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Mundo
17/10/2026
7 min

Inflação, rixas internas e tarifas de Trump ameaçam republicanos nas midterms

Alta dos preços, perda de poder de compra e rejeição às tarifas levam candidatos do partido a se distanciarem do presidente, permitindo que democratas ampliem vantagem entre eleitores independentes e indecisos

Inflação, rixas internas e tarifas de Trump ameaçam republicanos nas midterms
RESUMO +

Às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para o início de novembro, a inflação e o custo de vida pressionam o Partido Republicano, segundo o jornal Financial Times. A inflação anual subiu para 3,7% em setembro, enquanto republicanos em disputas competitivas passaram a criticar as tarifas comerciais de Donald Trump.

A inflação e o aumento do custo de vida se consolidam como pontos vulneráveis para o Partido Republicano às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para o início de novembro, apura o Financial Times (FT).

Com a popularidade de Donald Trump em queda e os democratas tentando recuperar o controle do Congresso, candidatos republicanos em disputas competitivas passaram a criticar uma das principais marcas da política econômica do presidente: a imposição de tarifas comerciais a parceiros estrangeiros.

Em setembro, a inflação anual americana subiu para 3,7%, ante 3,4% em agosto, segundo dados divulgados pelo governo dos Estados Unidos e citados pelo Financial Times. O resultado superou a expectativa de 3,6% dos economistas consultados pela Bloomberg e marcou a primeira aceleração do indicador desde maio.

Tarifas, inflação e custo de vida

Posto de Gasolina nos EUA

Preços da gasolina nos EUA atingiram maior alta em uma década como decorrência da guerra no Irã, e não param de subir (FREDERIC J. BROWN/AFP/Getty Images)

A pressão sobre os preços decorre de diferentes fatores, entre eles a alta dos preços dos combustíveis, provocada pela guerra no Irã, e os efeitos das tarifas sobre os custos de importação.

Embora o choque energético tenha contribuído diretamente para a recente aceleração da inflação, a política comercial de Trump também se tornou motivo de preocupação para consumidores e empresas. Economistas apontam que as tarifas encarecem produtos importados e insumos utilizados pela indústria americana, custos que podem ser repassados aos preços finais e refletidos no custo de vida dos americanos.

A combinação desses fatores dificulta, ademais, a recuperação do poder de compra e ameaça o discurso republicano segundo o qual as medidas protecionistas beneficiariam trabalhadores e empresas dos Estados Unidos. Além disso, o preço histórico dos combustíveis no país também mina uma tradição do Partido Republicano, que leva orgulho, em particular, de manter os preços da gasolina baixos.

O aperto é especialmente preocupante para os americanos de baixa renda. Os salários por hora avançaram 3% em setembro na comparação anual, mas o crescimento real dos rendimentos — descontada a inflação — perdeu força pelo sexto mês consecutivo. Ao mesmo tempo, a perspectiva de novos aumentos nos preços dos alimentos reacende um problema politicamente sensível para Trump: a percepção de que produtos e despesas essenciais estão cada vez mais caros.

O cenário oferece aos democratas um argumento para responsabilizar o presidente pelas dificuldades econômicas. Trump tem tentado mitigar os efeitos da guerra no Irã sobre os preços dos combustíveis, mas a oposição explora a insatisfação com o custo de vida para conquistar votos e retomar o controle do Congresso. Em pesquisas sobre as midterms, os republicanos aparecem, em média, oito pontos percentuais atrás dos democratas, segundo dados citados pelo Financial Times.

A insatisfação também aparece entre eleitores que não se identificam com nenhum dos dois partidos. Pesquisa do FT, em parceria com a Focaldata, indica que, entre os chamados independentes convictos — eleitores registrados que não demonstram preferência por democratas ou republicanos —, 22% pretendem votar em candidatos democratas à Câmara dos Representantes, contra 8% que apoiam republicanos.

Em agosto, a mesma pesquisa mostrava uma diferença menor: 17% dos independentes favoreciam os democratas, enquanto 12% favoreciam os republicanos. Embora esse grupo represente pouco mais de 10% dos eleitores registrados e mais de um quarto ainda pretenda não votar, a mudança pode ser decisiva em distritos onde as disputas são apertadas.

A avaliação negativa de Trump ajuda a explicar o movimento. Em outubro, 73% dos independentes disseram desaprovar o desempenho geral, contra 59% em agosto. A rejeição é ainda maior quando o assunto é a economia: 82% desaprovam a condução econômica do presidente e 76% avaliam negativamente a situação econômica do país. Além disso, 55% acreditam que Trump dificulta a eleição de candidatos republicanos ao Congresso, contra apenas 7% que acreditam que ele os ajuda.

Republicanos se afastam das tarifas

Nos EUA, republicanos se distanciam das políticas de Trump para ter maior chance nas midterms (TIMOTHY A. CLARY /AFP)

Diante do desgaste, candidatos republicanos em estados competitivos começaram a se distanciar das tarifas, mesmo após terem apoiado a política comercial do presidente. A mudança é particularmente visível em Michigan, um importante "swing state" — um estado que não é tradicionalmente democrata nem republicano, mas que muda de partido a cada eleição — onde a integração econômica com o Canadá torna o setor automotivo vulnerável às barreiras comerciais.

Mike Rogers, candidato republicano ao Senado pelo estado, passou a defender o fim da guerra tarifária com o país vizinho. Em uma propaganda eleitoral, afirmou que os moradores de Michigan não consideram o Canadá um inimigo e pediu o fim das tarifas. Em 2025, porém, o próprio Rogers havia elogiado as medidas de Trump, afirmando que as colocariam os americanos em posição de vantagem.

A mudança foi explorada por seu adversário democrata, Abdul El-Sayed, que o acusou de mudar de posição por conveniência eleitoral. A disputa ocorre em meio à escalada das tensões comerciais com o Canadá, segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Trump voltou a criticar o país durante um comício no Alasca e ameaçou impor uma tarifa de 50% sobre o setor automotivo canadense no próximo ano.

Em New Hampshire, outro swing state, o republicano John Sununu também defendeu a revisão da política comercial, argumentando que o Congresso precisa recuperar parte de sua autoridade para impor tarifas. Durante um debate eleitoral, pediu a eliminação das taxas sobre materiais de construção, sob o argumento de que elas encarecem as obras e pressionam o custo de vida. Seu adversário democrata, Chris Pappas, respondeu que Sununu já havia elogiado as tarifas.

Já no estado do Maine, a senadora republicana Susan Collins, que disputa a reeleição em um estado que apoiou Joe Biden em 2020 e Kamala Harris em 2024, também enfatizou sua oposição às tarifas canadenses. Segundo ela, a profunda integração entre as duas economias torna os efeitos das medidas especialmente preocupantes.

A resistência não se limita aos estados próximos à fronteira. Até mesmo senadores republicanos de estados historicamente vermelhos no sul do país criticaram as tarifas: Ted Cruz, do Texas, as classificou como um imposto sobre os consumidores americanos, enquanto Rand Paul, do Kentucky, afirmou que os custos recaem sobre famílias, estudantes e qualquer pessoa que precise comprar produtos sujeitos a essas tarifas.

No Colorado, o deputado republicano Jeff Hurd relatou ter votado contra as tarifas impostas ao Canadá após ouvir reclamações de agricultores e pecuaristas prejudicados por essas medidas. A decisão provocou um ataque público de Trump e a retirada temporária de seu apoio ao parlamentar.

Apesar das divergências dentro do partido, a Casa Branca sustenta que estados industriais e agrícolas foram prejudicados por práticas comerciais estrangeiras e defende que as tarifas protegem trabalhadores, agricultores e empresas americanas.

O problema para os republicanos é que a defesa das barreiras comerciais se torna mais difícil quando os eleitores associam a política econômica a preços elevados e à perda de poder de compra. Segundo Kevin Madden, estrategista republicano ouvido pelo Financial Times, candidatos do partido estão mais dispostos a divergir da Casa Branca do que estavam um ano antes, em um movimento motivado pela necessidade de sobrevivência política.

Com a inflação pressionada, os salários reais perdendo força e a insatisfação com Trump crescendo entre os independentes, as eleições de novembro devem servir de teste para a política econômica do presidente. Para os republicanos, o desafio será defender as tarifas como instrumento de proteção à economia americana sem assumir integralmente o desgaste provocado pelo custo de vida — justamente uma das questões mais capazes de influenciar o voto.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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