Ibovespa a 240 mil pontos? Mesmo após o rali eleitoral com Flávio Bolsonaro, Inter e Citi ainda veem espaço para a bolsa subir
Apesar da alta após o primeiro turno, bancos veem espaço para novos ganhos: o Inter calcula que o Ibovespa pode chegar a 240 mil pontos, enquanto o Citi destaca que o índice ainda negocia abaixo da média histórica

A disparada recente do Ibovespa pode não ter esgotado o potencial de valorização da bolsa brasileira. Para Citi e Inter, mesmo após a alta de cerca de 7% desde o primeiro turno das eleições, ainda há espaço para ganhos — e vender agora pode significar sair do mercado antes que esse movimento se complete.
A avaliação dos bancos é baseada sobretudo no preço das ações em relação aos lucros esperados das empresas. Segundo o Citi, o Ibovespa aparece negociado a 9,4 vezes o lucro projetado, ante uma média histórica de 11 vezes. O Inter também vê o múltiplo pouco acima de 10 vezes, abaixo da média de 11 vezes segundo sua análise.
Alta forte, mas sem sinal claro de exagero
O Inter destaca que o Ibovespa acumulava alta de 29,75% até 9 de outubro, quando fechou aos 209 mil pontos, então em seu maior patamar histórico. Só em outubro, a valorização já passava de 12%, segundo o documento.
Para o banco brasileiro, olhar apenas para os pontos do índice pode dar uma impressão enganosa de que a bolsa ficou cara. No entanto, o indicador mais relevante para essa avaliação é o preço sobre lucro (P/L) projetado, que compara o preço das ações com os lucros esperados das empresas.
O Inter estima que, se o múltiplo voltar à média histórica de 11 vezes, haveria espaço para uma valorização próxima de 10%, sem considerar eventual crescimento adicional dos lucros. O banco também menciona uma projeção de alta modesta, de cerca de 5%, nos lucros das empresas do Ibovespa.
Com essa estimativa e o múltiplo histórico o Inter espera que o Ibovespa atinja os 240 mil pontos em um horizonte de médio prazo.
Mesmo assim, o banco pondera que a média histórica brasileira talvez não seja, por si só, uma referência ideal de valor. Em comparação, mercados como Índia, Taiwan, México e Indonésia negociam a múltiplos mais altos; até a Austrália, país desenvolvido com forte exposição a commodities, aparece com média próxima de 15 vezes o lucro projetado.
Não significa que a bolsa brasileira deva negociar nos mesmos níveis desses mercados. Países têm características e riscos diferentes. Mas o Inter argumenta que o desconto brasileiro reflete fatores recorrentes — como juros elevados, incertezas fiscais, inflação e choques políticos — que historicamente limitam quanto investidores aceitam pagar pelas empresas locais.
A tese, portanto, não depende necessariamente de um cenário excepcional. Para os bancos, uma redução parcial desse desconto, somada à recuperação dos lucros, já poderia sustentar uma valorização adicional.
Estrangeiros compram; pessoa física realiza
O fluxo de investidores é outro ponto destacado pelo Inter. Até 9 de outubro, investidores estrangeiros haviam acumulado entrada líquida de R$ 43,1 bilhões em 2026. Já a pessoa física, que passou boa parte do ano no campo positivo, teria aproveitado a alta para vender ações: o fluxo acumulado desse grupo virou negativo em R$ 1,6 bilhão.
O contraste chama a atenção porque ocorre justamente em um período de valorização expressiva do índice. Para o Inter, a realização de lucros é compreensível, mas pode significar que parte dos investidores locais está deixando a bolsa enquanto o capital estrangeiro sustenta o movimento.
O Citi também atribui importância aos fluxos internacionais. O relatório registra R$ 18 bilhões em entradas de capital estrangeiro em outubro e avalia que a alta recente não parece ser apenas um movimento técnico de recompras de posições vendidas. Se investidores globais continuarem a reavaliar as perspectivas do Brasil, novas entradas poderiam dar suporte ao mercado.
Eleição pode mexer com os preços
A principal ressalva dos dois relatórios é o cenário eleitoral. O Inter afirma que sua projeção para o Ibovespa pressupõe a confirmação da leitura atual do mercado — e identifica aí o principal risco para a tese.
O Citi também chama atenção para a disputa apertada e para a incerteza sobre a transferência de votos no segundo turno. No relatório, a pesquisa Quaest de 14 de outubro indicava Flávio Bolsonaro com 46% e Lula com 44%. O banco observa, ainda, que as pesquisas do primeiro turno aparentemente subestimaram o apoio a candidatos de direita.
Para o Citi, o comparecimento às urnas, a formação de alianças e a capacidade dos candidatos de manter seus eleitores serão fatores decisivos. Historicamente, quem lidera o primeiro turno costuma vencer o segundo, mas a margem estreita torna o resultado especialmente incerto.
A volatilidade eleitoral pode provocar dias de alta e de queda, além de mudanças rápidas nas expectativas dos investidores. Assim, a tese de que a bolsa ainda está barata não elimina o risco de recuos no curto prazo.
