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Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioFII
03/06/2026
6 min

Incorporadora mira influencers e faz prédios com área para produção de conteúdo

Incorporadora mira influencers e faz prédios com área para produção de conteúdo

A economia dos criadores deixou de ser um nicho de internet. Em 2025, existiam 362 milhões de criadores de conteúdo nos 20 países analisados pelo relatório The Creator Revolution. Juntos, eles movimentavam uma receita anual estimada em US$ 368 bilhões — valor comparável ao PIB de economias como Hong Kong e África do Sul.

No Brasil, o fenômeno é especialmente grande. O estudo estima 40,1 milhões de criadores de conteúdo no país, algo próximo de um em cada cinco brasileiros. Embora a maioria ainda não viva exclusivamente da atividade, o impacto cultural e econômico desse grupo já começa a sair das redes sociais e entrar em setores mais tradicionais.

Um deles é o mercado imobiliário.

Daniel Debeuz, sócio-fundador da Azure Incorporadora, aposta que os criadores de conteúdo terão um peso cada vez maior na economia e já desenhou quatro empreendimentos voltados para esse público. O primeiro deles, o Influencer Vila Mariana, acabou viralizando nas redes sociais após ser divulgado como um condomínio pensado para quem produz conteúdo digital.

A aposta não surgiu do nada. Debeuz acumula quase duas décadas de experiência no mercado imobiliário e fundou a Azure em 2021 com a proposta de encontrar nichos pouco explorados em um dos mercados mais competitivos do país. A estratégia, segundo ele, era buscar um "oceano azul" em meio à "selva" dos lançamentos residenciais paulistanos.

O empreendimento, localizado na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, conta com 208 unidades entre 20 metros quadrados e 48 metros quadrados e áreas comuns voltadas à criação digital. À EXAME, Debeuz afirma que 124 apartamentos já foram vendidos, o equivalente a quase 60% do projeto. As obras começam em julho e a entrega está prevista para 2028.

Além do Influencer Vila Mariana, a Azure lançou o BConnect Perdizes, a cerca de 40 metros da futura estação Sesc Pompeia do metrô. Já o Status Paulista, na região dos Jardins, próximo à Avenida Paulista, e o Trend F, localizado na Rua Silvia, próximo ao Hospital IGESP e à Rua Pamplona, estão em fase de aprovação. Mas todos seguem a mesma lógica de produto.

"Quantas vezes na vida você usou a piscina do seu condomínio? Ou a sala de jogos com mesa para baralho? A ideia é substituir isso por espaços mais úteis para os moradores que dependem também da criação de conteúdo para ganhar dinheiro", afirma.

Um prédio para a economia dos criadores

O conceito nasceu da busca por um nicho específico dentro de um mercado imobiliário cada vez mais competitivo. A incorporadora identificou uma demanda crescente por apartamentos compactos em regiões nobres e próximas ao metrô, mas percebeu que o perfil dos compradores também estava mudando.

A ideia foi adaptar os empreendimentos às necessidades de profissionais que dependem da internet para construir reputação e atrair clientes. Médicos, advogados, psicólogos, consultores e outros autônomos passaram a utilizar redes sociais como ferramenta de trabalho, criando uma demanda por espaços adequados para gravação de vídeos, podcasts e produção de conteúdo.

"A gente enxergou que ter esse ambiente dentro do condomínio seria um diferencial", afirma Debeuz.

Segundo ele, os empreendimentos foram pensados para "transformar você no influenciador digital". O executivo faz questão de esclarecer que o público-alvo não são celebridades da internet como Virgínia Fonseca ou Whindersson Nunes, mas sim os chamados microinfluenciadores e profissionais que ainda não possuem estrutura própria.

"A profissão de influenciador já existe. O médico precisa criar conteúdo, o advogado precisa criar conteúdo, o psicólogo precisa criar conteúdo. Todo mundo precisa gerar autoridade na internet."

A proposta também busca resolver um problema cada vez mais comum em condomínios residenciais. Com o crescimento da economia dos criadores, moradores passaram a utilizar academias, coworkings, piscinas e outras áreas compartilhadas como cenários improvisados para gravações.

"Hoje você vê gente gravando na academia, na piscina, no coworking. Muitas vezes isso interfere na rotina dos outros moradores", afirma. Nos empreendimentos da Azure, os estúdios foram concebidos justamente para concentrar essa atividade em ambientes preparados e com tratamento acústico. "A ideia é não ter uma Dona Maria ou um Seu Antônio aparecendo sem querer no fundo do vídeo."

Menos garagem, mais estúdio

A lógica do projeto também está ligada à transformação dos apartamentos paulistanos.

Com menos espaço dentro das unidades, tornou-se mais difícil manter estruturas próprias para gravação de conteúdo. "A gente entendeu que esse nicho, esse público novo que a gente está vivendo hoje em dia, faz mais sentido ele ter esse ambiente preparado para isso", diz.

Além disso, a escolha por imóveis compactos próximos ao metrô tem uma explicação econômica. Os empreendimentos são construídos em terrenos relativamente pequenos, geralmente equivalentes a três casas, com cerca de 600 metros quadrados, e não possuem vagas de garagem.

Segundo Debeuz, a decisão ajuda a manter os preços competitivos em regiões valorizadas da cidade.

"Construir para baixo é mais caro do que construir para cima", afirma.

As unidades do tipo estúdio partem de R$ 325 mil. O condomínio, que não inclui o uso dos espaços de criação de conteúdo, gira em torno de R$ 13 por metro quadrado.

Não é só para TikTok

Além de academia, piscina e coworking, os prédios contam com estúdios de gravação, fotografia, vídeo, maquiagem e podcast. Mas a proposta vai além das redes sociais.

Segundo Debeuz, parte importante da demanda vem do crescimento do e-commerce e do mercado de dropshipping. Os estúdios fotográficos foram desenhados para permitir a produção profissional de imagens de produtos sem a necessidade de contratar empresas externas.

"Você consegue fotografar um óculos, uma caneta, um lanche ou qualquer outro produto com qualidade profissional dentro do próprio condomínio", afirma.

Os ambientes possuem iluminação controlada e fundo infinito, recurso bastante utilizado em fotografia comercial.

As áreas são compartilhadas e podem ser reservadas pelos moradores em horários específicos.

Um condomínio que já nasce pensando em mudar

Apesar da aposta na economia dos criadores, a própria incorporadora admite que a tecnologia evolui rápido demais para qualquer planejamento rígido.

Um exemplo está nas salas de edição de vídeo, previstas nas primeiras versões do projeto e posteriormente eliminadas. "Percebemos que ninguém mais edita em uma ilha de edição. Hoje tudo é feito no celular", diz Debeuz.

Segundo ele, até os equipamentos que aparecem nas imagens de divulgação têm um papel mais simbólico do que funcional. A expectativa é que, quando os empreendimentos forem entregues, em 2028, os moradores utilizem tecnologias muito diferentes das atuais.

A própria Azure já trabalha com a possibilidade de adaptar os espaços ao longo do tempo.

"Tudo envelhece. Os coworkings que viraram febre alguns anos atrás já não têm a mesma função porque o home office não veio exatamente da forma que muita gente imaginava", afirma.

Apesar disso, há uma aposta que ele considera permanente. "Os formatos mudam, as plataformas mudam, mas a profissão de criador de conteúdo veio para ficar."

E é justamente nessa transformação que a incorporadora vê uma oportunidade de mercado: construir prédios para uma economia que, até poucos anos atrás, sequer existia.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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