Ibovespa bate recorde após 1º turno, mas 8 ações caem; veja quais e por quê
Por que papéis como WEG e Embraer caem com a bolsa em recorde após o 1º turno

O rali eleitoral da bolsa brasileira tem beneficiado principalmente empresas ligadas ao consumo doméstico e mais sensíveis à queda dos juros futuros, mas não se traduz em valorização generalizada. Das 76 ações que compõem o Ibovespa, o principal índice acionário da B3, oito registravam variação negativa no período eleitoral, de acordo com o fechamento desta quarta-feira, 21.
Entre elas, a maior queda era da WEG (WEGE3), de 12,13%, seguida por Usiminas (USIM5), com recuo de 11,10%.
Na sequência, aparecem CSN (CSNA3), com baixa de 7,46%; Embraer (EMBJ3), com recuo de 6,53%; Bradespar (BRAP4), queda de 5,83%; Suzano (SUZB3), desempenho negativo de 3,86%; Vibra Energia (VBBR3), que caiu 3,46%; e Klabin (KLBN11), com recuo de 2,26%.
O movimento contrasta com a alta de 10,82% do Ibovespa em outubro, mês marcado por recordes históricos do índice em reação ao resultado do primeiro turno das eleições para Presidente da República, que terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL) na liderança, com 47,03% dos votos válidos, à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%, contrariando as pesquisas.
No ano, a bolsa acumula valorização de 29,08%. Enquanto isso, o dólar recuou 3,64% apenas em outubro, de R$ 5,2176 para R$ 5,0279, e já perde 8,42% frente ao real em 2026.
A queda da moeda americana ajuda a explicar parte da divergência entre as empresas listadas, especialmente entre aquelas que são exportadoras e produtoras de commodities. Mas não é o único fator. Endividamento, perspectivas de demanda, margens operacionais e desafios específicos de cada negócio também limitam a reação de algumas ações, mesmo em um ambiente de maior apetite por risco no mercado brasileiro.
“De um modo geral, a maioria delas está caindo pelo fato do dólar. Tem receita muito dolarizada ou a margem depende de dólar mais alto, por conta de exportação e tudo mais, ou você tem commodity”, afirma Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos.
Segundo o especialista, a combinação entrea desvalorização do dólar e a estrutura de custos das empresas pode pressionar os resultados. “A commodity é dolarizada, com o dólar caindo você perde receita. E não só você perde receita, mas a sua margem também piora, porque você tem custos fixos ficando mais concentrados”, diz. O analista descreve esse efeito como alavancagem operacional negativa.
Exportadoras sentem a queda do dólar
Entre as empresas afetadas estão Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11), do setor de papel e celulose, além deEmbraer (EMBJ3), fabricante de aeronaves com exposição internacional.Para essas companhias, que já caíram 3,86%; 2,26%, e 6,53%, respectivamente, desde o primeiro turno da eleição, a apreciação do real reduz o valor, em moeda brasileira, das receitas obtidas em dólares, pressionando as margens e as expectativas de geração de caixa quando os demais fatores permanecem constantes.
Matheus Jaconeli, analista da ZIIN Investimentos, DTVM da Unicred, também aponta a exposição cambial como um fator comum entre as exportadoras. “A queda do dólar reduz a receita convertida, o que comprime margens operacionais e diminui a expectativa de geração de caixa em moeda local”, afirma.
O histórico mensal das ações mostra que parte dessas empresas já enfrentava dificuldades antes de outubro. A Klabin registrou quedas em fevereiro, março, abril e setembro. A Suzano recuou em todos os meses do ano, com exceção de fevereiro, julho e agosto. Já a Embraer caiu em fevereiro, março e maio.
O desempenho indica que o rali eleitoral não eliminou pressões que vinham de períodos anteriores. A expectativa de melhora do cenário doméstico pode favorecer a bolsa como um todo, mas não necessariamente compensa, no curto prazo, a influência do câmbio sobre as receitas e as margens de empresas internacionalizadas, de acordo com os especialistas.
A WEG também enfrenta esse desafio. Apesar de não ser uma produtora de commodities, a companhia tem receitas ligadas ao mercado internacional e sofre com a desvalorização do dólar. Além disso, segundo Jaconeli, investidores aguardam sinais de normalização da demanda global por equipamentos industriais.A avaliação sobre a empresa também passa pelo preço de suas ações. “O fato da empresa negociar com múltiplos relativamente elevados faz com que o mercado busque alternativas mais descontadas”, diz o analista.
O resultado trimestral acrescenta outro elemento à análise. Noterceiro trimestre de 2026, a WEG registrou lucro líquido de R$ 1,665 bilhão, crescimento anual de 0,9%, enquanto a margem EBITDA caiu de 22,2% para 21,6%.
Os números ajudam a entender por que uma empresa que segue lucrando ainda pode enfrentar pressão na bolsa. Isso porque o mercado considera não apenas o crescimento do lucro, mas também as margens e as expectativas que já estavam incorporadas ao preço das ações.
Siderúrgicas e Bradespar dependem do mercado de commodities
CSN, Usiminas e Bradespar (BRAP4) enfrentam uma combinação de fatores que vai além da política brasileira. Nas siderúrgicas, as perspectivas para os preços do minério de ferro e do aço, a demanda internacional e o custo de financiamento influenciam a expectativa de resultados.
“Essas empresas dependem mais do que ocorre com commodity metálica do que com eventos internos”, afirma Jaconeli. Segundo o analista da ZIIN Investimentos, o nível elevado de alavancagem da CSN amplia a pressão sobre as ações, porque a companhia fica exposta tanto à desvalorização do minério quanto às despesas financeiras.
A Bradespar tem uma particularidade, já que seu desempenho está diretamente ligado ao valor de sua participação naVale (VALE3). De acordo com Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, a holding detinha 163,35 milhões de ações ordinárias da mineradora em 15 de outubro de 2026, equivalentes a 3,84% do capital da companhia.
Além da cotação da Vale, o mercado considera o chamado desconto de holding, diferença entre o valor dos ativos de uma empresa de participações e seu valor de mercado. Em 15 de outubro, o valor líquido dos ativos da Bradespar era de R$ 11,36 bilhões, ante valor de mercado de aproximadamente R$ 7,59 bilhões, um desconto de 33,2%.
"A ação da Bradespar pode cair tanto pela desvalorização da Vale quanto pela ampliação desse desconto", diz Brás.
"A pressão sobre a mineradora também encontra explicações na demanda chinesa por aço, nos preços internacionais do minério de ferro e nas perspectivas de oferta global. A fraqueza do setor imobiliário chinês e o aumento esperado da oferta de minério pressionam as expectativas de rentabilidade do setor. A Bradespar não precisa enfrentar uma crise própria para sofrer na bolsa. Basta que o mercado passe a atribuir menos valor ao seu principal investimento", acrescenta a executiva.
Vibra enfrenta pressão sobre as margens de combustíveis
Na Vibra Energia (VBBR3), a explicação passa pela dinâmica do mercado de distribuição de combustíveis. A ação acumula queda de 3,46% desde o primeiro turno da eleição presidencial, embora tenha recuado apenas nos meses de maio e agosto antes do período atual.
Reis, da Blue3, aponta dois fatores: a desvalorização do dólar, que afeta ospreços dos combustíveis, e a expectativa de normalização de margens que haviam sido favorecidas por condições específicas do mercado.
O combate a postos irregulares desde o ano passado, quando a operação Carbono Oculto foi deflagrada, teria contribuído para melhorar as margens de distribuição, segundo o analista da Blue3 Investimentos. Com a retirada de agentes que comercializavam combustíveis a preços mais baixos, as distribuidoras puderam se beneficiar de um ambiente de preços de venda mais favorável em relação ao custo de estoques comprados anteriormente.
Esse efeito, porém, não necessariamente se mantém quando as empresas precisam recompor seus estoques a preços atualizados.
"Em um primeiro momento, você tem o custo a preço antigo, que é barato, e o preço de venda bem mais alto. Agora, o custo deve ir subindo para ir ajustando esse preço", afirma Reis. Na avaliação do especialista, a recomposição dos estoques tende a normalizar as margens, reduzindo parte do ganho anterior.
Jaconeli acrescenta que mudanças nos preços praticados pelas refinarias e a ausência de repasses imediatos podem afetar os resultados operacionais da Vibra no curto prazo. Como a distribuição de combustíveis trabalha com margens relativamente apertadas, variações nos custos e nos preços de venda podem ter impacto significativo sobre a rentabilidade.
Por que outras ações sobem mais de 20%
Na outra ponta do mercado, Magazine Luiza (MGLU3) acumula alta superior a 70%, enquanto MRV (MRVE3), Smart Fit (SMFT3), Vamos (VAMO3), C&A (CEAB3), Azzas 2154 (AZZA3), Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3), Localiza (RENT3) e Cosan (CSAN3) registram ganhos superiores a 20%.
"O fator comum é a sensibilidade, em diferentes graus, ao consumo doméstico, ao financiamento, ao custo da dívida e à possibilidade de recuperação operacional", diz a CEO da Magno Investimentos.
A expectativa de redução dos juros futuros com uma mudança na política fiscal, que na visão do mercado é representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro, pode aumentar o valor presente dos lucros esperados, aliviar despesas financeiras de empresas endividadas e favorecer setores que dependem do crédito e do consumo.
Reis diferencia dois efeitos. O primeiro ocorre quando a queda dos juros reduz diretamente as despesas financeiras de empresas com dívidas elevadas. O segundo aparece quando o mercado antecipa uma recuperação da demanda, mesmo antes de ela se refletir nos balanços.
"Empresas de economia doméstica que não vendem dólar, que vendem real, que dependem da economia do Brasil estar forte, que têm dívida, elas performam muito melhor", afirma.
É nesse contexto que empresas de construção, locação de veículos, educação e varejo podem ganhar força. A perspectiva de juros menores favorece o financiamento imobiliário, o consumo e a atividade econômica, enquanto a redução do custo da dívida pode beneficiar companhias alavancadas.Jaconeli classifica essas ações como um "kit-cíclico", formado por empresas sensíveis aos juros e ao ciclo econômico brasileiro. Segundo o analista, a possibilidade de alternância de governo passou a ser considerada pelo mercado como um fator capaz de reduzir gastos públicos e contribuir para o fechamento da curva de juros futuros.
