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Sacre Investimentos
Mundo
31/08/2026
6 min

Indústrias brasileiras que exportam US$ 7 bi miram África após tarifaço dos EUA causar prejuízo

Em entrevista à EXAME, Carlos Henrique Moreira, diretor do Instituto Nacional do Plástico, diz que os EUA caíram do 1º para o 14º mercado e aponta a África como nova fronteira do setor

Indústrias brasileiras que exportam US$ 7 bi miram África após tarifaço dos EUA causar prejuízo

De Lusaca, Zâmbia* — O tarifaço dos Estados Unidos abriu uma nova frente na estratégia comercial da indústria brasileira do plástico. Antes principal destino das vendas externas do setor, o mercado americano caiu para a 14ª posição nos últimos anos.

Com a perda de espaço nos EUA, empresas brasileiras aceleraram a busca por compradores na África, continente que hoje responde por cerca de 4% das exportações da cadeia.

Em entrevista à EXAME durante missão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), na Zâmbia, Carlos Henrique Moreira, diretor executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP) e de projetos da Think Plastic Brazil, afirma que o continente africano é a nova fronteira de exportação para o setor.

“O mercado [africano] só vai crescer e quem chega primeiro leva. E já estamos chegando atrasados porque os chineses estão dominando”, diz Moreira, que afirma já ter participado de missões em 22 países africanos.

O diretor da INP diz que a meta é fazer a participação da África nas exportações do setor de plástico alcançar 25% até 2032.

Segundo o executivo, a aproximação com países africanos já ocorria antes do tarifaço, mas ganhou importância diante da necessidade de diversificar destinos. Nigéria, África do Sul, Angola, Zâmbia e Moçambique estão entre os mercados acompanhados pelo projeto.

Carlos Henrique Moreira, diretor executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP) e de projetos da Think Plastic Brazil: missão na África já rendeu novos clientes (Apex Brasil/Divulgação)

A estratégia para ampliar essa participação passa por missões empresariais, identificação de compradores e reuniões entre companhias brasileiras e potenciais clientes locais. Na Zâmbia, o executivo participou de diversas reuniões durante rodadas de negociações promovidas pela missão.

“Eu venho para cá para apresentar as empresas brasileiras por meio de um catálogo que nós temos, e já passo para as especialistas de mercado as demandas”, diz.

A ideia é transformar os contatos das missões em negócios depois das viagens. Moreira cita como exemplo compradores que selecionam previamente fornecedores brasileiros e passam a ter reuniões organizadas pelas equipes do projeto.

O setor movimentou em 2025 US$ 7,7 bilhões em exportações, consideradas as vendas de transformados plásticos e resinas. A maior parte dos embarques ainda está concentrada nas Américas, cenário que as empresas tentam mudar após o aumento das barreiras comerciais americanas.

A Nigéria aparece como o principal mercado da indústria brasileira de plástico no continente e, de acordo com o executivo, ocupa a 11.ª posição no ranking global, segundo dados da ANP.

O potencial, porém, vem acompanhado de obstáculos. O executivo cita tarifas de importação elevadas em determinados países africanos, dificuldades para remeter recursos ao Brasil e diferenças regulatórias entre os mercados africanos. Além da concorrência chinesa, com grande influência em diversos países africanos.

Moreira afirma que a proximidade cultural e a relação diplomática entre os países ajudam a compensar na disputa do mercado africano.

Hoje, a Think Plastic Brazil, projeto voltado à internacionalização do setor, começou com 38 empresas e passou a reunir mais de 250 ao longo de 20 anos. Nesse período, contabilizou 4.773 participações empresariais em 240 projetos de promoção comercial e 64.366 reuniões.

Segundo dados do projeto, as iniciativas contribuíram para mais de US$ 1,247 bilhão em negócios, diante de US$ 12,338 milhões investidos.

Tarifaço derruba participação do plástico brasileiro nos EUA

A mudança de estratégia ocorre após uma nova escalada das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros em 2026. Hoje, segundo Moreira, o setor paga 37,5% de tarifas.

Para a indústria do plástico, o efeito foi suficiente para tirar os Estados Unidos da liderança entre os destinos das exportações e levá-los à 14ª posição nos últimos meses.

Parte das empresas optou por absorver uma parcela do custo adicional para preservar clientes, mas reduziu o volume comercializado. Segundo Moreira, há empresas que aceitaram operar com margens menores ou mesmo prejuízo em algumas operações para não abandonar clientes conquistados no mercado americano.

“Eles continuam atendendo. Tem algumas que estão tomando prejuízo, mas diminuiu um pouco a venda, justamente para ter essa manutenção", diz.

A avaliação do executivo é que recuperar um comprador perdido pode representar um custo maior do que absorver temporariamente parte da tarifa.

“As nossas empresas também financiam, porque elas acreditam que conquistar um cliente é mais caro do que perder um cliente antigo”, afirma.

Embalagens ampliam efeito do tarifaço

A exposição da indústria não se limita aos produtos plásticos enviados diretamente aos Estados Unidos. Fabricantes brasileiros também fornecem embalagens usadas por outros setores exportadores, como alimentos.

“Principalmente embalagem, sofremos de forma direta e indireta. Direta é aquela exportação que a gente manda para os Estados Unidos, para o comprador que vai embalar o produto. E também empresa brasileira que exporta o produto já com a nossa embalagem. Então, a gente sofre duas vezes”, afirma Moreira.

Na prática, uma empresa de embalagens pode ser afetada mesmo sem exportar diretamente. Se frigoríficos, produtores de cereais ou outras companhias brasileiras reduzirem os embarques aos Estados Unidos, a demanda pelas embalagens usadas nesses produtos também pode cair.

Esse efeito indireto aumenta a pressão para encontrar novos mercados — e ajuda a explicar a atenção dedicada à África.

Indústria também pede crédito para adaptação ambiental

A busca por mercados externos ocorre enquanto as fabricantes precisam financiar mudanças dentro das próprias fábricas com as exigências de sustentabilidade.Hoje, a indústria brasileira de transformação de plásticos reúne cerca de 12,4 mil empresas, emprega 363,4 mil pessoas e registra faturamento de R$ 123 bilhões, segundo dados apresentados pelo setor.

A produção nacional chega a 7,04 milhões de toneladas de produtos plásticos, ante consumo de 7,49 milhões de toneladas. A reciclagem mecânica de materiais plásticos pós-consumo soma cerca de 1,1 milhão de toneladas.

Moreira defende linhas de financiamento específicas para que as empresas adaptem produtos e processos às novas exigências ambientais.

“Não é simplesmente falar: ‘O produto vai ter um material sustentável que vem, por exemplo, da cana-de-açúcar’. Não é assim. Você tem que ir lá, você tem que remodelar, redesenhar o seu produto. E isso envolve moldes, isso envolve máquinas, isso envolve uma série de situações", diz.

*O repórter viajou a convite da ApexBrasil.

AutorAndré Martins
FonteExame
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