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18/08/2026
8 min

Inadimplência começa a cobrar a conta dos bancões no 2T26. Quem está mais bem preparado para enfrentar a piora no crédito?

Pressão apareceu nas provisões, margens e qualidade dos ativos — mas em intensidades diferentes em cada um dos bancos

Inadimplência começa a cobrar a conta dos bancões no 2T26. Quem está mais bem preparado para enfrentar a piora no crédito?

A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26) deixou uma coisa clara: o crédito começou a cobrar a conta dos grandes bancos brasileiros — embora cada um tenha recebido uma fatura diferente de inadimplência

No Itaú (ITUB4), os atrasos continuaram sob controle. Já o Santander Brasil (SANB11) sentiu mais o peso das provisões e da pressão sobre as margens. No Bradesco (BBDC4), o alerta apareceu antes de virar inadimplência, com sinais de aumento do risco futuro. 

E, no Banco do Brasil (BBAS3), o problema ganhou novas frentes: depois de meses concentrado no agronegócio, o aumento da inadimplência começou a aparecer também na pessoa física e nas pequenas e médias empresas. 

Em outras palavras, a diferença não está só no tamanho do problema, mas em onde ele aparece — e no que cada banco está fazendo para contê-lo. 

Confira quem atravessou o trimestre com mais tranquilidade, quem sentiu mais pressão e o que pode acontecer com a qualidade do crédito nos próximos meses. 

Veja como cada banco performou no 2T26:

Banco Lucro líquido (% a/a) Rentabilidade/ROE (% a/a) Inadimplência acima de 90 dias (% a/a) Provisões (% a/a)
Santander Brasil (SANB11)  R$ 3,014 bilhões (17,6%) 12,5% (-3,8 p.p) 3,3% (+0,7 p.p) R$ 7,65 bilhões (+11,5%)
Itaú Unibanco (ITUB4) R$ 12,407 bilhões (+7,8%) 24,3% (+1 p.p) 1,9% (estável) R$ 10,4 bilhões (+ 8,4%)
Banco Bradesco (BBDC4)  R$ 7,050 bilhões (+16,2%) 16% (+1,4 p.p) 4,3% (+0,2 p.p) R$ 10,85 bilhões (+21,4%)
Banco do Brasil (BBAS3)  R$ 3,9 bilhões (+13,9%) 8,3% (-0,1 p.p) 5,61% (+1,65 p.p) R$ 18,8 bilhões (+8,4%)
Fonte: Balanços enviados à CVM 

Como cada banco está lidando com a inadimplência? 

Santander Brasil: menos risco agora, recuperação mais adiante 

O Santander Brasil (SANB11) ainda espera novas pressões sobre as provisões e já admite que a recuperação da rentabilidade pode ficar para 2027.  

Segundo o diretor financeiro (CFO), Carlos Muñiz, juros elevados, ambiente macroeconômico adverso e a atualização dos modelos de risco exigida pela Resolução 4.966 ainda devem pesar sobre os resultados. 

"Se tivesse que colocar essa data [para recuperação dos resultados], provavelmente estaria mais no começo de 2027 do que no fim de 2026", afirmou o executivo. 

O banco também espera novos impactos no balanço no quarto trimestre, dado que a carteira de crédito ainda não terá refletido plenamente a estratégia mais conservadora adotada nos últimos trimestres.  

Ao mesmo tempo, o Santander avalia que há sinais melhores nas novas safras de crédito. O problema é que elas ainda precisam ganhar escala para compensar o desempenho das carteiras antigas. 

"O importante é que a performance real dos portfólios tem alguns sinais mais positivos. Não sei se vai dar para compensar todo esse impacto... Acredito que estamos fazendo as escolhas corretas e que, em algum tempo, essa conta tem que fechar." 

Essa mudança passa por uma escolha deliberada: o Santander reduziu a exposição a linhas mais rentáveis, mas também mais arriscadas, como crédito rotativo e operações para clientes de menor renda.  

A expansão agora está mais concentrada em financiamentos com garantia, crédito imobiliário, Pronampe, veículos novos e clientes de maior renda. 

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Itaú: inadimplência sob controle — por enquanto 

O Itaú Unibanco (ITUB4) apresentou um quadro mais confortável. Os atrasos de 15 a 90 dias na pessoa física permaneceram em 3% no segundo trimestre. 

Na pessoa jurídica, houve aumento dos atrasos, mas o CEO, Milton Maluhy Filho,classificou o movimento como pontual e relacionado ao fim das carências de programas públicos. 

"Não é, em hipótese alguma, um sinal de deterioração do portfólio", afirmou. 

Como boa parte dessas operações possui garantias, o banco afirma que o impacto sobre o custo de crédito permanece limitado.  

Na pessoa física, Maluhy foi ainda mais direto: "Não há nenhuma perspectiva de piora." 

Segundo o executivo, o crescimento recente da carteira está concentrado em segmentos considerados mais resilientes, com destaque para o público de alta renda, uma estratégia que busca preservar a qualidade dos ativos mesmo com juros elevados. 

Bradesco enfrenta cenário de inadimplência com carteira mais seletiva 

O Bradesco (BBDC4) reconhece que o ambiente macroeconômico continua mais difícil do que o previsto no início de seu processo de turnaround

Para o CEO, Marcelo Noronha, juros reais elevados comprimem as margens das empresas, reduzem a capacidade de pagamento das famílias e tornam o crédito naturalmente mais seletivo. 

A resposta do banco é manter a estratégia de privilegiar operações com garantias reais e maior retorno ajustado ao risco. "A gente não está fazendo loucura", afirmou Noronha. 

O consignado privado é um exemplo: segundo o executivo, a inadimplência da modalidade no Bradesco equivale hoje a cerca de metade da média do mercado. 

As provisões, porém, continuam no radar. Para Noronha, parte do aumento é consequência natural do crescimento da carteira e da Resolução 4.966. 

"O custo de crédito é natural que cresça se eu crescer a carteira", disse. 

Também pesaram operações garantidas pelos programas FGI e FGO. Com o fim das carências, o banco precisa provisionar antes mesmo da execução das garantias, elevando temporariamente as despesas e o volume de operações classificadas em Estágio 2. 

A categoria reúne créditos cujo risco aumentou significativamente. No Bradesco, esse saldo cresceu 15% no trimestre e passou a representar 5,5% da carteira. 

Além disso, houve efeitos específicos ligados ao Banco John Deere, operações rurais e produtos como cartões de alta renda e financiamento de veículos. 

A expectativa da administração é que essas operações sejam "curadas" ao longo do tempo e que o retorno adicional compense a pressão inicial sobre o custo de crédito.

Banco do Brasil: o problema se espalhou pela carteira 

Depois de meses com o agronegócio como principal fonte de pressão, a pessoa física passou a dar sinais mais fortes de deterioração no Banco do Brasil (BBAS3)

O cartão de crédito foi o principal ponto de atenção: a inadimplência acima de 90 dias praticamente dobrou em três meses. Para a administração, porém, não se trata de uma deterioração generalizada.  

O foco veio de uma modalidade de parcelamento automático da fatura sem entrada, criada para oferecer uma alternativa de pagamento principalmente a clientes de menor renda.  

Acontece que a solução acabou produzindo um efeito de bola de neve na inadimplência. 

O banco afirma que identificou o comportamento ainda no primeiro trimestre, interrompeu a operação no fim de março e antecipou parte das provisões. O impacto, porém, apareceu com mais força no balanço do segundo trimestre. 

A resposta agora é mudar a composição do crescimento da pessoa física, direcionando o crédito para segmentos considerados mais resilientes e com melhor retorno ajustado ao risco. 

"Nossa carteira de pessoa física não é comparável com a dos demais bancos; ela é muito calcada em linhas mais seguras", afirmou a presidente Tarciana Medeiros. 

A estratégia inclui alta renda, consignado público e privado e recuperação de crédito. Ao mesmo tempo, o banco ainda precisa enfrentar o problema original: a deterioração do agronegócio. 

O que dizem os analistas sobre os bancões? 

Em meio à deterioração da inadimplência, os balanços do 2T26 reforçaram a percepção de que não existe uma única história de crédito entre os grandes bancos. 

No Santander, o balanço frustrou as expectativas, pressionado por provisões, receitas mais fracas e uma compressão maior que a esperada das margens.  

O crédito foi o principal foco de pressão. As provisões para perdas chegaram a R$ 7,65 bilhões, alta de 11,5% em um ano e de 20,6% no trimestre, além de uma provisão trabalhista não recorrente de R$ 291 milhões. 

Mas a maior surpresa veio da margem financeira. Para analistas, a queda de 40 pontos-base nos spreads foi considerada excessivamente abrupta, apesar da explicação do Santander de que está mudando o perfil da carteira e reduzindo a exposição a segmentos de menor renda. 

Agora, o foco está em saber quando a redução de risco começará a aparecer na rentabilidade. O JP Morgan manteve recomendação overweight (compra) para SANB11, mas considera a dinâmica dos spreads um dos principais pontos a acompanhar. 

No Banco do Brasil, o mercado olha além do lucro de R$ 3,9 bilhões e do ROE de 8,3%: a prioridade é entender quando a qualidade do crédito — no agro e agora também no cartão — permitirá uma recuperação mais consistente da rentabilidade e maior espaço para dividendos

O agronegócio continua sendo a principal fonte de preocupação. A possibilidade de um novo El Niño adiciona uma variável de risco justamente quando o banco tenta recuperar uma carteira rural deteriorada nos últimos trimestres. 

Enquanto isso, o Itaú teve uma recepção mais favorável após o balanço, com alta das ações. A reação reforça a percepção de resiliência da instituição, apoiada por seu histórico de execução e maior controle sobre a carteira de crédito. 

A Empiricus Research manteve preferência pelo banco entre os bancões justamente por essa capacidade de entregar resultados mesmo em um ambiente macroeconômico adverso. O desafio agora é provar que essa resiliência continua à medida que o ciclo de crédito avança. 

Já o Bradesco mostrou que controlar a inadimplência não significa necessariamente eliminar a pressão sobre provisões. Analistas acompanham de perto a evolução das operações em Estágio 2 e a capacidade do banco de transformar crescimento de carteira em retorno ajustado ao risco.

AutorCamille Lima
FonteSeu Dinheiro
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