comerciantes, motoristas e artesãos, além da oferta de incentivos financeiros, programas de capacitação, acesso ao crédito e soluções digitais que funcionem mesmo em regiões com infraestrutura limitada.
Especialistas defendem que o sucesso da inteligência artificial na África dependerá da capacidade de integrar milhões de trabalhadores informais ao processo de transformação digital. Caso isso ocorra, a tecnologia poderá se tornar um importante motor de desenvolvimento econômico; caso contrário, há o risco de ampliar as desigualdades já existentes no continente.
