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14/10/2026
6 min

Inteli vira ICT e abre frente de pesquisa em computação quântica com a IBM

Faculdade passa a atuar formalmente com pesquisa científica e tecnológica e começa projeto para testar o uso de computadores quânticos em simulações e tomada de decisão

Inteli vira ICT e abre frente de pesquisa em computação quântica com a IBM

A computação quântica ainda está longe de fazer parte da rotina de empresas e consumidores, mas já entrou no radar de universidades, institutos de pesquisa e companhias de tecnologia. A ideia é usar as regras da física que valem para átomos e partículas muito pequenas para resolver certos tipos de problema de um jeito diferente dos computadores comuns.

É nesse campo que o Inteli, Instituto de Tecnologia e Liderança, começa uma nova etapa. A faculdade, criada em 2019 e instalada na Cidade Universitária, em São Paulo, passou a atuar como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação, ou ICT. O primeiro projeto nesse formato será feito com acesso a computadores quânticos da IBM.

A mudança importa porque o novo enquadramento coloca a pesquisa científica e tecnológica entre as funções formais da instituição. Na prática, uma ICT pode desenvolver pesquisa aplicada, testar novas tecnologias e fazer projetos com empresas. O Inteli vai usar essa estrutura para estudar se computadores quânticos podem ajudar em simulações usadas na tomada de decisão.

“Os cinco anos de experiência conectando academia e mercado estão alcançando um novo patamar com a nossa transformação em ICT. Esse é um objetivo que o Inteli perseguia desde sua fundação, em 2019, e que agora se torna realidade, abrindo novas oportunidades dentro do ecossistema brasileiro de pesquisa e inovação”, afirma Maíra Habimorad, CEO do Inteli.

O plano, por enquanto, é construir e testar um programa de computador que combine recursos de máquinas comuns e quânticas. A intenção é criar um primeiro modelo funcional, que permita comparar resultados e servir de base para outros projetos em setores como indústria, saúde, agronegócio, energia e telecomunicações.

O que muda quando o Inteli vira ICT

ICT é a sigla para Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação. Pela legislação brasileira, entram nessa categoria órgãos públicos ou entidades privadas sem fins lucrativos que tenham pesquisa científica ou tecnológica entre suas funções.

Esse grupo inclui universidades, centros de pesquisa e institutos de tecnologia. Em comum, eles podem desenvolver pesquisa básica, voltada à produção de conhecimento, e pesquisa aplicada, que tenta usar esse conhecimento para resolver um problema concreto.

É nessa segunda frente que entra o projeto do Inteli com a IBM. O objetivo é testar uma forma diferente de fazer simulações de cenários incertos, como as usadas para medir risco, planejar operações ou comparar caminhos antes de uma decisão.

O projeto será feito na IBM Quantum Platform, ambiente que dá acesso a computadores quânticos e a ferramentas usadas nesse tipo de pesquisa.

O que é computação quântica

Um computador comum trabalha com bits. Cada bit assume um valor de cada vez: 0 ou 1. Computadores quânticos usam qubits, unidades de informação que seguem as regras da mecânica quântica, área da física que estuda o comportamento da matéria e da energia em escalas muito pequenas.

Isso não significa que um computador quântico seja apenas uma versão mais rápida de um computador tradicional. Ele processa alguns tipos de cálculo de outra forma.

A tecnologia chama atenção porque certos problemas envolvem tantas combinações que passam a exigir muito tempo de processamento em máquinas comuns. É o caso de alguns tipos de simulação, cálculos com muitas variáveis, estudos de moléculas e problemas de rota ou distribuição.

Mas a computação quântica ainda tem limites. Qubits são sensíveis a ruído e interferência, e erros podem aparecer durante os cálculos. Por isso, boa parte do trabalho nessa área ainda envolve testes, correção de erros e comparação com métodos já usados em computadores tradicionais.

O que o Inteli vai pesquisar

O projeto vai comparar três caminhos.

No primeiro, os cálculos serão feitos em computadores tradicionais. No segundo, a geração dos números usados nas simulações será feita em ambiente quântico. No terceiro, haverá uma combinação dos dois modelos.

O ponto central da pesquisa está nos números aleatórios usados em simulações. Sistemas tradicionais usam métodos matemáticos para gerar sequências que imitam o acaso. O Inteli quer testar se números produzidos em um ambiente quântico mudam o resultado dessas simulações.

Pesquisadores e estudantes vão comparar as três abordagens para medir precisão, estabilidade e repetição dos resultados. A pergunta é simples: mudar a origem dos números usados na simulação melhora ou não a qualidade do cálculo?

O trabalho não prevê, nesta fase, a troca de sistemas já usados por empresas. Também não deve gerar um produto pronto para venda logo de saída.

A entrega prevista é um MVP, sigla em inglês para produto mínimo viável, ou seja, uma primeira versão de um programa que funcione o suficiente para ser testado. Esse software deve ligar sistemas tradicionais à computação quântica e permitir novos experimentos.

“Queremos construir o conhecimento e as capacidades estratégicas que permitirão ao Inteli desenvolver aplicações industriais de computação quântica assim que a tecnologia atingir um nível adequado de maturidade. Ao mesmo tempo, estamos colocando a computação quântica aplicada em prática enquanto desenvolvemos expertise em tecnologias quânticas, dados, inteligência artificial e computação de alto desempenho (HPC) dentro da instituição”, explica Habimorad.

O que a IBM ganha com a parceria

Para a IBM, o projeto amplia o uso da sua plataforma de computação quântica em pesquisa aplicada no Brasil. O Inteli terá acesso a computadores quânticos da empresa, ferramentas específicas e recursos ainda em fase inicial de uso.

O valor da iniciativa para a IBM está também na formação de pessoas capazes de trabalhar com essa tecnologia e na criação de testes que possam mostrar onde a computação quântica pode ou não fazer diferença em problemas usados por empresas.

“Mais do que um projeto acadêmico, acreditamos que esta nova jornada de inovação do Inteli, apoiada pelos computadores e recursos de computação quântica da IBM, trará benefícios significativos para o desenvolvimento de competências, a experimentação e os setores estratégicos da indústria”, afirma Tonny Martins, presidente da IBM América Latina.

A parceria entre Inteli e IBM já existia antes desse projeto. Alunos da instituição participaram do desenvolvimento de quatro protótipos com tecnologias da empresa, entre eles um robô de atendimento com inteligência artificial, uma plataforma para prever resultados de partidas de futebol e uma aplicação de comando de voz baseada no IBM Watson.

Em 2026, cerca de 30 estudantes do Inteli também participam do AI Experiential Learning Lab, programa da IBM no qual universitários trabalham em problemas apresentados por parceiros da companhia e depois participam de uma feira de carreiras.

Onde essa pesquisa pode chegar

O Inteli pretende usar o primeiro projeto como base para outros testes em áreas como manufatura, saúde, agronegócio, energia e telecomunicações.

A lógica é repetir a mesma estrutura em problemas diferentes: criar uma simulação, rodar o cálculo em ambiente tradicional, em ambiente quântico e em uma combinação dos dois, e então comparar os resultados.

Por enquanto, o trabalho continua no campo da pesquisa. O uso comercial vai depender de os testes mostrarem ganho prático e de a própria computação quântica avançar em pontos como correção de erros e estabilidade dos qubits.

AutorLeo Branco
FonteExame
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