Iene bate menor cotação em quatro décadas e desafia economia japonesa

O iene japonês registrou forte desvalorização nesta terça-feira, atingindo a marca de 162 ienes por dólar no mercado de Tóquio. A cotação, que chegou a registrar a mínima de 162,36 ienes por dólar, representa o menor nível da moeda japonesa frente à divisa norte-americana em cerca de quatro décadas, estendendo uma trajetória de queda acelerada verificada nos últimos meses.
A depreciação ocorre menos de dois meses após as autoridades do Japão terem realizado rodadas recordes de intervenção cambial entre abril e maio, quando o governo gastou mais de US$ 70 bilhões de suas reservas internacionais para tentar sustentar a moeda.
O movimento atual levanta novos questionamentos sobre a eficácia dessas medidas e sobre os fatores estruturais que pressionam a moeda local.
Diferencial de juros e política fiscal
Conforme análises publicadas pelo Nikkei Asia, a desvalorização contínua é sustentada pela expectativa de que o diferencial de taxas de juros entre os Estados Unidos e o Japão permaneça amplo.
Enquanto o Federal Reserve adota uma postura mais firme de aperto monetário sob a indicação de possíveis altas de juros, o Banco do Japão (BOJ) sinaliza cautela para elevar suas taxas de forma agressiva, mantendo um ritmo gradual que limita o suporte à divisa.
A dinâmica fiscal do país também contribui para esse cenário. O portal asiático destaca que a administração da primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou um plano de investimento público-privado de 370 trilhões de ienes direcionado a setores estratégicos, como semicondutores, robótica, biotecnologia e inteligência artificial.
Segundo economistas ouvidos pelas agências, essa abordagem fiscal expansionista e a preferência declarada do governo por um iene mais fraco — que beneficia as exportações e os lucros de multinacionais — tendem a reforçar a tendência de enfraquecimento da moeda.
Impactos no turismo e no consumo interno
O atual patamar cambial gera efeitos distintos na economia do país. O The Wall Street Journal aponta que, por um lado, o iene desvalorizado estimula o turismo internacional, tornando o Japão um destino financeiramente mais acessível para estrangeiros e elevando o poder de compra de visitantes de locais como os Estados Unidos.
Por outro lado, o governo japonês manifesta preocupação com o encarecimento de bens importados e os reflexos na inflação doméstica, um fenômeno ao qual o mercado consumidor local não está habituado após 30 anos de preços estáveis ou em queda.
O aumento dos preços de itens essenciais e de energia pressiona o orçamento familiar, enquanto o fluxo intenso de turistas estrangeiros começa a inflacionar os custos de serviços em estâncias de lazer tradicionais, reduzindo a capacidade da própria população local de viajar para o exterior ou consumir itens de maior valor.
Perspectivas de mercado
Há divergências entre analistas sobre onde estará o piso para a cotação da moeda. O Nikkei explica que parte do mercado financeiro já projeta a possibilidade de o iene recuar para o patamar de 165 ienes por dólar caso os investidores concluam que o Banco do Japão não agirá de forma mais incisiva.
A evolução do cenário dependerá de o banco central japonês convencer o mercado de que está comprometido com a normalização de sua política monetária e de como o Federal Reserve conduzirá os juros nos Estados Unidos.
