Índia está entre os países com mais obesos, mas poucos querem as 'canetas emagrecedoras'
Gigante asiático já produz GLP-1 barato em massa, mas vem descobrindo que o preço não basta para criar um mercado

RESUMO +
As vendas de canetas emagrecedoras na Índia alcançaram apenas cerca de 20% dos US$ 261 milhões projetados pela corretora Nomura Holdings para 2026, segundo dados da consultoria Pharmarack, mesmo após o fim da patente da semaglutida em março. Estigma, baixa percepção de risco e dúvidas sobre genéricos frearam a demanda.
A Índia parecia ter todos os ingredientes para se tornar uma das grandes fronteiras do mercado de medicamentos para perda de peso como as canetas emagrecdoras. Uma população de 1,4 bilhão de pessoas, uma das maiores prevalências de obesidade do mundo, uma enorme população de diabéticos e, desde março, quando caiu as patentes da semaglutina, versões genéricas de medicamentos como Ozempic e Wegovy chegaram às farmácias por uma fração do preço dos produtos de referência.
Mas o que aconteceu até agora, porém, ficou longe das expectativas. As vendas de medicamentos para perda de peso na Índia ficaram em apenas cerca de 20% dos US$ 261 milhões que a corretora Nomura Holdings Inc. havia projetado para o mercado em 2026, segundo dados da consultoria Pharmarack citados pela Bloomberg.
E, depois de uma alta inicial,o crescimento das vendas de GLP-1, tanto de genéricos quanto de medicamentos patenteados, começou a perder força nos últimos meses.
“A essa altura, todos já têm uma noção realista do tamanho do mercado”, afirma Sheetal Sapale, vice-presidente da Pharmarack em entrevista à Bloomberg. “O crescimento exponencial não vai acontecer.”
O resultado coloca em xeque uma premissa que vinha animando a indústria farmacêutica, de que a queda de preços, provocada pelo fim da patente da semaglutida na Índia, seria suficiente para destravar uma demanda gigantesca.
Em março, a patente indiana do princípio ativo usado em medicamentos da Novo Nordisk, como Ozempic e Wegovy, expirou. O movimento abriu espaço para uma enxurrada de versões genéricas e, em julho, cerca de três dezenas de produtos já estavam disponíveis nas farmácias, com preços a partir de US$ 14 por mês.
Analistas chegaram a projetar que as vendas de medicamentos para emagrecimento no país poderiam alcançar US$ 1 bilhão por ano até 2030.A conta parecia fazer sentido. A Índia tem mais pessoas obesas do que qualquer país, à exceção de Estados Unidos e China, segundo as informações reunidas pela agência de notícias americanas. Também tem a segunda maior população de pessoas com diabetes do mundo, além do avanço de doenças metabólicas como esteatose hepática e distúrbios da tireoide.
Mas a experiência dos primeiros meses mostrou que transformar uma necessidade de saúde em demanda por medicamentos é mais complicado do que simplesmente colocar um produto barato na prateleira.
“Não se trata apenas de preço”, afirma Chittaranjan Yajnik, pesquisador de Pune que estuda diabetes e obesidade. Segundo Yajnik, a adesão aos tratamentos depende de fatores como histórico geracional, cultura, geografia e grupo socioeconômico.
Há, nesse caso, um paradoxo particular. Muitos indianos podem apresentar risco metabólico mesmo sem se enxergarem como pessoas obesas. A chamada hipótese ou paradoxo de Yajnik-Yudkin descreve justamente a maior proporção de gordura corporal e risco metabólico observada em populações sul-asiáticas mesmo com índices de massa corporal mais baixos.
Isso ajuda a explicar por que uma campanha baseada simplesmente na ideia de “remédio para emagrecer” pode não alcançar necessariamente quem apresenta maior risco.
Dados citados pelo Yahoo apontam que 101 milhões de adultos indianos têm diabetes e outros 136 milhões estão na faixa de pré-diabetes. A obesidade abdominal, por sua vez, alcançaria cerca de 40% dos adultos, acima dos 28,6% registrados quando considerada a obesidade pelo índice de massa corporal.
A questão, portanto, não é apenas quantas pessoas poderiam se beneficiar dos medicamentos, mas quantas se reconhecem como potenciais pacientes e quantas estão dispostas a procurar tratamento.
Um medicamento que muitos preferem esconder
O estigma em torno do peso é uma das barreiras mais difíceis de medir, mas aparece repetidamente nos relatos de médicos e pacientes.
Em uma sociedade em que o excesso de peso já foi associado a prosperidade, ter alguma gordura corporal pode carregar uma conotação positiva. Kubera, deus hindu da riqueza e da boa fortuna, é tradicionalmente representado com uma barriga proeminente. Em um país marcado historicamente por pobreza, fome e desnutrição, o peso também pode ser interpretado como sinal de que uma família tem comida suficiente.
Ao mesmo tempo, a obesidade também é associada à preguiça e à falta de disciplina. O resultado é uma contradição: algumas pessoas escondem justamente o tratamento destinado a uma condição que ainda é vista como falha individual.
“Você está escolhendo o caminho mais fácil, um atalho”, afirma Saloni Paliwal, cofundadora da Voy India, site que oferece programas e informações sobre perda de peso. “Você deveria fazer do jeito difícil, como todo mundo. Ir à academia, comer menos.”
A situação aparece até nas conversas digitais. Usuários recorrem a grupos de WhatsApp e fóruns do Reddit para discutir como aplicar as injeções sem que familiares saibam e como manter os medicamentos refrigerados.
Para as mulheres, as barreiras podem ser ainda maiores. Segundo médicos ouvidos pela Bloomberg, elas representam a maioria dos pacientes que utilizam medicamentos para perda de peso nos grandes mercados, mas mulheres indianas de famílias mais tradicionais podem ter pouca autonomia sobre gastos com saúde. A decisão sobre iniciar um tratamento pode envolver maridos, pais ou sogros.
A médica Swati Pradhan, de Mumbai, diz ter pacientes que chegam ao consultório com dinheiro reservado para apenas três meses de tratamento.
Genérico barato também precisa convencer
A perda de confiança nos produtos genéricos adicionou outra camada ao problema. Muitos médicos ainda hesitam em prescrever os medicamentos diante da quantidade de opções disponíveis e de dúvidas sobre a qualidade dos produtos. E alguns episódios recentes reforçaram essas preocupações.
Em julho, a Dr. Reddy’s informou que determinados lotes de sua semaglutida estavam fora das especificações por causa de um problema relacionado ao princípio ativo. A empresa interrompeu novas remessas enquanto investigava a origem do problema. Até junho, havia vendido 39 mil unidades do produto na Índia, contra 63 mil da concorrente Sun Pharma.
O episódio também afetou outras empresas como Torrent Pharmaceuticals e USV, que recolheram lotes de semaglutida para avaliação, segundo informações publicadas na imprensa indiana.
Para um mercado que dependia justamente dachegada de genéricos baratos para acelerar a adoção, problemas de oferta e confiança são particularmente relevantes. “Acreditava-se que os genéricos iriam revolucionar o mercado; isso não aconteceu”, afirma Rajiv Kovil, médico de Mumbai que trata pacientes com diabetes. “Será um processo muito mais longo.”
O limite da 'caneta emagrecedora mais barata'
O caso indiano é particularmente interessante porque ocorre justamente quandoo mercado global de GLP-1 parece ter espaço para continuar crescendo.
O Atlas Mundial da Obesidade 2026 estima que 177 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos viviam com obesidade em 2025. Até 2040, esse número pode chegar a 228 milhões. Considerando sobrepeso e obesidade juntos, eram 419 milhões em 2025, número que pode alcançar 507 milhões em 2040.
O crescimento ocorre principalmente em países de renda média, justamente onde os sistemas de saúde e os hábitos alimentares passam por rápidas transformações. O relatório aponta que mais de 180 países registraram aumento da obesidade infantil desde 2010.
A Índia, portanto, reúne uma combinação que interessa à indústria: uma enorme população, aumento de doenças metabólicas e transformação dos hábitos urbanos. Mas a experiência recente mostra que tamanho do público potencial não é sinônimo de tamanho do mercado.
As farmacêuticas também esbarram em um ambiente regulatório particular. A publicidade direta de medicamentos é proibida no país. A Eli Lilly tentou contornar a restrição com uma campanha de conscientização sobre obesidade, sem citar diretamente seus medicamentos GLP-1. A campanha chegou a aparecer em outdoors, na internet e durante um importante torneio de críquete.
Em março, porém, a agência reguladora indiana proibiu atividades promocionais relacionadas à perda de peso, considerando que elas poderiam equivaler a publicidade de medicamentos.
Para os fabricantes, isso limita justamente uma das ferramentas mais importantes paracriar uma nova categoria de consumo: explicar ao paciente o que é o tratamento, para quem ele é indicado e por que uma pessoa que não se considera obesa pode estar em risco metabólico.
E o Brasil?
A história ganha uma dimensão diferente quando comparada ao Brasil. Por aqui, as canetas emagrecedoras já deixaram de ser um produto de nicho e passaram a mexer com o varejo. Segundo dados da NielsenIQ, cerca de 90% dos usuários mudaram hábitos alimentares depois de iniciar o tratamento, enquanto seis em cada dez reduziram gastos com bares, restaurantes e lazer para bancar os medicamentos.
Nas farmácias, o impacto já aparece nos balanços. O Itaú BBA estima que os GLP-1 respondam por 12% da receita da RD Saúde e projeta que essa participação chegue a 19% até 2030. Na Panvel, as canetas representaram 11,2% do faturamento do primeiro trimestre, de R$ 1,57 bilhão, enquanto a receita com GLP-1 cresceu 88,4% em um ano. Na Pague Menos, o avanço foi de 157%, levando a categoria a 9,1% da receita.
A IQVIA calcula que a receita com GLP-1 no Brasil cresceu 110,5% nos 12 meses até abril. Sem essa classe de medicamentos, o crescimento do faturamento do varejo farmacêutico teria sido de 8,6%, ante 11,7% com a contribuição das canetas.
A diferença é que o Brasil ainda está em uma fase de expansão do mercado, enquanto a Índia começa a mostrar os limites dessa tese.A quebra de patente também chegou ao Brasil e vem reduzindo preços. Em junho, a EMS lançou o Ozivy, primeira caneta de semaglutida produzida no país com aval da Anvisa, com preço inicial cerca de 30% abaixo dos produtos de referência. A Eli Lilly também passou aoferecer descontos em pacotes do Mounjaro.
Isso abre uma questão semelhante à enfrentada pela Índia: quanto a queda dos preços vai ampliar o número de pacientes e quanto simplesmente vai reduzir a receita por tratamento?
Para o varejo brasileiro, analistas avaliam que o aumento de volume pode compensar parte dessa pressão ao longo do tempo. Mas, por enquanto, a experiência indiana serve como um lembrete de que a equação do GLP-1 tem mais variáveis do que preço.
Na Índia, colocar dezenas de versões genéricas nas farmácias não foi suficiente para produzir o mercado de US$ 261 milhões projetado pela Nomura para 2026. O país conseguiu baratear a caneta antes de conseguir convencer uma parcela relevante da população a usá-la. “O crescimento exponencial não vai acontecer”, resume Sapale, da Pharmarack.
