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Mundo
03/11/2026
6 min

Ian Bremmer: Onda azul nas midterms deve isolar Trump e testar a lealdade do gabinete

Presidente da Eurasia Group projeta até 53 cadeiras democratas no Senado e vê aliados mais preocupados com 2028

Ian Bremmer: Onda azul nas midterms deve isolar Trump e testar a lealdade do gabinete

Os americanos escolhem nesta terça-feira, 3, a nova composição do Congresso, e o cientista político Ian Bremmer já tem seu prognóstico. Para o fundador e presidente da consultoria Eurasia Group, os democratas devem sair vitoriosos com folga na Câmara e no Senado.

O desfecho, avalia, deve deixar Donald Trump mais isolado, furioso e enfraquecido nos dois anos finais de mandato.

Em análise em vídeo divulgada na segunda-feira, 2, pela GZERO Media, braço de mídia do Eurasia, Bremmer vai além das urnas e aponta o próximo teste do republicano: a fidelidade da própria equipe.

Uma onda azul

O analista acredita que os democratas devem tirar dos republicanos ao menos 20 cadeiras na Câmara e formar uma bancada de 51 a 53 senadores. Hoje, o Senado tem maioria republicana de 53 a 47. "Se eu estiver errado, suspeito que seja por excesso de cautela", afirmou.

Para virar o placar, a oposição democrata precisa conquistar no mínimo quatro vagas - uma projeção converge com as pesquisas mais recentes. No levantamento do The New York Times com a Universidade Siena, os democratas aparecem na frente em seis dos sete estados que vão decidir o comando da Casa.

O pano de fundo é a impopularidade do presidente. Segundo Bremmer, a aprovação de Trump gira em torno de 36% a 37% na média das sondagens, patamar mais baixo de seus dois mandatos.

Num país tão polarizado, em que quase só os independentes mudam de lado, o número é significativo, avalia.

O MAGA sem fôlego

Para Bremmer, o dado mais subestimado da eleição é outro. O eleitorado MAGA, sigla do slogan “Make America Great Again” que batiza a base mais leal de Trump, segue ao lado do presidente, mas o entusiasmo despencou em relação a seis ou doze meses atrás.

Quem abandonou o presidente foram sobretudo os independentes. E isso pesa mais nas midterms.

Sem a corrida presidencial na cédula, o comparecimento costuma ser menor, e o resultado tende a ser definido pelos eleitores mais informados e engajados. Com a base republicana desmotivada, o efeito nas urnas pode ser grande.

O analista cita o Brasil entre os países onde a mobilização fez diferença recentemente, ao lado de Israel e Sérvia. No segundo turno de 25 de outubro, que reelegeu Lula com 51,8% dos votos, a abstenção caiu para 19,22%, a menor nessa etapa desde 2006, segundo o TSE.

Transição pacífica

O analista descarta o risco de contestação efetiva dos resultados. Para ele, a chance de um pleito injusto ou de uma repetição do ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021 é próxima de zero.

Bremmer não descarta que Trump denuncie fraude,como fez dias atrás com o Brasil. Avalia, porém, que a acusação não terá efeito prático.

A reta final também teve as chamadas surpresas de novembro. No domingo, 1º, a deputada democrata Haley Stevens, derrotada nas primárias de Michigan, passou a apoiar o republicano Mike Rogers para o Senado.

Bremmer acredita, contudo, que a mudança veio tarde demais para alterar o desfecho.

No Alasca, o The New York Times revelou que a campanha da democrata Mary Peltola participou do recrutamento de um segundo candidato chamado Dan Sullivan, mesmo nome do senador republicano que tenta a reeleição.

A campanha nega envolvimento. O Departamento de Justiça, por ordem de Trump, já havia entrado com uma ação para impedir que o Alasca oficialize o resultado caso o senador seja derrotado.

O argumento é que eleitores podem confundir os dois Sullivans na cédula. O próprio estado, porém, pediu o arquivamento do processo. Por meio de sua divisão eleitoral, comandada por uma republicana, alegou que a ação não tem base legal.

Furioso e enfraquecido

O coração da análise está no pós-eleição. Bremmer rebate quem diz que Trump nunca será um "pato manco", expressão usada nos EUA para governantes em fim de mandato e sem força política.

"Dá para estar zangado e manco ao mesmo tempo", afirma. Em sua leitura, o presidente deve aceitar menos os reveses, atacar adversários, se esforçar mais para lucrar com o cargo e multiplicar anúncios.

Esbarrará, porém, em limites cada vez mais claros, impostos pelo Judiciário, pelos militares, pela impopularidade e por um Partido Republicano que já pensa em 2028.

O analista também questiona a coerência mental do presidente, de 80 anos, e compara a situação à reta final de Joe Biden, quando aliados tentaram encobrir sinais de declínio.

Com uma derrota provável, diz, líderes republicanos com ambições próprias devem ficar menos dispostos a fazer o mesmo por Trump.

A Casa Branca rejeita esse diagnóstico. Após o check-up de maio, o porta-voz Davis Ingle afirmou que Trump é "o presidente mais afiado e acessível da história americana" e segue em excelente saúde. E o próprio presidente costuma dizer que gabaritou os testes cognitivos a que foi submetido.

Quem fica no barco

Para Bremmer, a grande pergunta dos próximos dois anos é até que ponto o gabinete seguirá ao lado de Trump.

Sua aposta é que o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o enviado especial Steve Witkoff permanecem, porque, em sua avaliação, os dois têm papéis mais ligados aos negócios do governo do que a um projeto de longo prazo.

A dúvida recai sobre quem tem agenda e ambições próprias, como o secretário de Estado, Marco Rubio, o do Tesouro, Scott Bessent, e o de Energia, Chris Wright.

“Se continuarão com Trump pelos dois anos restantes, ou mesmo por muitos meses depois de uma derrota significativa, caso ele comece a parecer mais descontrolado, é uma questão muito aberta. E que terá grandes implicações para as políticas daqui em diante”, afirma o analista.

O Brasil acompanha de perto: desde 22 de julho, parte das exportações brasileiras para os EUA paga uma sobretaxa de 25%, aplicada pelo Escritório do Representante Comercial (USTR) após investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana.

Somada a outra cobrança de 12,5%, a tarifa pode chegar a 37,5% em alguns produtos. E qualquer mudança na equipe de Trump mexe com o rumo dessa negociação.

Olhos em 2028

Dois anos, lembra Bremmer, é muito tempo. Do lado democrata, ele estima que cerca de 25 nomes devem entrar na corrida pela Casa Branca, muitos com chances reais. No entanto, considera pouco útil especular sobre isso agora.

Para o analista, a votação desta terça-feira, 3, deve mostrar mais uma vez que a democracia americana, apesar das manchetes e da apreensão, segue capaz de transições pacíficas que refletem a vontade de quem vai às urnas.

O novo Congresso toma posse em 3 de janeiro.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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