IA, tokenização e cibersegurança: o novo tripé da estratégia digital das empresas

Por Rodrigo Villar*
A inteligência artificial já está no centro das decisões estratégicas das empresas. Mas, à medida que essa tecnologia amadurece, temos que incorporar outros dois pilares: a tokenização e a cibersegurança.
Juntos, esse tripé está redefinindo o que significa maturidade digital nas organizações e essa mudança de perspectiva se torna mais importante uma vez que a IA está diretamente ligada à forma como empresas geram valor, tomam decisões e protegem seus ativos mais sensíveis, que são as informações.
Quando observamos o cenário global, essa tendência se torna evidente. A China, ao tratar tokens de IA como ativos financeiros negociáveis, reforça a visão de que o consumo de inteligência artificial é mensurável, precificável e estratégico. Ao mesmo tempo, ao classificar algoritmos e dados como segredos comerciais, destaca o peso econômico e geopolítico desses recursos.
Essa combinação revela pontos importantes, que nos dizem que dados, processamento e inteligência estão se tornando ativos estratégicos e, portanto, precisam ser protegidos com governança e mensurados com precisão.
Tokens: da unidade técnica à moeda da economia da IA
Os tokens, unidades de processamento usadas pela IA, tornaram-se a métrica de custo, escala e eficiência. Cada interação com um modelo, como geração de resposta, análise de dados ou automatização de tarefa, depende diretamente deles. Com a evolução da IA agêntica, capaz de executar tarefas completas de forma autônoma, esse consumo tende a crescer, podendo alcançar níveis inéditos de até 120 quadrilhões de tokens por mês, até o final de 2030, segundo dados da Goldman Sachs Research.
Esse patamar evidencia uma mudança importante na utilização desses elementos, representando não só o custo operacional, mas também a capacidade de processamento disponível, o valor econômico gerado e, cada vez mais, uma fonte de vantagem competitiva para as organizações.
Na prática, isso muda a lógica de gestão da tecnologia. Empresas deixam de olhar apenas para licenças e infraestrutura e passam a acompanhar o custo por inteligência gerada, que se tornou o ponto mais sensível. E se existem custo e valor, há também risco, o que nos leva diretamente à cibersegurança.
Cibersegurança viabiliza (ou limita) a inovação
Se tokens representam valor, a cibersegurança passa a ser o mecanismo que o protege, e a IA é o motor que o gera, transforma e escala dentro das organizações. Ao mesmo tempo em que fortalece a defesa, por meio da análise em tempo real de grandes volumes de dados, da identificação de padrões anômalos e da automação de respostas a incidentes, ela amplia significativamente a capacidade de ataque, tornando fraudes, engenharia social e exploração de vulnerabilidades mais sofisticadas e escaláveis.
Não por acaso, essas vulnerabilidades relacionadas à IA já são percebidas como o risco cibernético que mais cresce globalmente, exigindo não apenas adoção tecnológica, mas também governança e conscientização, já que seu uso traz benefícios e vulnerabilidades em igual medida.
A convergência inevitável entre tokenização e segurança
A tokenização contribui diretamente para a segurança. No contexto tradicional, tokenizar significa fragmentar textos ou códigos em pequenas unidades, os tokens, para que os sistemas possam processar e gerar linguagem. Apesar de parecer uma etapa técnica, sua relevância cresce quando observada sob a ótica da segurança, pois proteger esses elementos significa garantir a confidencialidade dos dados e preservar a integridade do funcionamento da própria IA ao reduzir riscos de vazamentos, manipulação ou uso indevido das informações ao longo de todo o processo.
Em outras palavras, estamos falando de rastreabilidade, controle e governança. Quem usa a IA, quanto usa, para qual finalidade e com qual nível de risco. Em um cenário onde o consumo de inteligência se torna mensurável, a capacidade de governar esse consumo passa a ser tão importante quanto a própria inovação.
Esse é o principal ponto de reflexão para as empresas neste momento. A discussão sobre IA exige integração entre estratégia, recursos financeiros, risco e segurança, garantindo que a inovação ocorra de forma sustentável e alinhada aos objetivos do negócio. Além disso, também requer uma nova mentalidade de que sua adoção sem controle pode gerar eficiência no curto prazo, mas vulnerabilidade no médio.
Por isso, mais do que acelerar a adoção de IA, o verdadeiro diferencial competitivo está na forma como as empresas conseguem equilibrar essas três dimensões. Não se trata apenas de fazer mais com inteligência artificial, mas de fazer melhor, com clareza de propósito, controle dos recursos e responsabilidade pelos riscos.
No fim do dia, a tecnologia continua sendo apenas o meio. O que define o resultado são as escolhas que fazemos ao utilizá-la. E, no caso da IA, essas escolhas estão cada vez mais conectadas por tokens, dados e, principalmente, confiança.
*Rodrigo Villar é CEO da Software.com.br
