IA virou o novo Google da Geração Z?

Nos últimos vinte anos, a reação automática para qualquer dúvida que surgisse era "dar um Google". O mecanismo de buscas mais famoso e longevo do mundo até virou verbo em outras línguas — em inglês, a sugestão era "Google it".Entre a Geração Z, porém, essa frase já divide espaço com outra: "vou perguntar pro Chat".
É o que indica um levantamento da Harvard Business Impact, em parceria com a Gallup e a Walton Family Foundation, que entrevistou cerca de 2.500 americanos entre 18 e 28 anos em 2025 e revelou que 65% deles usam chatbots de IA como substitutos do Google para pesquisas do dia a dia.
Por que a Geração Z prefere conversar com IA a pesquisar no Google?
O apelo dos chatbots está na redução de etapas. Uma busca tradicional exige digitar o termo, avaliar os resultados, clicar em um link, ler o conteúdo e decidir se a resposta é suficiente. No chatbot, o usuário faz a pergunta e recebe uma resposta que, em grande parte, vai poupá-lo de navegar entre páginas.
Dados da mesma pesquisa da HBI mostram que 52% dos jovens usam IA para tarefas de trabalho e 46% para escrita — atividades que antes dependiam de buscas seguidas de leitura e síntese manual. Apenas 32% disseram recorrer à IA para assuntos pessoais, como conselhos sobre relacionamentos.
Outro fator é a sensação de personalização. Diferente de uma página de resultados padronizada, a IA se adapta ao que já foi dito na conversa e entrega uma resposta filtrada, sem precisar cruzar avaliações em sites diferentes.
TikTok e redes sociais também competem com a busca tradicional
A IA não é a única concorrente do Google entre os mais jovens. Pesquisas da Adobe, de 2024, indicam que 64% da Geração Z usa o TikTok como motor de busca — e um em cada dez jovens americanos confia mais no TikTok do que no Google para encontrar informação, segundo o mesmo levantamento.
A preferência por vídeo curto e por IA conversacional pode sugerir que esses jovens buscam por respostas visuais ou diretas, sem a etapa intermediária de ler artigos.
O Pew Research Center identificou, em pesquisa de campo de setembro e outubro de 2025, que 64% dos adolescentes americanos de 13 a 17 anos usam chatbots de IA, com mais da metade recorrendo a eles para buscar informação e fazer tarefas escolares.
O Google já mudou a busca por causa da IA
O Google não ficou parado. Em 2025, a empresa acelerou a integração de IA nos resultados de busca com os AI Overviews — resumos gerados por inteligência artificial que aparecem no topo da página antes dos links tradicionais. Segundo a BrightEdge, esse formato já cobria cerca de 48% de todas as consultas monitoradas em fevereiro de 2026.
Se o usuário quer uma resposta direta sem clicar em links, o Google prefere entregar essa resposta dentro da própria plataforma a perdê-lo para o ChatGPT ou a Perplexity, que também funciona como um buscador com IA aplicada.
O problema de receber respostas prontas
A mudança de comportamento não vem sem riscos. A mesma pesquisa da HBR com a Gallup revelou que os jovens que mais usam IA também demonstram preocupação com seus efeitos: 79% acreditam que a IA pode tornar as pessoas mais preguiçosas e 62% se preocupam com a possibilidade de ficar "menos inteligentes". Outros 68% temem perder o aprendizado que vem do esforço ao delegar tarefas cognitivas à máquina.
Em um experimento do MIT Media Lab, foram comparados os estudantes que escreviam com IA e sem IA, e os pesquisadores identificaram menor atividade cerebral e menor capacidade de recordar o próprio texto entre aqueles que usaram a assistência automatizada.
Um segundo estudo, conduzido por pesquisadores da Wharton School, mostrou que participantes que usaram IA para pesquisar um tema se esforçaram menos e produziram recomendações menos relevantes do que os que usaram busca tradicional.
Há ainda a questão da verificação. Chatbots de IA ainda cometem erros factuais — as chamadas "alucinações" — e entregam respostas sem indicar fontes com a mesma clareza de uma página de resultados com links. Quando o usuário aceita a resposta sem conferir, o risco de consumir informação imprecisa aumenta.
A própria Geração Z reconhece esse ponto. Na pesquisa da HBR, 61% dos entrevistados disseram temer que a IA substitua o aprendizado com outras pessoas — colegas e mentores — ao concentrar a busca por conhecimento em uma interface automatizada.
IA substituiu o Google para a Geração Z?
Por enquanto, não. O Google segue como a porta de entrada mais usada para buscas, e a própria empresa tem investido em IA dentro dos resultados — com os AI Overviews e a integração do Gemini — para não perder esse papel.
Por ora, os dois mecanismos se complementam enquanto o público aprende a usá-los juntos — um estudo da EY em parceria com a Microsoft mostrou que, embora 76% da Geração Z já use IA na vida pessoal e no trabalho, a maioria ainda está em fase de experimentação. Apenas 15% recorrem à IA com frequência em todas as atividades do dia a dia.
O que mudou agora é que o Google deixou de ser a opção automática para se tornar uma entre várias — chatbots, TikTok, YouTube, redes sociais. A Geração Z escolhe o canal conforme o tipo de pergunta e o formato de resposta que espera.
Mas a troca do buscador pelo chatbot ainda tem algumas desvantagens. Por exemplo, alguns chatbots de IA ainda cometem erros factuais e entregam respostas sem citar fontes com a mesma clareza de uma página de resultados com links.
Por isso, para perguntas sobre saúde, finanças ou decisões que envolvem risco, aceitar a primeira resposta de um chatbot sem conferir pode sair caro. A própria Geração Z reconhece o problema: na pesquisa da HBR, 61% dos entrevistados disseram temer que a IA substitua o aprendizado com outras pessoas — colegas e mentores — ao concentrar a busca por conhecimento.
