Inflação nos EUA pode pressionar Fed e derrubar ações e títulos, alerta Gavekal
Alta dos preços da energia pode ser temporária, mas investimentos em inteligência artificial e aquecimento do mercado de trabalho ameaçam prolongar as pressões inflacionárias, diz análise

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A inflação nos Estados Unidos acelerou a 3,7% em setembro, ante 3,4% em agosto, e ampliou as dúvidas sobre os próximos passos do Federal Reserve, o banco central americano. Segundo a consultoria Gavekal, energia, investimentos em inteligência artificial e uma possível recuperação do mercado de trabalho podem tornar a alta dos preços persistente.
A inflação nos Estados Unidos acelerou em setembro, reforçando as preocupações sobre a trajetória dos preços e sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. O índice de preços ao consumidor subiu 3,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, contra 3,4% em agosto. Segundo uma análise da consultoria Gavekal, a alta era esperada devido ao encarecimento da energia, mas o principal risco para investidores e autoridades monetárias reside na possibilidade de que essas pressões se espalhem para outros setores da economia.
A trajetória da inflação dependerá, em grande medida, da evolução dos conflitos geopolíticos e dos preços da energia. No entanto, a Gavekal avalia que o comportamento das expectativas inflacionárias de longo prazo será decisivo para determinar se a aceleração atual representa um episódio passageiro ou o início de um período prolongado de preços elevados. Nesse contexto, a consultoria identifica dois cenários possíveis.
No primeiro, a inflação continua subindo nos próximos meses, mas as expectativas de longo prazo permanecem controladas. Esse é o quadro observado atualmente e, segundo a análise, pode persistir enquanto a pressão estiver concentrada nos custos de energia e os mercados mantiverem a confiança no compromisso do Fed com sua meta de inflação.
Nesse cenário, eventuais acordos de paz, ajustes nas cadeias de suprimentos e mudanças na demanda poderiam reduzir as pressões sobre os preços. A Gavekal também destaca que os custos reais do financiamento nos Estados Unidos aumentaram de forma generalizada em 2026, elevando o risco de uma desaceleração econômica.
Caso os preços da energia recuem ou o crescimento econômico perca força, a inflação poderá desacelerar sem comprometer as expectativas de longo prazo. Esse desfecho seria relativamente favorável aos mercados financeiros, pois reduziria a necessidade de uma resposta mais dura por parte do banco central. A ampliação dos chamados spreads de crédito — diferença entre os juros pagos por empresas mais arriscadas e os rendimentos de títulos considerados seguros — de empresas americanas de alto rendimento e a queda de 15% nas ações da CoreWeave em um único pregão são apontadas pela consultoria como sinais de tensões financeiras crescentes.
O segundo cenário, mais preocupante, prevê que a alta dos preços se torne disseminada e persistente, levando investidores e consumidores a esperar uma inflação mais elevada no futuro. A Gavekal aponta dois fatores que podem contribuir para esse movimento: o crescimento dos investimentos em inteligência artificial (IA) e uma eventual retomada do aquecimento do mercado de trabalho americano.
Investimentos em IA e salários entram no radar da inflação
Data center do Google: instalações podem se tornar indicadores econômicos (Google/Reprodução)
Embora haja preocupações com empresas de infraestrutura de computação em nuvem altamente endividadas, grandes companhias como Microsoft e Alphabet ainda dispõem de capacidade financeira para ampliar seus investimentos.
A continuidade desses gastos pode intensificar a concorrência por recursos escassos, pressionando os preços de bens e serviços relacionados à construção e à operação de infraestrutura tecnológica.
A valorização das ações ligadas à inteligência artificial também pode contribuir para a inflação por meio do chamado efeito riqueza: investidores que se beneficiam da alta dos ativos tendem a ter maior capacidade de consumo, o que sustenta a demanda. Além disso, uma participação maior dos bancos comerciais no financiamento de investimentos em bens de capital poderia acelerar o crescimento da oferta de moeda.
Embora os ganhos de produtividade proporcionados pela IA possam reduzir custos e exercer pressão deflacionária no longo prazo, a avaliação da Gavekal é que, no momento, os efeitos inflacionários dos investimentos podem prevalecer. A intensidade dessa pressão dependerá do ritmo de expansão dos gastos e da capacidade da economia de fornecer os recursos necessários sem gerar novos gargalos.
O mercado de trabalho é o segundo fator de risco. Por enquanto, os sinais de aquecimento são limitados: a criação de empregos permanece moderada, enquanto o crescimento dos salários médios por hora continua a desacelerar. Ainda assim, a Gavekal chama a atenção para a força dos lucros empresariais. Segundo dados das contas nacionais de renda e produto dos Estados Unidos, os lucros corporativos cresceram 20% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, muito acima da taxa mediana de 5,8% registrada nos últimos 20 anos.
Historicamente, o aumento dos lucros costuma preceder uma expansão das contratações nos Estados Unidos em cerca de seis meses, segundo a consultoria. Se essa relação se repetir, as empresas poderão ampliar o quadro de funcionários para sustentar seus negócios, apertando o mercado de trabalho e elevando a pressão sobre os salários. O aumento dos custos trabalhistas poderia, por sua vez, ser repassado aos preços de bens e serviços.
Mudança nas expectativas
Inflação nos EUA pode ultrapassar as expectativas do Fed (KTSDESIGN/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)
Uma inflação persistente poderia levar a uma mudança nas expectativas de longo prazo, como ocorreu em 2021 e 2022. A preocupação da Gavekal é que uma nova ultrapassagem expressiva da meta do Fed, em menos de uma década, convença os mercados de que uma inflação mais alta passou a ser a regra, e não uma exceção. Quando isso ocorre, consumidores, trabalhadores e empresas podem incorporar aumentos mais acentuados de preços e salários às suas decisões, o que torna mais difícil o controle da inflação.
A consultoria cita o período posterior à Segunda Guerra Mundial como exemplo de como essas expectativas podem mudar: em 1947, a inflação americana atingiu 20% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada pela escassez de oferta e pela demanda reprimida.
Apesar da disparada, as expectativas de inflação permaneceram abaixo de zero, refletindo o histórico recente de preços baixos. Quando a inflação voltou a subir, em 1950, porém, as expectativas se ajustaram rapidamente para um patamar mais elevado.
Para a Gavekal, uma mudança semelhante poderia ocorrer caso a inflação atual se mostre persistente. Nesse contexto, o Fed provavelmente precisaria reagir de forma mais agressiva para retomar o controle dos preços, o que teria repercussões nos mercados financeiros. Juros mais elevados tendem a pressionar os preços dos títulos existentes e podem reduzir a atratividade das ações, sobretudo quando o custo de financiamento aumenta.
O cenário mais benigno, no qual a inflação sobe temporariamente sem contaminar as expectativas de longo prazo, continua possível. Mas, caso os investimentos em inteligência artificial e a recuperação do mercado de trabalho intensifiquem as pressões sobre os preços, o risco de uma espiral entre salários e inflação poderá obrigar o banco central americano a endurecer a política monetária, afetando tanto o mercado de renda fixa quanto o de ações.
