Ibovespa fecha em baixa de 13,9%, maior queda diária em 6 anos; dólar dispara 8,2%
Turbulência levou a B3 a acionar o circuit breaker logo na abertura, interrompendo as negociações por 30 minutos, pela primeira vez desde a pandemia, em 2020

O Ibovespa fechou em queda de 13,88% nesta segunda-feira, 26, aos 176.608,23 pontos, na maior perda percentual desde março de 2020, quando os mercados globais foram abalados pela pandemia de Covid-19.
O principal índice da bolsa brasileira oscilou entre a máxima de 205.088,74 pontos e a mínima de 169.516,43 pontos, em uma sessão marcada pela forte reação dos investidores à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O volume financeiro somou R$ 88,6 bilhões, cerca de três vezes a média diária do mercado.
No pior momento do pregão, o Ibovespa chegou a cair 17,34%, ficando abaixo dos 170 mil pontos. A turbulência levou a B3 a acionar o circuit breaker logo na abertura, interrompendo as negociações por 30 minutos, pela primeira vez em mais de seis anos. Depois da retomada dos negócios, o índice voltou a registrar perdas superiores a 15%, mas não houve uma nova paralisação.
A B3 explicou à EXAME que não acionou novamente o mecanismo porque a decisão tomada antes da abertura já havia considerado um cenário de desvalorização superior a 20%, com base no preço teórico do Ibovespa. Uma nova interrupção poderia ocorrer caso as perdas do índice ultrapassassem esse patamar.
A forte correção refletiu a revisão das expectativas do mercado após a vitória de Lula no segundo turno, realizado neste domingo, 25. O petista foi reeleito com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL), contrariando as expectativas de parte dos investidores e reacendendo as preocupações com a condução da política fiscal do país.
A reprecificação atingiu a maior parte das ações do Ibovespa: 68 dos 76 papéis terminaram o dia em baixa.Entre as empresas de maior peso no índice, os bancos estiveram entre os principais alvos da pressão vendedora. As ações ordinárias do Banco do Brasil (BBAS3) caíram 29,33%, enquanto as units do BTG Pactual (BPAC11) recuaram 24,83%, as preferenciais do Bradesco (BBDC4) perderam 21,70% e as preferenciais do Itaú Unibanco (ITUB4) caíram 13,66%. As units do Santander Brasil (SANB11) recuaram 4,47%.
As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) caíram 8,18%, enquanto as ordinárias (PETR3) recuaram 6,81%. Além da reação ao resultado eleitoral, os papéis foram pressionados pelo recuo dos preços do petróleo.
Na ponta positiva, as empresas exportadoras se beneficiaram da forte alta do dólar, que tende a favorecer companhias com receitas atreladas à moeda americana. As ações da Suzano (SUZB3) subiram 10,08%, liderando os ganhos do Ibovespa, seguidas pelas da Embraer (EMBJ3), que avançaram 8,89%, e da WEG (WEGE3), que subiram 4,21%. Os papéis da Vale (VALE3) tiveram alta de 4,01%, mesmo com o minério de ferro praticamente estável no mercado internacional.
Entre as maiores baixas do índice, as ações do Magazine Luiza (MGLU3) caíram 58,23%, seguidas pelas da Vamos (VAMO3), que recuaram 56,79%, e da Hapvida (HAPV3), com perda de 54,93%. O avanço dos juros futuros também pressionou empresas mais sensíveis ao custo do crédito e às condições de financiamento.
Dólar tem a maior alta diária desde 1999
No mercado de câmbio, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 8,21%, cotado a R$ 5,4027. A moeda americana oscilou entre a mínima de R$ 5,3917 e a máxima de R$ 5,6048. A valorização diária foi a maior desde 1999, em um movimento que refletiu a busca dos investidores por proteção diante das incertezas sobre os rumos da economia brasileira.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a sessão foi marcada pela aversão ao risco e por uma revisão generalizada dos preços dos ativos apósa definição do cenário político.
“O pregão desta segunda-feira foi marcado por extrema volatilidade e forte aversão ao risco no mercado financeiro brasileiro, refletindo a reprecificação dos ativos após a definição do cenário político. O Ibovespa enfrentou uma intensa pressão vendedora logo na abertura, o que culminou no acionamento do circuit breaker e na paralisação temporária das negociações após o índice principal despencar 10% em relação aos seus 204 mil iniciais”, afirma.
Segundo a estrategista, a diferença entre as expectativas dos investidores e o resultado das urnas provocou uma liquidação generalizada de ações e aumentou a cautela em relação às futuras diretrizes econômicas e fiscais do país.
No câmbio, a reação também refletiu a busca por proteção diante das incertezas. “Esse forte descolamento reforça a postura dos agentes financeiros, que optaram por se abrigar no dólar como um ativo de segurança imediata diante do choque inicial e das incertezas macroeconômicas locais”, diz Nossig.
Para a especialista, o mercado encerrou o pregão ainda tentando assimilar o resultado eleitoral e suas possíveis consequências para a condução da política econômica. “O mercado encerra o dia tentando assimilar a nova realidade, trocando a imprevisibilidade das urnas pela cautela quanto à condução da política econômica do novo governo.”
