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13/10/2026
5 min

Incêndios no Amazonas: fumaça encobre Porto Velho e oito suspeitos são identificados

Investigação em Itacoatiara reforça tese de crime levantada pelo ministro Capobianco; Manaus volta a fechar escolas

Incêndios no Amazonas: fumaça encobre Porto Velho e oito suspeitos são identificados

A fumaça dos incêndios no Amazonas atravessou a divisa do estado. Porto Velho, capital de Rondônia, acordou nesta terça-feira, 13, com o céu turvo. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o vento carregou até lá as partículas das queimadas no estado vizinho.

O índice de qualidade do ar da plataforma suíça IQAir, que converte a concentração de poluentes numa escala de 0 a 500, chegou a 120. A marca está na faixa considerada insalubre para grupos sensíveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.

Em Manaus, a rede municipal suspendeu as aulas pela segunda vez em cinco dias, e a rede estadual também interrompeu as atividades nas escolas da capital.

Segundo nota da prefeitura, a concentração média de partículas finas chegou a 135 microgramas por metro cúbico na segunda-feira, 12, nível classificado como péssimo, com risco alto de piora.

A situação de emergência, decretada no sábado, 10, alcança atualmente 36 dos 62 municípios, mais da metade do Amazonas. O decreto vale por 180 dias e autoriza compras e contratações sem licitação para o combate ao fogo.

No domingo, depois de sobrevoar Autazes, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, classificou o quadro como mais grave do que imaginava e afirmou que os focos em mata preservada indicam ação criminosa para degradar a floresta e derrubá-la depois.

Do sul do estado ao entorno da capital

Quatro municípios amazonenses estão entre os 20 com mais focos de incêndio do país nos dez primeiros dias de outubro. Lábrea, no sul, aparece em quarto lugar, com mais de 200 registros, seguida por Boca do Acre, também no sul, e por Autazes e Itacoatiara, vizinhas da capital.

Desde o início da temporada, o Ibama extinguiu 292 incêndios no estado, ante 229 contabilizados até sábado.

Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, só na comunidade do Jacarezinho foram queimados 256,71 hectares. Uma força-tarefa com mais de 150 pessoas, entre bombeiros e voluntários, tenta conter as chamas.

A Força Aérea Brasileira começou na manhã de segunda-feira as operações com o cargueiro KC-390, que despeja até 12 mil litros de água por passagem e deve fazer três lançamentos por dia. Um dos destinos é Parintins, a 369 quilômetros de Manaus.

A força-tarefa federal soma 11 aeronaves e 290 brigadistas em campo. São Paulo enviou 25 bombeiros militares e cinco agentes de Defesa Civil. Desde segunda, mensagens do governo federal por WhatsApp orientam moradores das áreas atingidas a reduzir a exposição à fumaça.

Risco maior onde o hospital está mais longe

Uma nota técnica do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz, divulgada nesta terça, trouxe um alerta para o efeito das partículas finas sobre a saúde.

Elas penetram nos pulmões e podem chegar à corrente sanguínea, o que eleva o risco de crises de asma, infarto e AVC. Em Manaus, a Secretaria de Estado de Saúde registrou 82 atendimentos de urgência por problemas respiratórios ligados à fumaça entre 1º e 8 de outubro.

Nos territórios indígenas, segundo a Fiocruz, o risco cresce com a distância. Desigualdades socioambientais, dificuldade de deslocamento e acesso limitado à atenção especializada agravam a exposição.

A fundação desenvolve com a Secretaria de Saúde Indígena um sistema de previsão da qualidade do ar, o AlertAr Saúde, para antecipar os episódios críticos nas aldeias.

O alerta vale para os próximos meses. A Fiocruz aponta a possível intensificação do El Niño 2026–2027, que tende a prolongar a estiagem, e o coordenador da Defesa Civil de Itacoatiara, Hekney Rebouças, prevê seca até dezembro.

Oito suspeitos e um histórico de autuações

A Polícia Civil apura quem está por trás das queimadas e abriu 69 boletins de ocorrência por crimes ambientais só em setembro. No domingo, 11, Capobianco pediu que o governo estadual empregasse a Polícia Militar ao lado dos Bombeiros para identificar os responsáveis.

Em Itacoatiara, a investigação já tem nomes. Segundo município mais populoso do estado, a 176 quilômetros de Manaus, a cidade virou prioridade das operações aéreas, com missões do KC-390 previstas para esta terça.

O incêndio no Lago do Canaçari, a cerca de 10 quilômetros do centro, começou em 19 de setembro e havia consumido cerca de 686 hectares dez dias depois, segundo o Painel do Fogo. Na primeira semana, o Corpo de Bombeiros informou que não tinha sido acionado para a ocorrência.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente identificou oito suspeitos de provocar queimadas na zona rural, e um deles é investigado por envolvimento no incêndio do Canaçari.

A pressão sobre a floresta no município não começou nesta seca. Em novembro de 2024, a Operação Ibirá III, do Ibama, da Funai e do Batalhão Ambiental, aplicou R$ 765 mil em multas e embargou dez áreas desmatadas, somando 182 hectares, em Itacoatiara, em Autazes e na Terra Indígena Rio Urubu.

Em fevereiro deste ano, uma ação do Ipaam com a prefeitura desfez uma ocupação irregular de cerca de cem pessoas às margens da rodovia AM-010, parte dela dentro do campus da Universidade Federal do Amazonas, onde quatro hectares tinham sido desmatados.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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