Ibovespa nos 250 mil pontos: bancos elevam projeções para a bolsa após eleição
O principal índice acionário da bolsa brasileira subiu 7,70% nesta segunda-feira, 5, para 206.911,89 pontos; mas bancões apontam continuidade do rali

O rali do Ibovespa após o primeiro turno das eleições presidenciais pode estar longe de terminar. Depois de o principal índice acionário da B3 subir 7,70% nesta segunda-feira, 5, para 206.911,89 pontos, e renovar os recordes de máxima intradia e de fechamento, grandes bancos passaram a projetar uma nova rodada de valorização das ações brasileiras caso a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se confirme no segundo turno.
As estimativas variam conforme o cenário e a metodologia, mas apontam para um potencial adicional de alta que chega a mais de 40% em alguns cenários.
O Morgan Stanley passou a projetar que a bolsa brasileira pode se aproximar dos 250 mil pontos no curto prazo, o que representaria uma valorização de cerca de 30% até o fim do ano em relação ao nível de 192 mil pontos registrado na sexta-feira, 2.
A projeção considera a manutenção da percepção de uma maior probabilidade de mudança na política econômica após o resultado do primeiro turno, que colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula na disputa pela Presidência.
O banco avalia que o mercado brasileiro apresenta uma oportunidade de reequilíbrio que pode se estender por vários anos. No cenário otimista, a combinação de uma reprecificação maior das ações, dólar a R$ 4,50 e Selic a 9,75% levaria o índice aos 250 mil pontos, com P/L de 11,6 vezes. No cenário pessimista, o Ibovespa cairia para 130 mil pontos, com dólar a R$ 6 e Selic a 15,5%.
A visão do Morgan Stanley se soma a projeções igualmente otimistas de outros grandes bancos, embora com diferentes horizontes e magnitudes.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), UBS BB e JP Morgan avaliam que a combinação entre uma eventual mudança de governo, maior disciplina fiscal e queda dos juros poderia levar a uma reprecificação relevante dos ativos domésticos. O Citi, por sua vez, já aumentou sua exposição ao Brasil após o resultado do primeiro turno.O movimento desta segunda-feira antecipou parte dessa reprecificação. O Ibovespa chegou a 209.605,70 pontos durante o pregão, enquanto o volume financeiro na B3 alcançou R$ 79,3 bilhões, cerca de três vezes o registrado em uma sessão normal. Aalta levou o índice a acumular ganho superior a 15% no ano.
Para o BTG, porém, ainda existe espaço para uma valorização relevante. O banco calcula que as ações brasileiras, excluindo Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), negociavam antes da eleição a cerca de 10 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, um desvio-padrão abaixo da média histórica.
No cenário de vitória do senador do PL, o BTG estima que o mercado poderia voltar rapidamente à média histórica de 11,9 vezes o lucro, o que representaria uma alta potencial de 20%. Em um cenário mais otimista, com o múltiplo chegando a 14,5 vezes, um desvio-padrão acima da média, o potencial chegaria a 45%.
"Se o candidato de direita Flavio Bolsonaro for eleito, os participantes do mercado esperariam medidas mais decisivas para lidar com os urgentes desequilíbrios fiscais do país, o que desencadearia uma alta", afirma o banco.
O UBS BB também vê espaço para uma reprecificação expressiva. O banco passou a considerar como cenário-base um "ajuste fiscal mais profundo e duradouro", diante da maior probabilidade de mudança de governo e da composição do novo Congresso.
Segundo o banco, o Ibovespa negociava, antes do primeiro turno, a 8,7 vezes o lucro esperado para os próximos 24 meses, abaixo da média de 10 anos, de 9,7 vezes. Caso o cenário fiscal se confirme, a expectativa é que o múltiplo avance para perto de 11,8 vezes, o equivalente a um desvio-padrão acima da média histórica.
Combinado a juros reais menores, esse movimento poderia resultar em uma alta de mais de 30% para o índice nos próximos meses, segundo o UBS BB.
"Se os ciclos eleitorais anteriores servirem de referência, a reavaliação das ações provavelmente se estenderia ao longo do primeiro ano do novo governo, bem além da alta inicial pós-eleitoral", afirma o banco.
Para o UBS BB, parte relevante do movimento dependerá da transformação da expectativa eleitoral em medidas concretas, principalmente na área fiscal.
Até onde pode ir a bolsa?
O JP Morgan também trabalha com uma reavaliação dos múltiplos. O banco estima que o P/L prospectivo de 12 meses do mercado brasileiro possa subir entre 20% e 25%. Atualmente, o Brasil é negociado a 8,9 vezes o lucro, próximo ao segundo quartil da série histórica.
A instituição calcula que o múltiplo poderia chegar a 10,9 vezes, nível correspondente à média do terceiro quartil, o que representaria potencial de alta de 22% para o MSCI Brasil. Mas parte desse movimento pode acontecer rapidamente.
"Agora, as ações podem precificar muito rapidamente pelo menos metade desse potencial de alta, ou seja, cerca de 10% a 11%", afirma o JP Morgan.
A segunda metade, porém, dependeria de medidas concretas que levassem à redução dos juros. Para o maior banco dos Estados Unidos, uma reprecificação ainda maior exigiria uma agenda de disciplina fiscal e reformas estruturais semelhante à observada em 2016.
No câmbio, o JP Morgan também vê espaço para uma valorização do real. Com os mercados de previsão indicando cerca de 85% de probabilidade de vitória de Flávio, o banco trabalha com a moeda americana em torno de R$ 4,95. O cenário mais favorável poderia levar a cotação para perto de R$ 4,80.
A projeção ganhou relevância depois de o dólar cair 4,12% nesta segunda-feira, para R$ 5,001, na maior queda diária da moeda em oito anos.
Citi já compra bolsa brasileira
O Citi foi ainda mais direto na reação ao resultado eleitoral. Em relatório divulgado nesta segunda-feira, o banco informou que aumentou sua exposição ao Brasil e passou a comprar Bovespa e NTN-Fs com vencimento em 2031, sem proteção cambial.
O banco considera o resultado do primeiro turno favorável ao mercado e destaca a combinação entre a liderança de Flávio na votação e o desempenho do PL no Senado. Segundo o Citi, os mercados de previsão passaram a indicar uma probabilidade próxima de 90% de vitória do candidato no segundo turno.
"Prevemos um desdobramento positivo e preferimos entrar na onda desde cedo", afirma o Citi.
A instituição considera Flávio o candidato mais favorável aos mercados entre os dois que avançaram ao segundo turno, em razão das propostas de austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e redução do O Imposto sobre o Valor Agregado (IVA).
Quais ações podem se beneficiar
Diante da possibilidade de queda dos juros e da redução do prêmio de risco fiscal, os bancos estão dando preferência para as ações domésticas e mais sensíveis ao ciclo econômico.
O UBS BB aponta bancos, varejo, construtoras, serviços públicos, educação, saúde e small caps entre os setores mais sensíveis a esse cenário. Para o banco, uma eventual melhora fiscal tende a favorecer primeiro as ações domésticas, depois os juros locais e, por fim, o real.
O BTG Pactual também vê desempenho superior em varejo, construtoras de médio e alto padrão, empresas do mercado de capitais e companhias mais alavancadas. Entre as preferidas do banco estão Renner, C&A, Assaí, Cyrela, B3, XP, Localiza, Motiva, Rede D'Or, Equatorial, Energisa, Auren, Sabesp e Allos.
O banco também cita empresas de maior beta, como Movida, Vamos, Cosan, Dexco e Bradesco.
Entre as ações ligadas à continuidade das políticas, nas quais o modelo econômico brasileiro continua
sendo impulsionado por estímulos fiscais, o Morgan Stanley privilegia empresas com receitas em moeda forte como Vale, Embraer, Gerdau, JBS, Suzano e instituições financeiras que se beneficiam das altas taxas de juros e empresas de telecomunicações defensivas.
A rotação pode ocorrer inclusive dentro da bolsa. O UBS BB considera que empresas de petróleo podem ficar para trás em um cenário de redução do risco doméstico, depois de terem funcionado como proteção para os investidores diante das incertezas locais.
"A rotação do setor de petróleo para setores cíclicos domésticos continua sendo a principal estratégia de negociação de ações", afirma o UBS BB.
