Imprensa internacional repercute eleições no Brasil e destaca influência dos EUA
Veículos como The Guardian, Le Monde, Reuters, Associated Press e Financial Times analisam a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e seus possíveis efeitos sobre os EUA, a democracia e o meio ambiente

O segundo turno da eleição presidencial brasileira deste domingo, 25, ganhou destaque na imprensa internacional pelo impacto que o resultado pode ter na América Latina e nas relações com os Estados Unidos. Jornais e agências de notícias analisam a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) sob a perspectiva política, econômica e ambiental.
O Financial Times descreve o Brasil como um “campo de batalha crucial” para as ambições americanas na região. A Reuters avalia que uma vitória de Flávio poderia aproximar o país do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e reforçar o avanço da direita latino-americana.
New York Times destaca influência dos EUA e segurança pública
O americano The New York Times trata a eleição como um teste para a influência política e econômica de Washington na América Latina. Segundo o jornal, o resultado pode redefinir a relação entre Brasília e o governo Trump, especialmente em temas como exploração de recursos naturais e combate ao crime organizado.
A reportagem compara as propostas de segurança dos candidatos. Flávio defende uma política mais dura, inspirada no modelo de Nayib Bukele em El Salvador, enquanto Lula propõe atingir as estruturas financeiras e o armamento das organizações criminosas.
O jornal também aborda acusações de interferência americana na eleição e controvérsias sobre a atuação das redes sociais durante a campanha.
AFP destaca empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas finais
Segundo a agência France-Presse (AFP), Flávio chegou à votação após receber 47% dos votos no primeiro turno, ante 45% de Lula. Apesar da vantagem inicial, a campanha do presidente ganhou força com grandes manifestações e mobilização nas redes sociais. A agência também destacou que as pesquisas anteriores não anteciparam a liderança de Flávio na primeira etapa da eleição.
Os candidatos participaram de um último debate televisionado na sexta-feira, marcado principalmente pela apresentação de propostas. A AFP observou que o encontro teve um tom diferente do debate anterior, que terminou em uma sequência de ataques pessoais.
The Guardian aponta risco de contestação do resultado
O britânico The Guardian destacou a disputa apertada: Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos, ante 45% de Lula, mas a diferença diminuiu durante a campanha. A abstenção recorde e a mobilização dos eleitores sem preferência consolidada também aparecem entre os fatores que podem definir o resultado.
O jornal examinou ainda os possíveis efeitos de uma vitória de Flávio sobre as instituições brasileiras. O senador prometeu conceder perdão ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, e defendeu mudanças constitucionais.
A publicação também abordou a possibilidade de contestação do resultadoe de Trump não reconhecer uma eventual vitória de Lula. A cientista política Helcimara de Souza Telles, ouvida pelo jornal, avalia que uma vitória de Flávio poderia aproximar o Brasil de um modelo autoritário apoiado pelos Estados Unidos.
Le Monde compara projetos políticos
O francês Le Monde contrapôs as propostas dos candidatos em áreas como política social, meio ambiente, segurança e relações internacionais.
Lula é associado à continuidade de programas sociais, à proteção ambiental, ao multilateralismo e à defesa das instituições democráticas. Flávio é apresentado como defensor de uma política de segurança mais repressiva, de uma agenda econômica liberal e de maior alinhamento com o governo Trump.
O jornal também destaca a atuação da direita nas redes sociais e a mobilização digital de apoiadores durante a campanha.
Reuters e Associated Press avaliam efeitos na região
A Reuters relacionou a eleição às tensões entre Brasília e Washington, incluindo as tarifas comerciais impostas por Trump a produtos brasileiros e as críticas do presidente americano à condenação de Jair Bolsonaro. Para a agência, uma vitória de Flávio poderia ampliar a influência dos Estados Unidos e fortalecer a direita na América Latina.
A Associated Press (AP) destacou que a eleição pode definir a orientação política do país mais populoso da região. Uma vitória de Flávio representaria uma guinada à direita, enquanto a reeleição de Lula manteria o Brasil entre os principais governos de esquerda latino-americanos, ao lado do México.
A agência também abordou questões internas que pesam na disputa, como segurança pública, custo de vida e acusações de corrupção. Outro tema é a composição do Supremo Tribunal Federal (STF), já que o próximo presidente poderá indicar ao menos três ministros durante o mandato, em razão de aposentadorias previstas.
Financial Times analisa mercado financeiro e Amazônia
O britânico Financial Times examinou as possíveis consequências econômicas da eleição. Segundo o jornal, investidores reagiram positivamente à liderança de Flávio no primeiro turno, diante da expectativa de reformas favoráveis ao mercado. O déficit público e o endividamento do governo também estão entre as preocupações.
Lula enfrenta dificuldades para conquistar eleitores insatisfeitos com os juros elevados, o custo de vida e as dívidas das famílias. Flávio, por sua vez, defende cortes de gastos e uma política mais dura de combate ao crime.
Na área ambiental, o jornal destacou a queda do desmatamento na Amazônia ao menor nível desde o início da série histórica, em 1988, e a preocupação de ambientalistas com uma possível reversão dos avanços caso Flávio vença.
Parlamentares europeus citados pelo veículo também alertaram que mudanças na política ambiental brasileira poderiam prejudicar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.
El País aborda os desafios à democracia brasileira
O espanhol El País publicou um artigo de opinião da jornalista brasileira Eliane Brum intitulado “Brasil decide este domingo si seguirá siendo una democracia” (Brasil decide neste domingo se continuará sendo uma democracia), em tradução livre.
Brum analisa a mobilização de setores progressistas nas ruas e nas redes sociais entre os dois turnos. Para a autora, a força da direita no Congresso e os desafios enfrentados pelas instituições podem dificultar a governabilidade nos próximos anos, independentemente do resultado.
