Ibovespa entrou em bear market? Qual a hora certa de comprar na Bolsa
Com queda de mais de 20% desde o recorde, ações acumulam perdas na Bolsa; especialistas explicam o que esperar do mercado e como identificar oportunidades de compra

RESUMO +
O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira B3, operava perto dos 165 mil pontos nesta terça-feira, 3, mais de 20% abaixo do recorde de fechamento de 209.066,90 pontos de 9 de outubro, patamar associado a um bear market. Especialistas divergem entre mercado de baixa e correção acentuada. Incertezas fiscais, juros elevados e maior prêmio de risco pressionam os ativos brasileiros.
O Ibovespa está próximo de entrar tecnicamente em um bear market, expressão usada pelo mercado financeiro para definir períodos de baixa prolongada, geralmente caracterizados por uma queda de pelo menos 20% em relação ao pico mais recente. Nesta terça-feira, 3, o principal índice da B3 opera próximo dos 165 mil pontos, recuo de mais de 20% em relação ao recorde de fechamento de 209.066,90 pontos, registrado em 9 de outubro.
A queda ocorre após uma forte reprecificação dos ativos brasileiros desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro.
Na última semana do mês, o Ibovespa acumulou desvalorização de 18,12%, a quinta maior queda semanal desde o início do Plano Real, em julho de 1994. O movimento também levou ao acionamento do primeiro circuit breaker da Bolsa acionado em mais de seis anos logo na sessão seuinte ao resultado eleitoral, na segunda, 26.Apesar de a queda já colocar o índice na fronteira técnica de um mercado de baixa, os especialistas divergem sobre a classificação do movimento.
Para Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, o Ibovespa está muito próximo de confirmar um bear market, enquanto Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, avalia que o índice já apresenta características desse tipo de mercado. Marcel Lima, sócio da Valor Investimentos, por outro lado, considera que o movimento ainda pode ser classificado como uma correção acentuada.
"Está mais para correção acentuada até o momento", afirma Lima.
Segundo o especialista, a bolsa brasileira havia registrado uma forte valorização após o primeiro turno das eleições, diante da expectativa de vitória do candidato que defendia mais fortemente os ajustes fiscais esperados pelo mercado financeiro. Com o resultado do segundo turno, parte expressiva dessa alta foi devolvida.
"Ainda é cedo para afirmar se entraremos em recessão, o que levaria a bolsa para um bear market intenso (como foi entre 2013 a 2016)", afirma o sócio da Valor Investimentos.
Enquanto Patrus e Araújo já veem o bear market, quando o índice acumula uma desvalorização de mais de 20% em relação ao topo histórico, e que faz também uma metáfora ao ataque do animal, que ergue as patas e desferem uma patada de cima para baixo contra o oponente ou a presa.
"A Bolsa brasileira enfrenta uma crise de confiança, principalmente em relação à condução da política fiscal", afirma o CEO da Bossa Invest.
"Nesta terça-feira, 3, o índice chegou a operar aos 165.861 pontos, cerca de 20,67% abaixo do recorde de fechamento de 209.066 pontos, registrado em outubro. A queda reflete principalmente o aumento das incertezas fiscais e políticas após as eleições, a valorização do dólar e a exigência de maior prêmio de risco pelos investidores", acrescenta o CEO da Azumi Investimentos.
O que está por trás da queda da Bolsa?
Mais do que o resultado das urnas isoladamente, os especialistas apontam a deterioração das expectativas fiscais e econômicas como um dos principais fatores por trás da pressão sobre os ativos brasileiros.
Patrus diz que a percepção de que o país pode continuar convivendo com juros elevados, crescimento econômico limitado e dificuldades para estabilizar a dívida pública tem levadoos investidores a exigir um prêmio maior para investir no Brasil. "Existe uma relação direta entre confiança fiscal, juros e valorização das empresas", afirma.
Quando aumenta a percepção de risco nas contas públicas, os juros futuros são pressionados, o que encarece o capital das companhias e reduz o valor presente de seus resultados, de acordo com os especialistas. Ao mesmo tempo, taxas elevadas na renda fixa tornam os investimentos em ações relativamente menos atrativos.
Esse cenário também aparece nas projeções do mercado. OBoletim Focus divulgado nesta terça elevou a estimativa para a Selic em 2027 de 11,75% para 12,50% e a expectativa de inflação de 4,34% para 4,76%. Já a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi reduzida de 1,31% para 1,20%.
A dimensão da reprecificação também aparece nos indicadores de mercado. Em relatório divulgado nesta terça, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) aponta que o Ibovespa acumulou queda de 10% em reais e 14,3% em dólares em outubro. No mesmo período, os juros brasileiros de longo prazo subiram para 15,3%, avanço de 136 pontos-base no mês, enquanto os juros reais de longo prazo chegaram a 7,8%.
O banco também destaca que a Bolsa passou a negociar a 7,3 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses (P/L), ou 8,8 vezes quando excluídas Petrobras e Vale. O múltiplo está mais de um desvio-padrão abaixo da média histórica. Segundo o relatório, quase todos os setores negociam com descontos expressivos em relação às respectivas médias de dez anos.A avaliação, porém, vem acompanhada de ressalvas. O BTG considera que os lucros projetados das empresas podem ser revisados para baixo diante da possibilidade de desaceleração econômica mais intensa em 2027. O banco projeta crescimento de 0,6% para a economia brasileira no próximo ano e Selic de pelo menos 13,75% ao fim do período, ante a expectativa anterior de um ciclo de afrouxamento monetário de 125 pontos-base.
O que significa entrar em um bear market?
A classificação de bear market de desvalorização de pelo menos 20% em relação ao seu pico mais recente é uma referência técnica bastante utilizada pelo mercado, "mas não significa, necessariamente, que as empresas perderam valor na mesma proporção, mas que o mercado passou a exigir um desconto maior para investir no Brasil", afirma Araújo.
Caso o movimento se consolide, os efeitos podem ir além das ações. "Ações, crédito privado e títulos públicos longos pré-fixados ou indexados à inflação serão negativamente afetados, principalmente pela saída de capital estrangeiro", diz o sócio da Valor Investimentos.
"Em um primeiro, o mercado deve se mover com base nas expectativas. Em se confirmando as projeções negativas, os resultados das empresas passam a ser afetados e uma deterioração da economia deverá prolongar o ciclo de baixa", acrescenta.
O especialista ressalta, contudo, que a intensidade e a duração de um eventual bear market ainda são incertas. "Não é possível prever a duração do mercado de baixa, caso aconteça, mas poderá ser severo dado o nível de endividamento do governo federal e da inadimplência das famílias", afirma.
Mercado de olho nas sinalizações do governo
Para os especialistas, a recuperação sustentável do Ibovespa depende principalmente de uma melhora nas expectativas fiscais e da retomada da confiança dos investidores. Nesse contexto, a definição da equipe econômica do governo Lula e os primeiros sinais sobre a condução das contas públicas estão entre os principais pontos de atenção do mercado.
"Não existe uma hora certa para comprar Bolsa em um cenário como este, porque não há, no horizonte próximo, um gatilho que sinalize uma mudança estrutural capaz de impulsionar os ativos. Antes, havia a expectativa eleitoral como um fator que poderia puxar os preços. Agora, o investidor precisa olhar para empresas com bons fundamentos e ações negociadas a preços atrativos", afirma Gabriel Mota, analista de renda variável da Manchester Investimentos.
Mota avalia que esse cenário mais negativo para a Bolsa, com um fluxo de vendas mais forte, deve continuar até que o governo dê sinais sobre a condução das contas públicas.
"Por isso, é importante que o investidor adote uma postura mais de sócio das empresas: escolha bons ativos, avalie o preço que está pagando, mantenha os investimentos e espere um momento mais favorável para colher os resultados no futuro", diz.
O BTG Pactual também destaca que os investidores aguardam especialmente a definição de quem comandará a economia e eventuais medidas capazes de reduzir o ritmo de crescimento das despesas públicas. Embora o banco não espere ajustes estruturais nas contas fiscais, avalia que medidas menores já poderiam ajudar a estabilizar o mercado e os juros de longo prazo.
Entre as possibilidades mencionadas pelo relatório estão a redução do limite de crescimento real das despesas previsto no arcabouço fiscal, de 2,5% para aproximadamente 1,5%, e mudanças nas regras de reajuste do salário mínimo, dos gastos com saúde e educação e de elegibilidade para aposentadorias rurais e para o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Para Patrus, a recuperação da Bolsa exige três condições: sinais concretos de responsabilidade fiscal, uma trajetória sustentável de queda dos juros e a recuperação da confiança dos investidores, especialmente do capital estrangeiro.
"O mercado não precisa necessariamente de boas notícias políticas. Precisa de previsibilidade econômica, disciplina fiscal e segurança para investir no longo prazo", afirma.
Araújo acrescenta que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira, 4, também estará no radar. Um eventual corte de 0,25 ponto percentual na Selic, entretanto, não seria suficiente, isoladamente, para recuperar a confiança do mercado.
