Ibovespa em dólar tem 5ª maior queda diária da história após eleição, aponta estudo
Perda de 21,13% em moeda americana superou as baixas registradas durante a pandemia; índice caiu 13,88% em reais e dólar disparou 8,21% diante da reeleição de Lula

RESUMO +
O Ibovespa caiu 21,13% em dólares na segunda-feira, 26, a quinta maior queda diária de sua história, no primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Em reais, o índice recuou 13,88%, enquanto o dólar subiu 8,21%. Segundo a consultoria Elos Ayta, as companhias da bolsa brasileira B3 perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado.
O Ibovespa registrou na segunda-feira, 26, a quinta maior queda diária de sua história em dólares, com uma desvalorização de 21,13% no primeiro pregão após o segundo turno das eleições presidenciais. O recuo superou as perdas observadas durante a fase mais aguda da pandemia de Covid-19, em março de 2020, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.
Em reais, o principal índice da bolsa brasileira caiu 13,88%, aos 176.608,23 pontos, na maior baixa percentual diária desde março de 2020. A sessão foi marcada pela forte reação dos investidores à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições no domingo, 25, e pela revisão das expectativas para a condução da política econômica do país.
A queda do Ibovespa em dólares foi mais intensa do que a registrada em duas sessões de março de 2020. Em 12 de março daquele ano, o indicador recuou 18,44% em moeda americana. No dia 16, a perda foi de 17,59%, ambas durante a turbulência provocada pela pandemia.
“O resultado, registrado no primeiro pregão após o segundo turno das eleições presidenciais, superou as perdas observadas em 12 e 16 de março de 2020, durante o auge da turbulência provocada pela pandemia de Covid-19”, afirma a consultoria.
A diferença entre o desempenho do índice em reais e em dólares reflete também o impacto da desvalorização da moeda brasileira sobre os ativos. Na segunda-feira, o dólar à vista disparou 8,21%, a R$ 5,4027, na maior alta diária desde 1999.
Para investidores estrangeiros, a combinação entre a queda das ações e a alta da moeda americana ampliou as perdas quando os investimentos foram convertidos para dólares.
Seis das dez maiores quedas ocorreram antes do Plano Real
O levantamento da Elos Ayta mostra que a queda de outubro entrou para um grupo de perdas extremas concentradas em períodos de turbulência política, econômica e internacional. Das dez maiores baixas diárias do Ibovespa em dólares, seis ocorreram antes da implantação do Plano Real, em julho de 1994.A maior queda da série foi registrada em 21 de agosto de 1968, quando o índice recuou 25,15% em moeda americana. Na sequência, aparecem as perdas de 21 de fevereiro de 1983, de 24,12%; de 7 de dezembro de 1979, de 23,28%; e de 20 de março de 1990, de 22,88%.
Segundo a consultoria, os episódios de 1979 e 1983 coincidiram com as extremas desvalorizações da moeda brasileira. Já a queda de março de 1990 ocorreu nos primeiros dias do Plano Collor, período marcado pelobloqueio de ativos financeiros.
As crises internacionais também aparecem entre os episódios de maior impacto sobre a bolsa brasileira. Em 20 de outubro de 1987, na esteira do colapso das bolsas mundiais conhecido como "Segunda-feira Negra", o Ibovespa caiu 16,54% em dólares. Durante a crise financeira internacional de 2008, o índice recuou 16,67% em 22 de outubro. Em março de 2020, duas sessões entraram para a lista das dez maiores perdas históricas.
A Elos Ayta ressalta que a análise em moeda americana permite observar uma dimensão adicional do risco para investidores estrangeiros. “Além da oscilação das ações, a desvalorização do real pode ampliar significativamente as perdas quando convertidas para a moeda americana”, afirma a consultoria.
O estudo também pondera que uma queda dessa magnitude não significa, isoladamente, deterioração da segurança institucional do mercado brasileiro. "Mas evidencia como acontecimentos políticos e econômicos podem provocar mudanças abruptas na avaliação dos ativos nacionais e na percepção de risco dos investidores internacionais", diz a Elos Ayta.
Bolsa perdeu R$ 734 bilhões em um único pregão
A dimensão da reação do mercado também apareceu no valor de mercado das empresas listadas na B3. Em outro levantamento, a Elos Ayta calculou que as companhias negociadas na bolsa brasileira perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado na segunda-feira, uma retração de 12,91%.
O montante consolidado caiu de R$ 5,684 trilhões na sexta-feira, 23, para R$ 4,950 trilhões. A perda equivaleu a 98,4% do valor de mercado da Petrobras, segundo a consultoria.
“O levantamento evidencia a velocidade com que ganhos acumulados durante vários meses podem ser revertidos em momentos de elevada volatilidade no mercado acionário brasileiro”, afirma a Elos Ayta.
A queda também eliminou avalorização acumulada durante o rali eleitoral entre o primeiro e o segundo turnos. Entre 2 e 23 de outubro, o valor de mercado das empresas listadas na B3 havia avançado R$ 409 bilhões, de R$ 5,275 trilhões para R$ 5,684 trilhões. Após a sessão de segunda-feira, o montante ficou R$ 325 bilhões abaixo do nível registrado em 2 de outubro.
A correção consumiu ainda 75,5% dos ganhos acumulados pelas companhias desde o fim de 2025 até 23 de outubro. Nesse intervalo, o valor de mercado da bolsa havia crescido R$ 972 bilhões. Mesmo após a perda de R$ 734 bilhões em um único pregão, o montante permaneceu R$ 238 bilhões acima do registrado no encerramento do ano passado, uma alta de 5,05%.
Circuit breaker e liquidação generalizada de ações
A sessão de segunda-feira foi marcada por forte volatilidade desde a abertura. O Ibovespa oscilou entre a máxima de 205.088,74 pontos e a mínima de 169.516,43 pontos. No pior momento do pregão, chegou a cair 17,34%, ficando abaixo dos 170 mil pontos.
A B3 acionou o circuit breaker logo na abertura, interrompendo as negociações por 30 minutos. Foi a primeira vez em mais de seis anos que o mecanismo foi utilizado. Após a retomada, o índice voltou a registrar perdas superiores a 15%, mas não houve uma segunda paralisação.
A bolsa explicou à EXAME que a decisão tomada antes da abertura já havia considerado um cenário de desvalorização superior a 20%, com base no preço teórico do Ibovespa. Uma nova interrupção poderia ocorrer caso as perdas ultrapassassem esse patamar.
O volume financeiro negociado na B3 somou R$ 88,6 bilhões, cerca de três vezes a média diária do mercado. A sessão terminou com investidores ainda tentando avaliar os efeitos do resultado eleitoral sobre a condução da política econômica do novo governo.
