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28/09/2026
7 min

Inter adiou o ROE de 30%, mas não desistiu da meta: CEO revela qual é a prioridade agora

Em entrevista ao Seu Dinheiro, João Vitor Menin explica a estratégia para aumentar a rentabilidade sem abrir mão do crescimento

Inter adiou o ROE de 30%, mas não desistiu da meta: CEO revela qual é a prioridade agora

O Inter poderia buscar um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 30% mais rápido e atender às expectativas do mercado. Mas decidiu não seguir essa estratégia. 

Depois de adiar para 2029 uma meta que originalmente estava prevista para 2027, o banco deixou mais claro o que está por trás da escolha: não sacrificar crescimento apenas para entregar rentabilidade mais cedo. 

Em maio, ao apresentar a chamada Regra dos 50, que combina crescimento de receita e rentabilidade, o Inter também mudou a forma de comunicar ao mercado essa equação. A dúvida passou a sercomo o novo indicador se encaixaria no antigo plano 60-30-30. 

Em entrevista ao Seu Dinheiro, o CEO global do Inter, João Vitor Menin, afirma que a rentabilidade não deve ser vista como um fim em si mesmo. 

“O bacana é o equilíbrio: você pode ter um negócio bastante rentável, mas sem escala, ou um negócio com muita escala e sem rentabilidade. O sweet spot é achar a escala certa para a rentabilidade correta.” 

Com mais de 45 milhões de clientes, o Inter já construiu a escala. Agora, a aposta é fazer essa base trabalhar mais a favor dos resultados, aumentando a receita por cliente e expandindo o balanço sem perder o controle do risco. 

“Na verdade, não é uma questão de prorrogação. O 60-30-30 que lançamos em 2023 era um plano racional que mostrava que a nossa plataforma consegue atingir 30% de rentabilidade. A questão é: a que custo?”, afirma Menin. 

“A companhia tem capacidade de entregar os 30%, mas preferimos equilibrar crescimento e rentabilidade.” 

Inter não quer virar um ‘bond’ 

Essa escolha também afasta o Inter da ideia de transformar o banco em uma espécie de bond pagador de dividendos — pelo menos por enquanto. 

“O Inter não é um bond, o Inter é uma tese de crescimento”, afirmou Menin. 

Na visão do executivo, continuar reinvestindo na expansão pode gerar mais valor para acionistas e clientes no futuro do que frear a operação para antecipar a chegada aos 30% de ROE. 

“Queremos apenas atingir 30% de eficiência, ou continuar sendo uma história de growth?”, questiona. 

A defesa da estratégia vem em um momento em que o equilíbrio entre crescimento e rentabilidade é justamente um dos pontos de atenção do mercado.  

Em maio, após a divulgação da nova Regra dos 50, o JP Morgan levantou dúvidas sobre a capacidade de um banco conciliar expansão acelerada com rentabilidade — sobretudo porque crescer a carteira de crédito em momentos adversos pode vir acompanhado de mais risco. 

Por que o ROE ainda está longe dos 30%?  

Hoje, o retorno sobre o patrimônio do Inter está na casa dos 16%. Para chegar aos 20% e, posteriormente, aos 30%, a companhia aposta em uma combinação de crescimento dos ativos, maior alavancagem e ganho de eficiência. 

Menin chama atenção, porém, para outro indicador: o ROA, retorno sobre os ativos. Segundo ele, o Inter já estaria entre os cinco maiores bancos brasileiros nesse quesito. 

“O nosso ROA é maior e melhor do que o de bancos que possuem um ROE superior ao nosso. Ou seja, para a quantidade de ativos que temos, geramos um retorno excelente. Porém, como temos menos alavancagem de capital (equity), o ROE reflete isso.” 

A próxima etapa, portanto, é fazer o balanço crescer por meio de mais crédito e depósitos, aumentando a alavancagem sem perder de vista o risco. 

A grande aposta do Inter é fazer 45 milhões de clientes valerem mais 

O Inter já tem 45 milhões de clientes e responde, segundo Menin, por 9% das transações de Pix no Brasil. O desafio agora é fazer com que essa mesma base use mais produtos. 

“Como já temos 45 milhões de clientes, o maior potencial de geração de valor hoje está em trabalhar e rentabilizar a nossa própria base.” 

A ambição é levar essa presença para outros produtos. “Se atingirmos nos demais produtos o mesmo market share de 9% que temos no Pix, teremos uma alavancagem operacional enorme.” 

A lógica é a de um flywheel (volante): o cliente entra pelo Pix, passa a investir, contratar seguros, usar o cartão, abrir a conta global e tomar crédito. Quanto maior o relacionamento, maior o potencial de receita sem a necessidade de conquistar um novo cliente a cada produto. 

Mais crédito, mas com o risco amarrado 

No crédito, a estratégia também não é simplesmente crescer. O Inter pretende concentrar a expansão em modalidades com garantias, como imobiliário, consignado, recebíveis e home equity. 

A lógica é reduzir o risco para o banco e, ao mesmo tempo, oferecer uma taxa potencialmente menor ao cliente. “O cliente reduz o custo da sua dívida, nós reduzimos a inadimplência e o risco, e o retorno melhora.” 

O movimento ganha relevância justamente porque o ambiente de crédito continua sendo um dos pontos de atenção para os bancos brasileiros. A inadimplência do sistema financeiro atingiu o maior nível em mais de 15 anos, com pressão especialmente forte sobre as famílias. 

No Inter, Menin afirma que a diversificação da carteira ajuda a atenuar o impacto da inadimplência, enquanto o banco ficou mais conservador na concessão de cartões para novos clientes. 

“Com isso, nosso índice de inadimplência (NPL) se estabilizou e esperamos melhorias no quarto trimestre”, afirma. 

A estratégia, segundo ele, não passa por abandonar clientes de menor renda. 

“Não se trata da faixa de renda, mas do perfil do cliente e das garantias. O Inter é uma plataforma agnóstica — como um ‘McDonald’s das finanças’. Atendemos clientes de todas as rendas.” 

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Inter de olho no mundo lá fora 

Outra frente de expansão do banco digital laranjinha está fora do Brasil. O Inter já construiu uma operação bancária e de investimentos nos Estados Unidos e vem levando sua conta global para outros mercados.  

Em setembro, o banco iniciou a operação na Argentina em parceria com o Grupo BIND, com foco inicial em conta em dólar e investimentos internacionais. 

A estratégia se alinha ao discurso de Menin de transformar o Inter em uma plataforma financeira global, e não apenas em um banco digital brasileiro. 

“Nossos clientes precisam de uma vida financeira globalizada para prestar serviços para o exterior, viajar, investir e pagar contas em dólar.” 

Menin afirma que o Inter já busca novas frentes de expansão internacional e mantém os olhos voltados para oportunidades nas Américas.  

Embora ainda não revele quais serão os próximos passos, o CEO diz que a entrada de outros bancos brasileiros no mercado norte-americano não é vista como uma ameaça. “Achamos ótimo, pois valida a oportunidade de mercado e gera externalidades positivas.” 

O que falta para o mercado comprar a tese? 

A estratégia, porém, coloca o Inter diante de uma cobrança conhecida: quando todo esse crescimento vai aparecer no ROE? 

Os papéis do banco negociados em Wall Street acumulavam queda de cerca de 40% em 2026 até o momento da entrevista. Ao mesmo tempo, a operação vinha melhorando: no segundo trimestre, o Inter registrou o 13º trimestre consecutivo de crescimento do lucro e levou o ROE a 16,3%. 

Menin não demonstra intenção de mudar a estratégia para fazer a cotação das ações reagir na bolsa. 

“Não gerimos a empresa em função das oscilações de curto prazo das ações na bolsa. Focamos no que podemos controlar: execução, alavancagem operacional e qualidade do produto.” 

A tese defendida pelo CEO é menos sobre chegar rapidamente aos 30% e mais sobre o tamanho do negócio quando esse retorno vier.  

“No longo prazo, o valor do negócio é reconhecido pelo mercado.” 

AutorCamille Lima
FonteSeu Dinheiro
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