Influenciadora faz de receita da infância um negócio com venda a cada 15 segundos e abre quarta loja
Criada por Marcella Tranchesi, a Doce Aquarella superou 500 mil pedidos de bolos; marca tem recompra acima de 50%

RESUMO +
A marca de bolos Doce Aquarella, criada pela influenciadora Marcella Tranchesi, abrirá seu quarto ponto físico nesta quarta-feira, 4 de novembro, no MorumbiShopping, em São Paulo. Fundada em agosto de 2024, a empresa superou 500 mil pedidos, opera 24 horas e oferece entregas que podem chegar a dez minutos.
Uma fatia ou um bolo inteiro a cada 15 segundos. Esse é o ritmo médio de vendas da Doce Aquarella, marca criada pela influenciadora Marcella Tranchesi em agosto de 2024. Em pouco mais de dois anos, o negócio ultrapassou 500 mil pedidos e passou de uma produção no contraturno de uma padaria para uma operação que funciona 24 horas por dia, com quase 100 funcionários.
O próximo endereço abre nesta quarta-feira, 4 de novembro, no MorumbiShopping, da Multiplan, em São Paulo. Será o quarto ponto físico de uma empresa que ganhou escala pelo delivery, com bolos prontos para atender à vontade de comer doce sem depender de encomenda.
“Eu acredito no desejo imediato”, diz Tranchesi. A lógica vale tanto para a fatia comprada depois do almoço quanto para o bolo de aniversário esquecido na última hora. Com distribuição pelo Rappi, a marca oferece entregas que podem chegar em dez minutos, conforme a região atendida.
Mais da metade dos consumidores volta a comprar e o faturamento mensal mais do que dobrou desde dezembro de 2025. Agora, apenas a capacidade da cozinha limita a velocidade com que a Doce Aquarella consegue chegar a novos mercados.
Como uma influenciadora de moda foi parar no negócio de bolos
Antes de vender doces, Tranchesi já acompanhava o efeito de suas publicações sobre o consumo. Sabia quantos sapatos, batons e outros produtos ajudava a vender em campanhas. Não tinha referência para calcular quantos bolos seus seguidores comprariam.
Formada em publicidade pela ESPM, ela estagiou na agência Africa enquanto cursava a faculdade. Começou a produzir conteúdo quando o mercado de influência ainda estruturava sua relação comercial com as marcas, passando das permutas aos contratos de publicidade.
Moda, beleza, estilo de vida e culinária dividiam espaço em suas redes. Os dois primeiros temas ganharam mais campanhas, enquanto as receitas permaneceram como conteúdo que ela gostava de produzir, incluindo preparos para o Natal e outras datas comemorativas.
A relação com o varejo vinha de casa. Marcella é filha de Eliana Tranchesi, empresária que comandou a Daslu, referência do comércio de luxo brasileiro. A loja havia sido fundada por sua avó, Lúcia Piva, e Lourdes Aranha. Desde pequena, acompanhava conversas sobre moda e negócios, mas também gostava de procurar receitas e preparar sobremesas para os almoços e jantares da família.
“Eu tinha a ideia de empreender em algum ramo, mas imaginava que seria um ramo mais focado no que eu trabalhava comercialmente”, afirma Tranchesi.
O caminho para os bolos ganhou força em 2020. Com a suspensão inicial de campanhas de marcas com influenciadores na pandemia, ela retomou receitas que já havia publicado, comprou tripés e passou a filmar e editar os vídeos sozinha. Os conteúdos viralizaram, acompanhados de pedidos para que começasse a vender os doces.
A princípio, tratou as mensagens como brincadeira. Com a retomada dos encontros presenciais, continuou levando bolos de presente para amigas, que publicavam as fotos. Os pedidos de seguidores persistiram entre 2021 e 2022. A repetição ajudou a transformar a ideia em um projeto de empresa.
Marcella Tranchesi fazendo bolo na infância: a brincadeira na cozinha virou uma empresa que vende uma fatia ou um bolo a cada 15 segundos (Marcella Tranchesi/Arquivo Pessoal)
Como a empresa começou a produzir para uma demanda que não conhecia
A primeira estrutura funcionava no contraturno de uma padaria. Sem histórico de vendas, Tranchesi preferiu começar com uma operação menor a fazer um investimento elevado antes de testar o negócio.
No lançamento, foram 178 pedidos em três minutos. A procura superou a capacidade disponível, o estoque esgotava e a loja precisava interromper as vendas. Em menos de três meses, a marca se aproximou de 20 mil pedidos.
O sucesso inicial trouxe uma dificuldade: separar o efeito de um lançamento viral da demanda que permaneceria depois. Também havia uma diferença em relação aos produtos que a influenciadora costumava divulgar. Bolo é perecível e exige decisões diárias de produção.
A empresa comprou equipamentos, treinou a equipe e ampliou a estrutura por etapas. Tranchesi recebeu sugestões para terceirizar rapidamente a fabricação, mas preferiu controlar o crescimento para preservar o produto.
“A gente não consegue entender num lançamento viral qual é a demanda real”, afirma.
Hoje, a recompra ajuda a medir a continuidade dessa procura. Cada cliente faz, em média, quatro pedidos, e os 10% mais recorrentes chegam a comprar oito vezes no mesmo mês. A taxa de recompra, que estava em cerca de 40% nos primeiros meses, passou de 50%.
Como um bolo chega ao cliente em 10 minutos
A produção está concentrada em uma cozinha central, que abastece diariamente 20 pontos de distribuição. Essa rede aproxima os produtos dos consumidores e sustenta a entrega rápida pelo Rappi Turbo.
A operação da cozinha funciona em três turnos. Enquanto uma leva está no forno, outras passam pelo resfriamento, recebem cobertura ou seguem para distribuição. A cobertura do delivery alcança bairros de São Paulo, Alphaville, Osasco, parte do ABC paulista e Campinas.
A entrega em 10 minutos não estava disponível no lançamento. A marca começou no formato convencional de restaurante do aplicativo e estruturou a entrada no Turbo ao longo dos meses seguintes, enquanto aumentava sua capacidade de produção.
Tranchesi também descartou começar exclusivamente por encomendas, embora esse formato permitisse saber antecipadamente quanto precisava fabricar. Queria atender a uma compra menos planejada, com fatias individuais e bolos inteiros disponíveis ao longo do dia e da madrugada.
“O propósito mesmo de produto é parecer feito em casa, mas você só apertou um botão”, diz.
Quanto custam os bolos e como os sabores são escolhidos
No delivery, as fatias custam aproximadamente de R$ 20 a R$ 25. Os bolos inteiros partem de R$ 149 e chegam a R$ 179,90, conforme o sabor e o ponto de distribuição consultado no Rappi.
O cardápio reúne receitas como chocolate com brigadeiro, cenoura com brigadeiro e iogurte com diferentes coberturas. Há ainda red velvet com brigadeiro feito com leite Ninho e chocolate com brigadeiro de caramelo salgado, além de edições temporárias.
Os lançamentos servem para testar a procura e renovar a oferta. O red velvet, apresentado inicialmente como um bolo natalino, voltou e passou a integrar o cardápio regular após os pedidos dos clientes. O mesmo movimento ocorreu com outros sabores.
A marca também desenvolveu ações com marcas como Carolina Herrera, Dermage, Leite Moça e Nesquik. Para a Carolina Herrera, criou em maio um bolo exclusivo para um café temporário na Avenida Faria Lima.
A produção disponível impõe um limite a esse calendário. A empresa controla os lançamentos para evitar que a demanda ultrapasse o que a cozinha consegue entregar.
Por que a Doce Aquarella está apostando em pontos físicos
A presença física começou em dezembro de 2025, com operações no Shopping Cidade Jardim e no CJ Shops Jardins, ambos da JHSF. Em agosto deste ano, a Doce Aquarella chegou ao Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista. O MorumbiShopping será o quarto endereço.
A expansão usa "food bikes", estruturas compactas de venda que permitem instalar a marca em pontos de circulação de consumidores. No CJ Shops Jardins, a empresa mudou recentemente de posição e começou a adaptar a operação para um formato de balcão, com ampliação dos serviços.
Os pontos atendem tanto quem quer consumir uma fatia durante o passeio quanto quem leva um bolo inteiro para casa. Também apresentam a marca a pessoas que não acompanham a fundadora nas redes sociais ou ainda não compraram pelo aplicativo.
“A gente está aprendendo muito com esse mundo físico”, diz Tranchesi.
A passagem para os shoppingsacompanha uma revisão da identidade visual, assinada pela Smart Design. A mudança inclui logotipo, embalagens, pratos e apresentação das caldas. Lella, cachorrinha da influenciadora que já aparecia nas caixas para diferenciar os sabores, passou a ocupar o logotipo.
Na avaliação de Tranchesi, a tipografia anterior perdia legibilidade quando aplicada em materiais de eventos. A nova identidade procura facilitar a leitura e dar mais espaço à personagem que os clientes já associavam à marca.
O que limita a próxima etapa de expansão
A Doce Aquarella prepara uma mudança para uma cozinha maior. A estrutura atual já passou por ampliações, mas ainda limita a entrada em novas regiões e o volume de lançamentos.
Tranchesi tem recebido convites para levar a marca a outros mercados, mas condiciona os próximos passos à capacidade de abastecer as operações.
“A gente poderia ter crescido mais rápido, poderia ter atendido mais rápido a demanda”, afirma Tranchesi. “Mas eu acho que a joia da Doce Aquarella é exatamente ter se mantido fiel ao produto.”
