Ibovespa cai mais de 2% com mercado cético sobre corte de juros; dólar sobe para R$ 5,07

O Ibovespa voltou a registrar forte queda nesta quarta-feira, 3, véspera do feriado de Corpus Christi, encerrando o pregão pressionado pelo aumento da aversão ao risco nos mercados globais, pela escalada das tensões no Oriente Médio, pelas novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos e pela recalibragem das expectativas para os juros no Brasil.
O principal índice da B3 fechou em baixa de 2,22%, aos 170.330 pontos, após oscilar entre a mínima de 170.007,55 pontos e a máxima de 174.192,19 pontos. O volume financeiro somou R$ 28,1 bilhões.
Após oalívio observado na sessão anterior, a bolsa brasileiravoltou a sofrer forte correção diante da continuidade da guerra entre Estados Unidos e Irã, do avanço dos preços do petróleo e das novas medidas comerciais anunciadas por Washington.
O mercado também passou a incorporar uma perspectiva de juros mais elevados por mais tempo, diante de sinais de inflação persistente e atividade econômica resiliente.
Entre as blue chips, as perdas foram generalizadas. As ações da Vale (VALE3) caíram 3,78%. Nos bancos, BTG Pactual (BPAC11) recuou 4,77%, Santander (SANB11) perdeu 2,34%, Bradesco (BBDC4) caiu 2,14%, Itaú Unibanco (ITUB4) recuou 2,12% e Banco do Brasil (BBAS3) cedeu 1,81%.
Os papéis da Petrobras também encerraram em queda, mesmo com a disparada do petróleo no mercado internacional. As ações ordinárias (PETR3) caíram 1,12% e as preferenciais (PETR4) recuaram 0,77%.
Entre as maiores baixas do índice estiveram Azzas (AZZA3), com queda de 8,48%, Hapvida (HAPV3), que recuou 8,26%, e Cosan (CSAN3), com perda de 7,73%. Na ponta positiva, Copasa (CSMG3) liderou os ganhos ao avançar 13,34%, seguida por Minerva (BEEF3), com alta de 2,29%, e Suzano (SUZB3), que subiu 1,95%.
Guerra no Oriente Médio e tarifas ampliam cautela
O conflito no Oriente Médio voltou ao centro das atenções dos investidores. Apesar das declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o Irã teria concordado em não desenvolver armas nucleares, as acusações americanas de novos ataques iranianos na região aumentaram as dúvidas sobre uma solução diplomática para a crise.
Além disso, o mercado repercutiu a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de aplicar tarifas adicionais de até 12,5% sobre produtos de cerca de 60 parceiros comerciais, incluindo o Brasil, sob a justificativa de supostas falhas no combate à entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Para Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, a correção da bolsa foi provocada pela combinação de fatores políticos e econômicos.
“Basicamente são dois fatores que fazem com que o Ibovespa corrija hoje. O primeiro deles é político, voltado às tarifas que os Estados Unidos estão impondo ao Brasil. Existe uma discussão envolvendo meios de pagamento, em que os americanos argumentam que o PIX impacta empresas dos EUA. O outro fator é mais técnico e racional: os dados recentes da atividade econômica americana.”
Segundo Trotta, tanto o relatório Jolts divulgado na terça-feira quanto o ADP publicado nesta quarta vieram acima das expectativas do mercado, reforçando a percepção de uma economia americana ainda aquecida.
“Isso aumenta a expectativa de uma política monetária mais contracionista por parte do Federal Reserve e reduz o apetite por ativos de risco. A soma desses fatores acaba pressionando mercados emergentes e a Bolsa brasileira”, afirma.
Juros futuros renovam máximas do ano
Os juros futuros também avançaram fortemente ao longo da sessão, atingindo os maiores níveis intradiários de 2026. Flávio Conde, head de Renda Variável da Levante Investimentos, destaca que o movimento dos juros ajuda a explicar a intensidade da queda da bolsa.
“Essa queda mais forte do Ibovespa tem relação direta com o que está acontecendo nos juros futuros. É uma correlação histórica. O dólar voltou a subir hoje, o que significa uma perspectiva de inflação um pouco mais alta à frente, especialmente por conta dos produtos importados. Se a inflação esperada sobe, os juros futuros também precisam subir.”
Segundo Conde, a revisão das projeções da XP Investimentos para a Selic ao fim deste ano também contribuiu para piorar o humor dos investidores. “A XP revisou sua projeção para a Selic de fim de ano para 14%, acima da mediana do Focus, que está em 13,25%. Isso também impacta o mercado”
Trotta pondera, porém, que a queda da bolsa não decorre necessariamente da disparada dos juros.
“Na realidade, ambos costumam se mover na mesma direção porque respondem aos mesmos fatores de mercado. Relatórios recentes de casas como BTG e XP passaram a projetar juros mais altos por conta da inflação persistente e do conflito geopolítico. Isso eleva a percepção de risco, pressiona os juros futuros e, ao mesmo tempo, reduz o apetite por ações", afirmou.
No câmbio, o dólar à vista disparou 1,15% e fechou cotado a R$ 5,067, após oscilar entre R$ 5,012 e R$ 5,090.
Bolsas em NY devolvem ganhos recentes
As bolsas americanas encerraram o pregão em queda, interrompendo uma sequência de quatro recordes consecutivos de fechamento.
Os investidores adotaram postura mais defensiva diante dos sinais de escalada do conflito no Oriente Médio e dos desentendimentos entre Donald Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em relação às operações militares de Israel contra o Hezbollah no Líbano.
Os investidores também repercutiram a divulgação do Livro Bege do Fed, que mostrou expansão da atividade econômica em ritmo ligeiro a moderado em dez dos doze distritos monitorados pela autoridade monetária.
Nesse cenário, o índice Dow Jones caiu 1,21%, para 50.687,07 pontos. O S&P 500 recuou 0,74%, aos 7.553,68 pontos. Já o Nasdaq perdeu 0,89%, encerrando aos 26.853,98 pontos.
