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InvestMercados
19/06/2026
6 min

Ibovespa vira bolsa 'mais barata do mundo' após correção com saída de gringos

Ibovespa vira bolsa 'mais barata do mundo' após correção com saída de gringos

O Ibovespa voltou a negociar em níveis historicamente descontados e, de acordo com levantamento da Nomos, tornou-se a bolsa mais barata entre os principais mercados acionários do mundo quando analisada pela métrica de Preço sobre lucro, o P/L, projetado para 2026.

Com base em dados da Bloomberg, a assessoria de investimentos calcula que o indicador do mercado brasileiro está em 8,1 vezes, abaixo de outros países emergentes, como Coreia do Sul (9,2), Argentina (9,9), Colômbia (9,8) e China (10,6), e muito distante das bolsas americanas.

O S&P 500 negocia a 21,2 vezes lucro projetado, enquanto o Nasdaq a 25,3 vezes e o Nikkei, principal índice acionário do Japão, tem um P/L de 25,7 vezes. A média geral dos mercados analisados é de 15,8 vezes, enquanto a média dos emergentes está em 11,9 vezes, segundo o levantamento.

O desconto reflete a forte correção sofrida pela bolsa brasileira desde a segunda quinzena de abril, após o rali observado no início do ano. Além da deterioração das expectativas para os juros domésticos, o mercado foi impactado por uma intensa retirada de recursos estrangeiros, movimento que ajudou a derrubar os preços das ações e ampliou o desconto em relação aos pares internacionais.

"O Ibovespa estava negociando, quando bateu quase 200 mil pontos, a 10,3 vezes o preço-lucro. Com a queda de cerca de 16% desde a máxima histórica, esse múltiplo veio para a região de 8,1 vezes, que é onde está agora", afirma Max Bohm, estrategista da Nomos e especialista em ações, análise fundamentalista e valuation.

Bolsa devolveu quase toda a valorização do ano

A correção também aparece quando se observa o valor de mercado das empresas listadas. Levantamento da Elos Ayta aponta que a capitalização consolidada de 302 companhias da B3 atingiu um recorde de R$ 5,447 trilhões no fim de fevereiro, após uma recuperação que adicionou R$ 739 bilhões em valor de mercado entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano.

Desde então, porém, o movimento se inverteu. Até 18 de junho, as empresas listadas perderam R$ 731 bilhões em valor de mercado, fazendo a capitalização retornar para R$ 4,717 trilhões, praticamente o mesmo patamar observado no encerramento do ano passado.

Quando excluído o efeito extraordinário envolvendo a Bradesco Saúde, o recuo é ainda mais evidente. Nesse cenário, a capitalização agregada passou de R$ 4,703 trilhões em dezembro para R$ 4,679 trilhões em junho, indicando que a bolsa não apenas devolveu os ganhos do início do ano, como terminou o período abaixo do nível registrado no fim de 2025.

"O levantamento reforça que a recuperação observada no primeiro bimestre de 2026 perdeu força ao longo do segundo trimestre. Em termos agregados, o mercado brasileiro encerrou o período praticamente no mesmo nível de capitalização observado no fim de 2025, evidenciando que a valorização registrada no início do ano não se sustentou nos meses subsequentes", afirmou a consultoria.

Saída de estrangeiros pressionou ações

Parte relevante dessa correção foi impulsionada pelo fluxo de capital. Desde 15 de abril, os investidores estrangeiros retiraram R$ 31,9 bilhões líquidos da B3.

Apesar da saída recente, o saldo acumulado do capital internacional no ano continua positivo em R$ 37,2 bilhões, reflexo do forte ingresso de recursos registrado nos primeiros meses do ano, quando a bolsa brasileira era uma das principais apostas globais entre os mercados emergentes.

Para Bohm, a saída recente não deve ser interpretada como um abandono do Brasil, mas sim como parte de uma realocação global de recursos. "Eu acredito que foi muito mais uma rotação de portfólio saindo de mercados emergentes como um todo. Não foi só do Brasil, foi de México e Colômbia também. Esse dinheiro foi para inteligência artificial e tecnologia", diz.

Segundo o estrategista, a forte valorização das empresas ligadas à inteligência aritifical (IA) nos Estados Unidos elevou significativamente os múltiplos dessas companhias e acabou atraindo liquidez que antes estava distribuída entre mercados emergentes.

"Quando você olha a tabela, vê o Nasdaq negociando entre 24 e 25 vezes lucro. Muitas empresas de tecnologia estão acima de 30 vezes. Houve uma rotação para essa tese".

É hora de voltar para a bolsa?

Na avaliação do estrategista da Nomos, o nível atual de preços representa uma oportunidade para investidores de longo prazo. "Sem dúvida. Acho que o momento de entrar na bolsa é agora. Muitas ações de qualidade, que pagam bons dividendos, caíram 20% ou mais. E várias delas ficaram mais baratas do que a própria bolsa."

Bohm ressalta, porém, que a seletividade se tornou ainda mais importante após a mudança das expectativas para os juros brasileiros. A Nomos, por exemplo, passou a projetar uma Selic próxima de 14% ao ano, quando anteriormente esperava uma taxa básica de juros em torno de 12%. Esse cenário afetou principalmente empresas mais dependentes da atividade doméstica.

"O cenário macro se deteriorou em relação aos juros. Isso prejudicou ações cíclicas domésticas, de consumo, varejo e construção civil. Essas exigem mais cautela", afirma.

Por outro lado, o estrategista vê oportunidades justamente nos setores considerados defensivos, que foram penalizados pela saída de capital estrangeiro, mas mantiveram fundamentos sólidos.

"Empresas de saneamento, bancos e do setor elétrico continuam muito interessantes. Sabesp, Copasa, Axia Energia e Equatorial divulgaram ótimos resultados nos últimos trimestres e caíram cerca de 20%. Não houve piora de fundamentos. Foi simplesmente saída de fluxo."

Fluxo pode voltar para a 'economia real'

Bohm também acredita que o mesmo movimento que levou investidores globais para ações de tecnologia pode, em algum momento, ser revertido. "O fluxo que foi embora pode voltar. Essas ações de tecnologia estão ficando cada vez mais caras".

O especialista lembra que, durante o rali da bolsa brasileira no início do ano, muitos investidores estrangeiros estavam posicionados em empresas ligadas à chamada "economia real", ou seja, companhias de commodities, infraestrutura e ativos físicos, vistas como alternativas aos papéis de tecnologia dos Estados Unidos. E, em sua visão, essa tese continua válida e pode voltar ao radar dos investidores globais.

"A guerra tirou um pouco do foco essa tese de economia real e commodities. As commodities caíram bastante nos últimos meses. Com o fim da guerra, esse tema pode voltar a ganhar espaço e direcionar novamente fluxo para mercados emergentes", avalia. O desafio, no entanto, é saber quando o capital estrangeiro decidirá retornar para aproveitar essa assimetria.

AutorClara Assunção
FonteExame
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