Ibovespa fecha estável com inflação nos EUA e corrida eleitoral; dólar vai a R$ 5,02
As ações da Petrobras ajudaram a limitar as perdas do Ibovespa, acompanhando a valorização do petróleo no mercado internacional

O Ibovespa fechou em queda nesta quarta-feira, 14, pressionado pela inflação acima do esperado nos Estados Unidos, pela cautela com o cenário eleitoral brasileiro e pela realização de lucros após o forte rali da semana passada. O índice chegou a cair mais de 1% durante o pregão, mas reduziu as perdas ao longo da tarde, com o suporte de ações ligadas ao petróleo.
Ao final do pregão, o principal índice da B3 recuou 0,18%, aos 206.505,98 pontos, após oscilar entre a mínima de 203.463,77 e a máxima de 207.220,81 pontos. O volume financeiro somou R$ 31,3 bilhões.
O dólar à vista, por sua vez, fechou em alta de 0,17%, a R$ 5,028, depois de oscilar entre R$ 5,019 e R$ 5,055. A moeda americana acompanhou a valorização no exterior após a divulgação dos dados de inflação dos Estados Unidos e refletiu a cautela dos investidores com a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Na avaliação de Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) americano foi o principal gatilho para a queda da bolsa brasileira. O indicador subiu 3,7% em 12 meses até setembro, acima dos 3,6% esperados pelo mercado, enquanto o núcleo da inflação também surpreendeu para cima.
"Eu acredito que o juro americano nesse nível acaba pesando em qualquer bolsa emergente. Aqui dentro, a bolsa vinha de uma alta de quase 9% em uma semana com o rali eleitoral. Então, qualquer notícia ruim vira um motivo de realização de lucro", afirma.
A inflação mais forte aumentou a cautela sobre a trajetória dos juros americanos e pressionou os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries. Segundo Gass, a expectativa de uma nova alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) em outubro passou de 20% para 50%, de acordo com as probabilidades acompanhadas pelo mercado.
Petróleo sustenta Petrobras; varejo e siderúrgicas caem
Na B3, as ações da Petrobras ajudaram a limitar as perdas do Ibovespa, acompanhando a valorização do petróleo no mercado internacional. O movimento também favoreceu a Prio, enquanto a Axia Energia avançou em um pregão marcado pela busca por posições mais defensivas.
Os preços da commodity subiram diante dastensões geopolíticas no Oriente Médio, incluindo os ataques a navios no Estreito de Ormuz e o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. A Petrobras também conta com o avanço da produção no campo de Búzios, que atingiu níveis recordes.
Na ponta negativa, o varejo e as construtoras ficaram entre os setores mais pressionados, em um movimento associado à alta dos juros futuros e à maior cautela com as perspectivas para a economia e o cenário eleitoral. Tenda, Magazine Luiza e Cyrela e figuraram entre os destaques de baixa.
Empresas mais sensíveis aos juros tendem a sofrer quando as taxas sobem, uma vez que o crédito mais caro pode limitar o consumo e elevar o custo de financiamento. O movimento também atingiu as siderúrgicas, que acompanharam a queda do minério de ferro no mercado internacional. A Usiminas e a CSN estiveram entre os papéis pressionados.
"O padrão acaba sendo mais claro. Ações mais sensíveis a juros, que subiram no rali eleitoral, são as que mais devolvem agora", diz o especialista.
Eleição aumenta cautela dos investidores
Além do cenário externo, os investidores aguardaram a divulgação de uma nova pesquisa Quaest sobre a disputa presidencial, prevista para depois do fechamento do mercado. O levantamento deve atualizar as intenções de voto para o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A cautela ocorre após pesquisas recentes indicarem uma redução da vantagem do candidato do PL. Para Gass, o mercado incorporou com bastante convicção a perspectiva de uma vitória de Flávio, o que aumenta o risco de correção caso os levantamentos apontem uma disputa mais equilibrada.
"O mercado precificou o cenário de vitória de Flávio com bastante convicção, principalmente semana passada, enquanto as pesquisas mostram um empate técnico, e essa assimetria acaba preocupando", afirma.
O especialista acrescenta que investidores estrangeiros direcionaram cerca de R$ 13 bilhões à bolsa brasileira na semana seguinte ao primeiro turno, contribuindo para a valorização dos ativos. Em outubro, o Ibovespa acumulou alta expressiva, ampliando o espaço para realização de lucros diante de notícias desfavoráveis.
A expectativa, segundo Gass, é de volatilidade até o segundo turno, marcado para 25 de outubro. Caso as pesquisas confirmem o estreitamento da disputa, a correção pode continuar, sobretudo nos juros futuros e nas ações do varejo. Uma eventual ampliação da vantagem de Flávio, por outro lado, poderia favorecer a retomada do rali.
Entre os fatores acompanhados pelos investidores estão as medidas de benefícios do governo, cujo custo estimado chega a R$ 260 bilhões, segundo Gass, e a tramitação da proposta de redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1 no Senado. Para o especialista, o câmbio e os juros de prazo mais longo funcionam como termômetros do risco eleitoral e fiscal.
Wall Street fecha em queda após inflação americana
Em Nova York, as bolsas fecharam em baixa após os dados de inflação reforçarem as preocupações com a trajetória dos juros nos Estados Unidos.
O Dow Jones recuou 0,09%, aos 51.621,48 pontos. O S&P 500 caiu 1,11%, aos 7.718,94 pontos, enquanto o Nasdaq perdeu 1,88%, aos 26.692,87 pontos.A perspectiva de juros americanos mais elevados pressionou especialmente as ações de tecnologia, mais sensíveis às condições de financiamento e às taxas de desconto utilizadas na avaliação das empresas.
