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Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
11/08/2026
9 min

Ibovespa despenca 2,5% e dólar salta 1% com cenário eleitoral e alerta do JP Morgan

Ata do Copom reforçou cautela com juros, enquanto investidores também monitoraram o IPCA, a alta do petróleo e as incertezas sobre Ormuz

Ibovespa despenca 2,5% e dólar salta 1% com cenário eleitoral e alerta do JP Morgan

O Ibovespa despencou nesta terça-feira, 11, e ampliou a sequência de quatro pregões de queda com uma nova sessão de forte aversão ao risco. O principal índice da B3 fechou em baixa de 2,50%, aos 167.874,64 pontos, após oscilar entre a mínima de 167.568,94 e a máxima de 172.385,51 pontos. O volume financeiro somou R$ 23,6 bilhões.

A deterioração foi disseminada, dos 78 papéis que compõem o Ibovespa, 69 terminaram o pregão em baixa, quatro ficaram estáveis e apenas cinco subiram.

O movimento refletiu principalmente a piora da percepção sobre o risco doméstico, com investidores repercutindo a combinação entre juros elevados, cenário fiscal e eleitoral, além do rebaixamento da recomendação para ações brasileiras pelo JP Morgan.

A divulgação da pesquisa CNT/MDA, que mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente de Flávio Bolsonaro (PL) nos cenários de primeiro e segundo turno, também trouxe novamente as eleições para o centro das decisões dos investidores.

Ao mesmo tempo, o mercado digeriu a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e o IPCA de julho, enquanto acompanhou a volatilidade dos preços do petróleo e das negociações envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz.

O movimento brasileiro foi mais intenso do que o observado no exterior. O dólar à vista disparou 0,98%, a R$ 5,161, depois de oscilar entre R$ 5,098 e R$ 5,178. A moeda americana se valorizou mesmo com o dólar praticamente estável no exterior, em um sinal de aumento do prêmio de risco específico do Brasil.

Reprecificação do risco doméstico e revisão do JP Morgan

Para Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, a sessão foi marcada por uma reprecificação do risco doméstico.

“O mercado brasileiro teve uma sessão de forte aversão ao risco nesta terça-feira, com a combinação entre cenário eleitoral, juros elevados e piora da percepção de investidores estrangeiros provocando um sell-off nos ativos locais”.

Segundo Praça, o movimento ganhou força após a pesquisa CNT/MDA e foi reforçado pelo rebaixamento do Brasil pelo JP Morgan. “A queda da bolsa veio acompanhada pela valorização do dólar mesmo com o DXY praticamente estável, movimento consistente com uma deterioração específica do risco brasileiro e saída de recursos do mercado local”, afirma.

Um dos principais gatilhos para a piora do humor foi o relatório do JP Morgan, que reduziu sua recomendação para as ações brasileiras de overweight para neutra dentro da América Latina.

O banco citou um ambiente macroeconômico mais difícil, com juros elevados, desaceleração da atividade e questões fiscais. A instituição também passou a considerar uma pausa mais prolongada no ciclo de flexibilização monetária, o que aumenta a cautela com os ativos brasileiros.

O JP Morgan ainda reduziu sua projeção para o Ibovespa ao fim de 2026, de 190 mil para 185 mil pontos.

Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, o relatório foi um dos principais fatores por trás da queda da bolsa nesta terça-feira.

“Um importante driver que leva o Ibovespa à queda hoje é um relatório do JP Morgan rebaixando o Ibovespa de overweight para neutro. Um dos principais pontos que o JP reporta em seu relatório seria a percepção de risco Brasil, comentando sobre a possível estagnação de corte de juros após setembro de 2026.”

Segundo Magno, o aumento do risco Brasil também pressionou o câmbio e os juros futuros. Ele destaca ainda a saída de recursos estrangeiros: nos dias 6 e 7 de agosto, o fluxo de capital estrangeiro ficou negativo em R$ 2,46 bilhões e R$ 2,26 bilhões, respectivamente. “A fuga de capital do Brasil e indo para países desenvolvidos” também contribuiu para a alta do dólar, afirma.

A pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira também contribuiu para aumentar a volatilidade. O levantamento mostrou Lula liderando os cenários de primeiro e segundo turno contra Flávio Bolsonaro.

Na avaliação de Praça, o componente eleitoral voltou a ter peso relevante na precificação dos ativos justamente em um momento de maior sensibilidade do mercado às perspectivas para a política econômica e, principalmente, para a trajetória fiscal a partir de 2027.

“A pressão ganhou força depois da divulgação da pesquisa CNT/MDA, que manteve Lula com vantagem sobre Flávio Bolsonaro nos cenários de primeiro e segundo turno. O componente eleitoral voltou a entrar com força na precificação dos ativos.”

Magno também afirma que os movimentos de bolsa, dólar e juros futuros foram acentuados após a divulgação da pesquisa.

Ata do Copom reforça cautela com juros

O cenário doméstico também foi influenciado pela ata da última reunião do Copom. Na semana passada, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo.

Apesar da redução, a ata divulgada nesta terça-feira mostrou que o BC não está sinalizando uma aceleração do processo de flexibilização monetária. O documento não garantiu novo corte na próxima reunião e destacou que as expectativas de inflação seguem desancoradas.

As projeções do próprio Banco Central apontam inflação de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária.

Para Praça, a mensagem do Copom reforçou a percepção de que os juros poderão permanecer elevados por mais tempo.

“O Copom não garantiu novo corte da Selic na próxima reunião e destacou que as expectativas de inflação permanecem desancoradas. Segundo o Comitê, um ambiente como o atual exige uma política monetária mais restritiva e por mais tempo.”

A combinação entre IPCA mais comportado e uma postura cautelosa do BC produziu efeitos diferentes ao longo da curva de juros. Durante a tarde, o DI janeiro de 2027 operava em 13,760%, o janeiro de 2029 em 14,175% e o janeiro de 2033 em 14,515%.

O IPCA de julho subiu 0,07%, abaixo da alta de 0,16% registrada em junho, mas acima da expectativa de 0,03% do mercado. Com o resultado, a inflação acumulada no ano chegou a 3,44%, enquanto a taxa em 12 meses caiu de 4,64% para 4,44%.

O resultado, embora represente desaceleração da inflação anual, não foi suficiente para alterar de maneira significativa as expectativas para a política monetária.

“Não acredito que estes dados do IPCA vão impactar as próximas decisões de juros”, afirma Magno. Para ele, como a diferença entre o resultado efetivo e a projeção dos analistas foi pequena, o Copom deve manter um tom cauteloso e observar os próximos indicadores de inflação.

Bancos pressionam, enquanto Natura e Brava se destacam

A pressão na bolsa foi generalizada, mas alguns papéis se destacaram entre as maiores altas e quedas.

Entre as blue chips, a Vale (VALE3) recuou 1,88%, enquanto a Petrobras (PETR3) caiu 1,44% e a PETR4 teve baixa de 1,35%. Os bancos também estiveram entre os principais focos de pressão, com queda forte na maioria das ações, à exceção das units do Santander.

Entre as maiores altas do Ibovespa, a CSN Mineração (CMIN3) avançou 2,01%. A Natura (NATU3) subiu 1,49%, após divulgar o balanço do segundo trimestre, enquanto Marfrig (MBRF3) ganhou 1,38%. Santander Brasil (SANB11) avançou 0,92% e Brava Energia (BRAV3) subiu 0,81%.

Natura e Brava foram apontadas como exceções positivas no pregão.

No caso da Natura, o balanço do segundo trimestre surpreendeu positivamente depois que as expectativas haviam sido reduzidas em razão de uma prévia de vendas considerada decepcionante. O Ebitda totalizou R$ 620 milhões, 14% acima do consenso, segundo Magno, beneficiado pelo maior controle das despesas operacionais.

A Brava, por sua vez, subiu após a divulgação de que o Bradesco atingiu participação de 5,99% na companhia.

Na ponta negativa, a Usiminas (USIM5) caiu 7,54%, seguida por BTG Pactual (BPAC11), com baixa de 5,80%, e RD Saúde (RADL3), que recuou 5,68%. Hapvida (HAPV3) perdeu 4,95%.

O BTG, que divulgou seu balanço na segunda-feira, registrou lucro líquido recorde de R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre, alta de 7,2% na comparação trimestral e de 22% ante o mesmo período de 2025. Ainda assim, os papéis foram penalizados nesta terça.

“Apesar da expansão de lucro, o mercado vem penalizando as ações no dia de hoje”, afirma Magno.

A RD Saúde deu continuidade à queda da véspera e acumulou nova baixa de cerca de 6% nesta terça-feira, depois de recuar 4% na segunda.

Petróleo sobe firme com impasse sobre reabertura de Ormuz

Os preços do petróleo encerraram o pregão em alta, ampliando os ganhos da véspera, em meio às incertezas sobre uma possível reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo.

O novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, afirmou que os Estados Unidos precisam encerrar os ataques e descongelar recursos iranianos para que a passagem seja liberada. Segundo ele, eventuais entendimentos com Omã para permitir o trânsito pela região não significariam, por si só, a reabertura de Ormuz.

Mais cedo, o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, havia afirmado que Washington e Teerã estariam próximos de chegar a “algum tipo de acordo”.

A indefinição manteve elevada a volatilidade da commodity. Os Houthis do Iêmen também atacaram um navio saudita que transportava equipamentos militares em Bab-el-Mandeb.

No fechamento, o Brent para outubro subiu 1,36%, a US$ 88,91 por barril, enquanto o WTI para setembro avançou 1,30%, a US$ 83,20.

A EIA também divulgou relatório apontando, de modo geral, tendência de preços mais elevados do petróleo em 2026. A agência projeta preço médio de US$ 80,88 para o WTI e de US$ 86,81 para o Brent neste ano, em um cenário que inclui uma redução significativa da produção global e interrupção de 5,5 milhões de barris por dia na produção do Oriente Médio em julho.

Para Praça, o petróleo continua sendo um importante vetor de risco externo, especialmente diante da proximidade da divulgação dos dados de inflação nos Estados Unidos.

Bolsas de Nova York recuam antes do CPI

Em Wall Street, os principais índices também terminaram o dia no vermelho, mas em magnitude muito inferior à observada no Brasil.

O Dow Jones caiu 0,34%, aos 53.791,85 pontos, enquanto o S&P 500 recuou 0,32%, aos 7.728,20 pontos. O Nasdaq perdeu 0,60%, aos 26.445,45 pontos.

As ações de grandes empresas de tecnologia ficaram entre os destaques negativos. Alphabet caiu 3,84%, Amazon recuou 2,09%, enquanto Oracle e Dell perderam 3,69% cada.

AutorClara Assunção
FonteExame
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