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InvestMercados
02/06/2026
8 min

Ibovespa enfrenta turbulência, mas nem tudo está perdido, avaliam os bancos

Ibovespa enfrenta turbulência, mas nem tudo está perdido, avaliam os bancos

O Ibovespa começou junho ampliando o movimento de correção que marcou maio, em um ambiente de maior aversão ao risco alimentado pelas tensões no Oriente Médio, incertezas fiscais e eleitorais no Brasil e perspectivas de juros elevados por mais tempo. Após registrar em maio sua pior performance mensal desde fevereiro de 2023, o principal índice da B3 voltou a cair nesta segunda-feira, 1º, reforçando a avaliação de analistas de que o mercado deve seguir volátil nas próximas semanas, embora ainda existam expectativas de recuperação para a bolsa no médio prazo.

Na última sexta-feira, 29, o principal índice acionário da B3 encerroi aos 173.787 pontos, acumulando queda de 7,06% no mês — o pior desempenho desde fevereiro de 2023, quando recuou 7,49%. O movimento veio acompanhado da maior alta mensal do dólar desde julho de 2025, com avanço de 1,71%. Já no primeiro dia útil de junho, o índice caiu mais 0,91%, perdendo a pontuação de 173 mil.

Parte da pressão desta segunda veio também do cenário internacional. Pela manhã, investidores reagiram à notícia divulgada pela agência estatal iraniana de que o Irã suspendeu a troca de mensagens com Washington após novos ataques no Líbano e voltou a ameaçar o bloqueio do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

O temor de interrupções no fluxo global da commodity elevou as preocupações sobre inflação e crescimento econômico, reduzindo o apetite por ativos de risco ao redor do mundo.

Ao longo do pregão, entretanto, o mercado reduziu parte das perdas após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em entrevista à CNBC,Trump afirmou não estar preocupado com um eventual fracasso das negociações com o Irã e disse acreditar que os preços do petróleo devem recuar em breve. Mais tarde, afirmou que as conversas entre os dois países continuam avançando e indicou a possibilidade de redução dos ataques entre Israel e Hezbollah no Líbano.

Ainda assim, analistas avaliam que a instabilidade geopolítica deve continuar influenciando os mercados globais. Segundo Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, o principal risco está no impacto que oscilações do petróleo podem provocar sobre a inflação global e, consequentemente, sobre as decisões dos bancos centrais.

"Estamos falando de uma commodity extremamente relevante para a economia mundial. Qualquer instabilidade no petróleo aumenta o risco de uma inflação mais persistente e dificulta o trabalho dos bancos centrais. Isso reduz o apetite global por risco, diminui a liquidez dos mercados de ações e torna a renda fixa relativamente mais atrativa", afirma.

"No Brasil, já observamos o reflexo desse cenário nas expectativas de inflação. O Boletim Focus vem registrando sucessivas revisões para cima, e hoje a projeção para 2026 já supera 5%. Quando essas expectativas se deterioram, os juros de longo prazo sobem e os prêmios de risco aumentam, o que pesa diretamente sobre a bolsa", acrescenta Centeno.

Junho começa com outros focos de atenção

Mas a deterioração do mercado brasileiro faz parte de um contexto maior de mudança relevante no fluxo global de capitais. Após meses de entrada de recursos em mercados emergentes, que levou o Ibovespa para perto dos inéditos 200 mil pontosa, investidores estrangeiros passaram a reduzir posições no Brasil.

Até 28 de maio, o saldo líquido de saída de capital estrangeiro da B3 somava R$ 14,3 bilhões, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. O movimento ajudou a interromper a trajetória positiva observada no início do ano, quando a migração de recursos para fora dos Estados Unidos favorecia países emergentes e impulsionava o Ibovespa.

Se maio foi marcado pela saída de recursos da bolsa brasileira, junho começa sob influência de uma combinação de fatores globais e domésticos que tendem a manter a volatilidade elevada.

No Brasil, a eleição presidencial de outubro passa a ganhar peso crescente nas decisões dos investidores.

Na semana passada, o UBS rebaixou sua recomendação para as ações brasileiras de "atrativo" para "neutro", argumentando que boa parte do potencial de valorização da bolsa já foi capturado desde meados de 2025.

Para Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, junho deve continuar sendo um mês de elevada volatilidade, mas o mercado ainda pode encontrar espaço para recuperação.

"Minha leitura é que junho tende a ser um mês de maior volatilidade. Ainda há espaço para recuperação técnica do Ibovespa, mas ela dependerá principalmente de um ambiente externo mais favorável e de uma menor percepção de risco fiscal doméstico", afirma.

Segundo o UBS, a aproximação da eleição tende a aumentar as oscilações do mercado à medida que pesquisas e eventos políticos passam a influenciar as expectativas sobre a condução futura da política econômica.

O banco também avalia que o Banco Central segue adotando uma postura cautelosa no processo de afrouxamento monetário. ASelic caiu para 14,50%, mas a expectativa atual é de menos de 50 pontos-base adicionais de cortes até outubro, abaixo do que o mercado projetava no início do ano.

Ao mesmo tempo, as preocupações com as contas públicas continuam presentes. "O afrouxamento fiscal pré-eleitoral está se acelerando", afirma o UBS em relatório, ressaltando que a combinação de incerteza fiscal e volatilidade política pode elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores.

"O investidor estrangeiro continua exigindo prêmio elevado para permanecer exposto ao país, e qualquer novo ruído fiscal pode limitar uma recuperação mais consistente da bolsa", diz Praça.

Correção abre espaço para oportunidades?

Apesar do cenário mais desafiador, parte dos analistas avalia que a forte queda da bolsa tornou as ações brasileiras mais atrativas.

O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) afirma que a liquidação observada nas últimas semanas pode ter criado oportunidades de compra. Segundo o banco, os valuations voltaram para níveis considerados descontados em relação a outros mercados emergentes.

O BTG destaca que o Ibovespa negocia a múltiplos historicamente baixos e vê quatro fatores que continuam sustentando uma visão construtiva para o mercado brasileiro: preços atrativos, perspectiva de continuidade do ciclo de corte de juros, exposição a commodities em um momento de tensões geopolíticas e a continuidade do processo global de diversificação de investimentos para fora dos Estados Unidos.

Ainda assim, o banco reconhece que o ambiente exige maior seletividade. Em junho, a instituição optou por reforçar posições consideradas mais defensivas, aumentando exposição a utilities e incluindo empresas vistas como mais resilientes diante de um cenário de juros elevados e maior incerteza política.

A XP Investimentos também mantém uma visão positiva para o fim de 2026. A corretora preservou sua estimativa de valor justo para o Ibovespa em 205 mil pontos no cenário-base, embora reconheça que fatores locais e globais seguem pressionando o mercado no curto prazo.

Cautela no curto prazo

Na análise técnica, o cenário também inspira prudência. De acordo o Diário do Grafista do Itaú BBA, o Ibovespa permanece em tendência de baixa no curto prazo após perder o suporte dos 173.500 pontos. O movimento abre espaço para uma realização mais intensa em direção à região entre 163.500 e 159.300 pontos.

Para que o índice retorne a um cenário neutro, os analistas apontam que seria necessário superar a faixa dos 179.500 pontos. Apesar disso, o banco ressalta que a visão estrutural para o mercado brasileiro continua positiva.

"O Ibovespa permanece em tendência de baixa no curto prazo e caminha em direção à MME 200. Apesar do viés negativo no curto prazo, a visão estrutural positiva para o Ibovespa no médio prazo e para o ano segue válida e permanece intacta", afirma o relatório.

Além dos fatores tradicionais, junho também pode trazer novos elementos de monitoramento para investidores. A recente decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiraselevou o alerta entre instituições financeiras e empresas com operações internacionais.

Especialistas apontam que a medida pode ampliar exigências de compliance, due diligence e monitoramento de operações ligadas ao sistema financeiro brasileiro. O ministro da Fazenda, Dario Duriganm chegou a afirmar em evento ontem que a designação das facções ameaça o futuro do Pix e dos bancos nacionais, além de aumentar o custo no sistema financeiro.

"Não significa que haverá bloqueios ao sistema financeiro brasileiro, mas determinadas operações podem enfrentar mais escrutínio regulatório e custos adicionais. Somado às recentes investigações envolvendo estruturas financeiras ligadas ao crime organizado, isso contribui para deteriorar a percepção do investidor estrangeiro sobre o Brasil", diz o diretor de análise da Zero Markets Brasil.

Apesar da correção recente, o desempenho acumulado de 2026 ainda permanece positivo. O Ibovespa sobe 6,87% no ano, acima do CDI, que avança 5,66%.

AutorClara Assunção
FonteExame
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