‘Inspira bastante cuidado’: Suinocultura terá alívio no fim do ano, mas El Niño preocupa para 2027
A suinocultura brasileira deve encontrar algum alívio com o fortalecimento do consumo no fim do ano e com exportações aquecidas, mas ainda enfrenta um cenário delicado diante do excesso de oferta no mercado doméstico. Para 2027, uma nova preocupação entra no radar: os possíveis impactos do El Niño sobre os custos de alimentação dos animais. […]

A suinocultura brasileira deve encontrar algum alívio com o fortalecimento do consumo no fim do ano e com exportações aquecidas, mas ainda enfrenta um cenário delicado diante do excesso de oferta no mercado doméstico. Para 2027, uma nova preocupação entra no radar: os possíveis impactos do El Niño sobre os custos de alimentação dos animais.
A avaliação é de Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado. Segundo ele, não há perspectiva de uma mudança significativa no quadro de oferta no curtíssimo prazo.
“Temos um excesso de oferta dentro do mercado suinícola brasileiro e não tem uma perspectiva de mudança no curtíssimo prazo”, afirma.
O problema está, em parte, nas características da própria atividade. A suinocultura possui um ciclo produtivo mais longo, o que dificulta uma redução rápida da produção em momentos de desequilíbrio entre oferta e demanda.
“Não é tão simples para você reduzir a produção como no caso da avicultura de corte e tem muitos investimentos que seguem em maturação”, explica Iglesias.
Na prática, isso significa que a correção da curva de produção tende a levar mais tempo. Por isso, apesar de alguns fatores positivos para o setor, o analista espera que o mercado continue desafiador nos próximos meses.
“O ajuste de produção é mais lento, demora mais para você conseguir corrigir a curva de produção e a dinâmica dentro do mercado prevê que nós teremos um ambiente complexo para os próximos meses”, diz.
Exportações ajudam a absorver oferta
Um dos principais pontos de sustentação para a suinocultura vem do mercado externo.
Segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil exportou 1,057 milhão de toneladas de carne suína entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 8,9% na comparação com as 970,3 mil toneladas embarcadas no mesmo período do ano passado.
Em receita, os embarques somaram US$ 2,447 bilhões nos oito primeiros meses do ano, avanço de 4,8% ante os US$ 2,335 bilhões registrados no mesmo intervalo de 2025.
Somente em agosto, foram exportadas 131,1 mil toneladas, alta de 8% na comparação anual. O resultado reforça a avaliação de Iglesias de que o mercado externo tem sido uma importante válvula de escape para a oferta brasileira.
“Temos uma exportação de carne suína muito, muito positiva esse ano”, afirma.
Para os próximos meses, o analista também não vê perspectiva de recuo das exportações.
Outro ponto favorável está no preço da carne bovina no mercado doméstico. Com a proteína bovina em patamares elevados, a carne suína ganha competitividade na decisão de compra do consumidor brasileiro.
“A carne bovina continua muito cara no nosso mercado interno. Então contribui muito, mas não tem uma solução de curto prazo para a suinocultura”.
Poder de compra recua
Apesar dos sinais positivos do lado da demanda, o cenário ainda exige cautela para o produtor.
Dados divulgados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) nesta quinta-feira (24) mostram que o poder de compra do suinocultor paulista frente ao milho e ao farelo de soja caminha para a terceira queda mensal consecutiva.
Na parcial de setembro, até o dia 22, a cotação média do suíno vivo recuou, enquanto os dois principais insumos utilizados na alimentação dos animais se valorizaram.
Segundo o Cepea, os preços do suíno vivo chegaram a registrar altas em boa parte do período, sustentados pela maior demanda do consumidor final pela carne suína, que elevou a procura por novos lotes de animais. Ainda assim, a queda pontual observada na primeira semana de setembro foi suficiente para pressionar a média mensal.
Pesquisadores do centro apontam, porém, certo otimismo entre os produtores diante das recentes altas do suíno vivo, inclusive na segunda quinzena do mês, período em que tradicionalmente há retração na demanda pela proteína.
Fim do ano pode trazer alívio
Esse movimento pode ganhar força com a aproximação do final do ano. Segundo Iglesias, o consumo interno caminha para seu período sazonalmente mais aquecido.
“A boa notícia também é que o consumo interno está chegando no auge e isso vai reforçar a demanda por cortes suínos, como sempre acontece no final do ano”, afirma.
A combinação entre consumo doméstico mais forte e exportações aquecidas tende, portanto, a ajudar na absorção da oferta. Ainda assim, não deve ser suficiente para corrigir rapidamente o desequilíbrio existente no mercado.
El Niño entra no radar para 2027
Se em 2026 a disponibilidade de insumos ajudou a suinocultura, o cenário para 2027 exige atenção.
Iglesias destaca que houve boa disponibilidade de milho e farelo de soja neste ano, dois componentes fundamentais da alimentação dos animais. Para o próximo ano, porém, os possíveis efeitos do El Niño sobre a produção agrícola aumentam as incertezas.
“Do ponto de vista da dieta, tivemos boa disponibilidade de milho e farelo de soja nesse ano, mas ano que vem fica mais preocupante com o El Niño que vem pela frente”, afirma.
A preocupação ganha relevância diante do movimento recente apontado pelo Cepea. Se milho e farelo de soja continuarem se valorizando em relação ao suíno vivo, as margens do produtor podem enfrentar pressão adicional.
Assim, o setor entra nos próximos meses com forças atuando em direções diferentes. De um lado, exportações aquecidas, carne bovina cara e o aumento sazonal do consumo ajudam a sustentar a demanda.
Do outro, o excesso de oferta continua exigindo um ajuste que tende a ser lento, enquanto a relação de troca com os insumos já piora e o clima adiciona uma nova fonte de incerteza para 2027.
“São pontos bem interessantes que nós temos que ponderar aqui, mas é um setor que ainda inspira bastante cuidado”, conclui Iglesias.
