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Economia
16/09/2026
6 min

“Inflação é uma escolha”: Warsh explica por que Fed decidiu subir os juros

A inflação ainda elevada, uma economia que ganhou força nas últimas semanas e um mercado de trabalho próximo do pleno emprego foram os principais ingredientes que levaram o Federal Reserve a subir os juros nesta quarta-feira (16). O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) elevou, por unanimidade, a taxa dos Fed […]

“Inflação é uma escolha”: Warsh explica por que Fed decidiu subir os juros

A inflaçãoainda elevada, uma economia que ganhou força nas últimas semanas e um mercado de trabalho próximo do pleno emprego foram os principais ingredientes que levaram o Federal Reserve a subir os juros nesta quarta-feira (16).

O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) elevou, por unanimidade, a taxa dos Fed Funds em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. No comunicado, o banco central afirmou que a atividade econômica segue avançando em ritmo sólido, enquanto a inflação permanece elevada.

Na coletiva após a decisão, o presidente do Fed, Kevin Warsh, deixou claro que o principal incômodo está nos preços.

“O fato simples é que a inflação está alta demais e permanece assim há tempo demais”, afirmou. “Inflação é uma escolha, e hoje demos um passo para entregar estabilidade de preços”.

Segundo Warsh, as leituras recentes não foram suficientes para mostrar uma melhora significativa da tendência inflacionária. O presidente do Fed destacou ainda que diversas categorias continuam apresentando aumentos superiores a 3% nas janelas de seis e 12 meses, além de chamar atenção para a recente alta das commodities.

A avaliação ajuda a explicar a mudança de postura em relação à reunião de julho, quando o Fed optou por manter os juros. Warsh elencou três fatores que pesaram para a decisão desta quarta-feira: o fortalecimento da economia norte-americana, a persistência da inflação e a mudança no cenário geopolítico.

“A economia, de fato, ganhou força. O crescimento subjacente está mais forte”, afirmou. Sobre a inflação, acrescentou que viu “muito pouca informação” desde Jackson Hole que justificasse uma mudança em sua avaliação de que as tendências recentes dos preços ainda não eram satisfatórias.

O terceiro elemento foi a geopolítica. Segundo Warsh, “não há como ignorar os focos de tensão ao redor do mundo”, e a avaliação do Comitê sobre os possíveis desdobramentos desse cenário mudou nas últimas semanas.

Foi essa combinação que levou o Fed a concluir que o critério estabelecido por Warsh em Jackson Hole ainda não havia sido cumprido. Na ocasião, ele afirmou que seria necessário ter confiança de que a inflação subjacente estivesse caminhando claramente e em velocidade suficiente para a meta de 2%.

“Hoje, o Fomc decidiu que esse padrão não foi atendido”, disse.

Economia mais forte dá espaço ao Fed

Se a inflação preocupa, o outro lado da economia norte-americana tem dado mais conforto para o banco central apertar a política monetária.

Warsh afirmou que contratações, rendimentos do setor privado e investimentos de capital das empresas melhoraram nos últimos meses. O fluxo de crédito também permanece robusto, especialmente para as empresas.

“Seria difícil para mim descrever as condições financeiras de forma ampla como restritivas”, afirmou. Segundo ele, essa percepção foi amplamente compartilhada pelos demais integrantes do Fomc.

Por isso, Warsh classificou a alta de hoje como a retirada de “uma dose de acomodação” da política monetária, em vez de caracterizar os juros como claramente restritivos.

As novas projeções divulgadas pelo Fed reforçaram a leitura de uma economia mais resistente. A mediana das estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 passou de 2,2%, em junho, para 2,3%. Para 2027, avançou de 2,3% para 2,4%. Já a projeção para a taxa de desemprego neste ano caiu de 4,3% para 4,1%.

“O desemprego está basicamente rodando em um nível consistente com o pleno emprego”, afirmou Warsh.

Nesse cenário, o presidente do Fed argumentou que o banco central pode concentrar seus esforços no outro lado de seu duplo mandato, a estabilidade de preços.

“Não acredito que precisemos prejudicar o mercado de trabalho para alcançar nosso objetivo”, disse. “Não acredito que os dois lados do nosso mandato, estabilidade de preços e pleno emprego, estejam trabalhando um contra o outro no médio prazo.”

Apesar do tom mais duro contra a inflação, Warsh evitou indicar se a decisão desta quarta-feira abre caminho para uma sequência de altas.

“Eu não sou adepto de forward guidance“, afirmou. “Não vou antecipar nenhuma decisão que possamos tomar no futuro.”

O presidente do Fed também reforçou sua resistência a reagir excessivamente a indicadores isolados. “As tendências importam. Dados isolados são ruidosos”, disse.

Warsh também chamou atenção para o fato de que as pressões inflacionárias não estão restritas aos Estados Unidos. Segundo ele, conversas recentes com representantes de outros bancos centrais mostraram que diferentes economias também enfrentam dificuldades com a alta dos preços.

“O que ouvi da maioria dos representantes das economias desenvolvidas ao redor da mesa é que eles também estão enfrentando pressões sobre os preços e estão tomando suas próprias decisões de acordo com seus respectivos mandatos”, afirmou.

Warsh citou encontros recentes com autoridades monetárias em Jackson Hole, na reunião do G20 sediada pelos Estados Unidos e em uma conferência de bancos centrais. Para ele, esse cenário também evidencia como as decisões de política monetária tomadas nas maiores economias ultrapassam suas próprias fronteiras.

“Quando o Federal Reserve toma uma decisão de política monetária, ela importa não apenas para a economia dos Estados Unidos, mas também produz efeitos sobre o restante do mundo”, disse.

O movimento também ocorre na direção contrária, embora, segundo Warsh, em menor intensidade. Quando outros bancos centrais elevam os juros para responder à inflação, essas decisões ajudam a conter as pressões de preços domésticas, mas também geram efeitos sobre outras economias.

“Existem efeitos de transmissão e de retorno em ambas as direções”, afirmou.

Ainda assim, Warsh evitou antecipar ou avaliar quais serão os próximos passos de seus pares. “Não peço a eles que antecipem as decisões que nós vamos tomar, então também não vou antecipar as decisões que eles tomarão”, disse.

Independência do Fed e Trump

Warsh também foi questionado sobre a independência do Federal Reserve diante das pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem defendendo juros mais baixos.

O presidente do Fed, porém, evitou entrar em detalhes sobre suas conversas com Trump. “Não tenho nada a dizer sobre minhas conversas com o presidente”, respondeu prontamente.

Em outro momento, ao ser novamente pressionado sobre a relação com o governo e possíveis ameaças à independência do banco central, Warsh reforçou que o Fed deve se limitar às atribuições estabelecidas pelo Congresso.

“Parte da independência do Federal Reserve significa permanecermos dentro da nossa área de atuação. A independência é uma via de mão dupla”, afirmou.

Segundo Warsh, questões relacionadas às políticas comercial e fiscal devem ficar sob responsabilidade das autoridades encarregadas dessas áreas.

“Deixaremos as pessoas responsáveis pela política comercial e pela política fiscal permanecerem em suas respectivas áreas”, disse.

Ao mesmo tempo, Warsh rejeitou a ideia de que a alta desta quarta-feira tenha sido conduzida pelos mercados, que já precificavam amplamente o aumento dos juros antes da decisão.

“Às vezes, o mercado tenta antecipar nossas decisões. Eu observo os preços de mercado e vejo o que eles têm a dizer, mas a decisão de hoje foi nossa”, afirmou.

AutorJuliana Caveiro
FonteMoney Times
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