Impacto das Bets vai além do varejo e atinge todo consumo essencial, diz BTG

As apostas esportivas online, as chamadas bets, se consolidaram como uma categoria importante de consumo discricionário com potencial de afetar não apenas o varejo, mas também, em alguns casos, o consumo de bens essenciais. É o que conclui relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), que mostra como as apostas veem ocupando um espaço relevante no orçamento das famílias brasileiras.
No documento, recém-divulgado, a equipe de research de varejo e consumo do banco destaca que a entrada em vigor do mercado regulado, em janeiro de 2025, marcou uma mudança na transparência do setor. Desde então, operadores licenciados passaram a reportar diariamente suas operações à Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, permitindo uma mensuração padronizada do mercado.
Segundo dados da SPA citados pelo BTG, os operadores licenciados registraram Receita Bruta de Jogos (Gross Gaming Revenue, ou GGR) de aproximadamente R$ 36,9 bilhões em 2025.O indicador, que corresponde ao valor apostado menos os prêmios pagos aos jogadores, é considerado pelo banco a melhor medida para estimar ogasto efetivo dos consumidores. Segundo os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim, Beatriz Cendon e Marcel Zambello, isso elimina distorções presentes em métricas como volume total de apostas ou transferências via Pix.
Os dados da secretaria mostram ainda que 25,2 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma aposta em plataformas reguladas ao longo do ano passado, o equivalente a cerca de 15% da população adulta do país.Gastos estão concentrados entre os consumidores mais vulneráveis
O gasto líquido médio foi de aproximadamente R$ 122 por apostador por mês. "Embora os gastos dos usuários recorrentes provavelmente sejam substancialmente maiores, já que muitos apostadores cadastrados participam apenas ocasionalmente", afirmaram os analistas.
Na visão do banco, os números indicam que as apostas "já se tornaram uma categoria relevante de consumo discricionário", embora seu peso agregado na economia ainda seja relativamente limitado.Em termos macroeconômicos, o GGR regulado correspondeu a cerca de 0,6% a 0,7% da renda agregada das famílias brasileiras e a 0,5% a 0,6% do consumo final das famílias, com base nas contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"A principal questão econômica não é o fato de as apostas representarem menos de 1% da renda agregada das famílias, mas sim que esse gasto está altamente concentrado em grupos demográficos específicos, aumentando o risco de substituição de compras discricionárias no varejo e, em alguns casos, até mesmo do consumo de bens essenciais das famílias", disse o banco.
Os dados do Banco Central indicam que aproximadamente 24 milhões de pessoas transferiram recursos paraempresas de apostas via Pix durante 2024, enquanto pesquisas oficiais mostram que a participação está desproporcionalmente concentrada entre brasileiros mais jovens e de menor renda.
O DataSenado, instituto de pesquisa, também constatou que a maioria dos apostadores possui renda mensal de até dois salários mínimos, sugerindo que os gastos com apostas absorvem uma parcela significativamente maior da renda disponível dessas famílias vulneráveis do que as médias nacionais sugerem.
