Ibovespa sobe com ‘trade eleitoral’, mas Brasil segue ‘irrelevante’ para gringo; ‘não param nem para olhar’, diz CIO da Mirabaud
O avanço recente do Ibovespa (IBOV), impulsionado pelo fluxo de investidores estrangeiros e pelas expectativas em torno das eleições, não deve ser confundido com uma mudança estrutural na atratividade do mercado brasileiro. Para Eric Hatisuka, CIO da Mirabaud Family Office no Brasil, a Bolsa continua limitada por problemas fiscais, pela imprevisibilidade da política econômica e […]

O avanço recente do Ibovespa (IBOV), impulsionado pelo fluxo de investidores estrangeiros e pelas expectativas em torno das eleições, não deve ser confundido com uma mudança estrutural na atratividade do mercado brasileiro.
Para Eric Hatisuka, CIO da Mirabaud Family Office no Brasil, a Bolsa continua limitada por problemas fiscais, pela imprevisibilidade da política econômica e pela baixa representatividade do país na economia global.
Na avaliação do executivo, o Brasil se tornou um mercado “pequeno demais” para atrair a atenção dos grandes investidores internacionais. Nesse contexto, movimentos táticos de curto prazo, como as operações baseadas nas pesquisas eleitorais, podem ter um impacto desproporcional sobre os preços dos ativos, sem necessariamente representar a entrada de capital comprometido com o desenvolvimento de longo prazo do país.
“Hoje em dia, nós nem estamos na lista de países que os investidores estrangeiros de longo prazo olham. Esses caras não param nem para olhar. Não é que eles olham o Brasil e falam ‘não, agora não’. Eles simplesmente não olham”, afirma Hatisuka.
O executivo destaca que o Brasil representa aproximadamente 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e cerca de 5% dos ativos investíveis globais, números que ajudam a explicar sua participação limitada nas decisões de alocação dos grandes investidores internacionais.
“Hoje, o Brasil é tão pequeno que esse cara que está operando pesquisa eleitoral de curto prazo faz preço”, diz.
Fluxo eleitoral não muda visão de longo prazo
A melhora recente da Bolsa brasileira, após períodos de saída de recursos estrangeiros, não necessariamente sinaliza uma mudança de percepção dos investidores internacionais sobre o país. Para Hatisuka, é importante distinguir o capital especulativo, que busca oportunidades conjunturais, daquele destinado à construção de posições duradouras.
Embora reconheça que a valorização das ações pode beneficiar empresas e favorecer novos investimentos, Hatisuka considera que o fluxo baseado exclusivamente em expectativas eleitorais não é o tipo de capital que o Brasil deveria priorizar.
Para ele, a entrada de recursos na Bolsa pode ser positiva quando reflete uma melhora duradoura na percepção de risco e nas perspectivas de lucro das companhias. O problema é quando o movimento se limita a uma aposta conjuntural, sem que haja uma mudança correspondente nos fundamentos econômicos.
“O outro, que é o investidor de longo prazo, quer comprar ações. Ele quer montar uma fábrica, quer fazer um investimento produtivo. Nós queremos mais investidores como esse no país”, diz.
Segundo Hatisuka, a valorização do mercado acionário pode ajudar a atrair investimentos produtivos ao melhorar as perspectivas de retorno de determinados setores. No entanto, isso depende de condições econômicas que permitam às empresas planejar seus investimentos e operar com previsibilidade.
Dependência do Ibovespa a commodities provoca distorções
Outro fator que exige cautela na interpretação do desempenho da Bolsa brasileira é a concentração do Ibovespa em grandes companhias, especialmente nos setores financeiro e de commodities. Para Hatisuka, o índice não representa necessariamente o desempenho da economia brasileira como um todo.
Uma companhia, em particular, tem peso suficiente para alterar significativamente a trajetória do índice, o que pode levar investidores a interpretar como uma melhora generalizada do mercado um movimento concentrado em uma única companhia. “Não é o Ibovespa, é a empresa”, resume o CIO da Mirabaud.
Na avaliação de Hatisuka, a valorização dessa companhia pode ser explicada por fatores específicos do setor da qual faz parte, além das perspectivas para a companhia, incluindo a evolução dos custos de produção e a exploração de novas fronteiras.
Esses elementos, contudo, não devem ser confundidos com uma melhora disseminada das condições de investimento no Brasil.
O executivo também chama atenção para a diferença entre o comportamento das grandes empresas, que concentram a liquidez do mercado, e o das companhias menores. Em uma carta de análise, a Mirabaud comparou o Ibovespa ao índice Small Cap (SMLL), buscando identificar o que a divergência entre os indicadores revela sobre o mercado acionário brasileiro.
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A diferença de desempenho entre os índices reflete não apenas o fluxo de recursos estrangeiros, mas também a própria estrutura do mercado. As maiores empresas brasileiras têm mais liquidez e são mais acessíveis a investidores internacionais que buscam exposição ao país.
“Quando você vai comprar Brasil, a nossa maior potência na Bolsa é commodity. Você vai comprar empresas como Petrobras ou Vale”, afirma Hatisuka.
Para o executivo, quando o Ibovespa avança sem que o movimento seja acompanhado de forma consistente por outras empresas e setores, é necessário avaliar se a alta representa uma melhora efetiva do mercado ou apenas a valorização de alguns ativos específicos.
“Se o Ibovespa está indo e o restante não está acompanhando, você tem que desconfiar, porque não é a economia como um todo avançando”, diz.
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