Inhotim chega aos 20 anos com receita de R$ 99 milhões e nova estratégia para crescer
Com 365 mil visitantes em 2025, o espaço cultural de Brumadinho (MG) quer chegar a 500 mil por ano até 2030, enquanto amplia receitas próprias e estrutura um endowment de R$ 100 milhões

Em 2004, o empresário e colecionador Bernardo Paz começou a construir pavilhões em sua fazenda em Brumadinho, em Minas Gerais, para abrigar obras monumentais de arte contemporânea. Dois anos depois, abriu o espaço ao público. O que começou como uma coleção privada se transformou, ao longo de duas décadas, em uma das instituições culturais mais conhecidas do país, com 140 hectares, obras de arte espalhadas pelos jardins e uma coleção botânica de mais de 1.500 espécies catalogadas.
Agora, no ano em que completa duas décadas, o Instituto Inhotim vive uma transformação menos visível, mas fundamental para seu futuro: a mudança na forma de administrar o patrimônio e financiar a operação.
Em 2025, a receita líquida chegou a R$ 99,6 milhões, alta de R$ 15 milhões sobre o ano anterior. O resultado é acompanhado por uma estratégia de profissionalização iniciada em 2022, quando Paz fez a doação definitiva ao instituto das obras, edificações, equipamentos, coleção botânica e dos 140 hectares que compõem a área de visitação.
A mudança tirou o Inhotim da órbita de uma coleção privada e colocou no centro da estratégia uma pergunta típica de organizações que precisam sobreviver a seus fundadores: como construir uma instituição capaz de se sustentar no longo prazo?
“Esse é o meu foco principal como gestora, é aumentar a receita e diminuir gastos, diminuir custos”, afirma Paula Azevedo, diretora-presidente do Instituto Inhotim.
O desafio é particularmente complexo porque o Inhotim não é apenas um museu. A instituição combina arte contemporânea, jardim botânico, educação, pesquisa e conservação ambiental. Em 2025, recebeu 365 mil visitantes, manteve 902 obras em exibição e tinha 56 artistas com trabalhos expostos.
Arte e natureza em 140 hectares: Inhotim combina obras contemporâneas, jardins e experiência ao ar livre em Brumadinho (Instituto Inhotim/Divulgação)
Quais foram as mudanças na gestão desde 2022
A mudança começou a ser desenhada durante a pandemia. O Inhotim ficou oito meses fechado em 2020, enquanto Paz passou a se preocupar com o futuro da instituição e com a necessidade de reduzir sua dependência de recursos próprios. Em 2021, chamou Paula Azevedo e Lucas Pessoa, então executivos de outras instituições culturais, para desenhar um projeto de institucionalização. O trabalho começou efetivamente em janeiro de 2022.
A primeira mudança foi patrimonial. Em junho de 2022, Paz transferiu definitivamente para o instituto aquilo que fazia parte do Inhotim. No mesmo momento, foi formado um novo Conselho Deliberativo, inicialmente com 20 integrantes. Um ano depois, o número chegou a 30 conselheiros, representantes de sete estados brasileiros.
A ideia era criar uma estrutura em que as decisões deixassem de depender de uma única figura. Hoje, seis diretores se reportam diretamente a Paula, em áreas como arte, educação e território, finanças, relações institucionais, infraestrutura e natureza e governança, riscos e compliance.
Em 2024, o instituto revisou sua missão, visão e valores. Em 2025, estruturou, com apoio pro bono da Bain & Company, a chamada Ambição 2030, um planejamento estratégico que estabelece metas para visitação, programação, infraestrutura e sustentabilidade financeira.
O movimento também levou indicadores, metas e gestão de riscos para o cotidiano da instituição. O relatório de sustentabilidade afirma que a parceria com a Falconi ajudou a construir indicadores transversais e uma metodologia de acompanhamento dos resultados.
De onde vem o dinheiro
Apesar do crescimento da receita, o Inhotim ainda depende de uma combinação de fontes para funcionar. Em 2025, o instituto captou R$ 72,1 milhões especificamente por meio de patrocinadores, parceiros e doações. Desse montante, R$ 69,2 milhões vieram de pessoas jurídicas e R$ 2,9 milhões de pessoas físicas.
As leis de incentivo continuam tendo peso importante. Mais de 60% da receita, segundo Paula, vem da Lei Rouanet, enquanto o restante inclui aportes de verba livre. No relatório, a instituição informa que entre 50% e 60% do orçamento é viabilizado por leis de incentivo.
A lógica explica por que aumentar receita própria virou uma prioridade. A bilheteria, sozinha, não sustenta a operação. Segundo Paula, cerca de 20% da receita vem de receitas operacionais, que incluem não apenas ingressos, mas também eventos, loja e outras atividades. Doações de patronos, Amigos do Inhotim e da sociedade respondem por cerca de 5%.
Há ainda um problema específico do modelo. Recursos captados por meio da Lei Rouanet podem financiar determinadas atividades culturais e educacionais, mas não necessariamente cobrem despesas relacionadas ao jardim botânico, à pesquisa e a outras estruturas permanentes.
“Então eu preciso gerar receitas de outra forma para cuidar da nossa coleção botânica e do nosso jardim”, diz Paula.
Um museu fora do padrão: espaço recebeu 365 mil visitantes em 2025 e mira 500 mil por ano até 2030 (Instituto Inhotim/Divulgação)
Onde estão as novas receitas
A estratégia de diversificação já chegou à operação cotidiana do espaço.
Em 2026, o Inhotim reformulou sua estrutura de alimentos e bebidas, com oito pontos de alimentação. O Grupo Capim Santo passou a operar três deles, incluindo o restaurante Oiticica, o Café das Flores e a gastronomia de eventos.
Outra aposta foi recuperar o movimento em dias gratuitos. O instituto reabriu um ponto na chamada Igrejinha, com pratos a cerca de R$ 29. Segundo Paula, o espaço se tornou um dos mais movimentados do Inhotim.
O estacionamento também passou a ser cobrado, a R$ 35 por diária, com desconto de 50% nos dias de gratuidade. A medida combina geração de receita com a tentativa de melhorar a experiência do visitante, segundo a presidente.
A loja é outro exemplo mais direto de como uma operação cultural pode ganhar uma frente comercial. Mais um exemplo: quando a atual gestão chegou, em 2022, a loja faturava R$ 2,5 milhões. Para 2026, a previsão é chegar a R$ 8 milhões em vendas, mais que o triplo em quatro anos.
O instituto também tenta reduzir o risco de depender de poucos patrocinadores. Em 2025, tinha 26 patrocinadores, 19 parceiros institucionais, 22 parceiros de mídia e 15 hotéis parceiros, além de 454 Amigos do Inhotim e 46 Patronos.
Entre os contratos plurianuais estão acordos com Vale, Nubank, Shell e Grupo Ultra. A parceria com a Vale, firmada em 2023, prevê R$ 400 milhões em dez anos, metade via Lei Rouanet e metade em verba livre.
O contrato, porém, tem prazo para terminar: dezembro de 2032. Por isso, a gestão já trabalha para criar uma reserva de segurança capaz de proteger o instituto de períodos de queda de receita.
Quanto custa manter o Inhotim de pé
O planejamento estratégico estabeleceu um conceito simples para dimensionar esse risco. O chamado orçamento basal é de cerca de R$ 50 milhões por ano. É o valor estimado para manter o espaço funcionando, sem considerar grandes investimentos em programação.
A meta é chegar a 2030 com uma reserva equivalente a um ano desse orçamento basal. “O que o Inhotim precisa ter em caixa para uma dor de barriga? Um ano basal, um ano basal, R$ 50 milhões”, afirma Paula.
Em paralelo, o instituto criou um fundo patrimonial. A estrutura foi aprovada pelo conselho em abril de 2026 e está em fase inicial de captação. A ambição é acumular R$ 100 milhões ao longo dos anos. O mecanismo foi desenhado para preservar o principal e utilizar os rendimentos das aplicações para apoiar a manutenção da instituição.
A captação terá quatro etapas. Primeiro, entre os próprios conselheiros, com uma meta superior a R$ 10 milhões. Depois, entre patronos, Amigos do Inhotim e ex-conselheiros. A terceira etapa mira grandes fortunas e apoiadores brasileiros de cultura, natureza e educação. Por fim, a instituição pretende buscar recursos no exterior.
Até onde o Inhotim pode crescer
A busca por sustentabilidade financeira não significa transformar o Inhotim em uma atração de massa. Há um limite físico para o número de pessoas que o espaço consegue receber.
Hoje, o instituto pode chegar a 5 mil visitantes em um único dia. Às quartas-feiras, quando a entrada é gratuita, a média fica entre 3,5 mil e 4 mil pessoas.
Ainda assim, há espaço para crescer. A meta estabelecida na Ambição 2030 é alcançar 500 mil visitantes por ano. Em 2026, segundo Paula, a visitação vinha crescendo cerca de 10% ao mês em relação ao ano anterior. Em agosto, o Inhotim atingiu a marca de 5 milhões de visitantes desde sua abertura.
A expansão, portanto, é menos uma questão de colocar mais gente dentro dos jardins e mais de fazer com que a estrutura existente gere mais valor.
É essa lógica que resume a transformação em curso. O Inhotim continua sendo um museu, um jardim botânico e um espaço de educação e pesquisa. Mas, aos 20 anos, passou a tratar também como prioridade a pergunta sobre como financiar tudo isso por muitas décadas.
Para Paula, que chegou ao Inhotim depois de passagens pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, pelo Instituto de Arte Contemporânea e pelo Instituto Tomie Ohtake, a missão é justamente fazer essa transição sobreviver à geração que construiu o espaço.
“Eu acho que isso para mim foi o maior desafio e segue sendo: além da sustentabilidade, criar meios para esse Instituto sobreviver a todos nós”, afirma.
A mudança, nesse sentido, não é apenas financeira. É uma tentativa de transformar um projeto criado por um colecionador em uma instituição capaz de atravessar gerações.
