Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
02/07/2026
8 min

Investidor local cresce na bolsa e deixa Ibovespa mais sensível a noticiário doméstico

Investidor local cresce na bolsa e deixa Ibovespa mais sensível a noticiário doméstico

A mudança no perfil do investidor na B3 começa a alterar a forma como o mercado brasileiro reage ao notíciário local. Depois de um primeiro trimestre marcado pela forte entrada de capital estrangeiro, o segundo semestre se inicia com maior protagonismo dos investidores locais na formação de preços, o que torna a bolsa mais sensível aos acontecimentos domésticos, especialmente à política monetária, ao cenário fiscal e às eleições presidenciais em outubro.

Os dados da B3 até o pregão de 29 de junho mostram que os investidores estrangeiros continuam sendo responsáveis pela maior fatia do volume negociado, com participação de 58,4% em junho. Mas o comportamento do fluxo mudou de forma significativa ao longo do semestre.

Após ingressarem com R$ 26,5 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bilhões em fevereiro, R$ 12 bilhões em março e mais R$ 3,2 bilhões em abril, os estrangeiros inverteram a direção e retiraram R$ 13,3 bilhões em maio e outros R$ 7,3 bilhões em junho. Ainda assim, encerraram o semestre com saldo positivo acumulado de R$ 36,4 bilhões.

Na direção oposta, os investidores institucionais brasileiros atuaram praticamente como contraparte desse movimento.

Depois de venderem ações durante os quatro primeiros meses do ano, acumulando saídas de mais de R$ 49 bilhões entre janeiro e abril, passaram a comprar justamente quando os estrangeiros reduziram exposição. Em maio, aportaram R$ 13,3 bilhões e, em junho, outros R$ 2,6 bilhões, reduzindo o saldo negativo acumulado do ano para R$ 33,8 bilhões.

A pessoa física também mudou de comportamento ao longo de janeiro e junho. Embora sua participação no volume negociado tenha caído continuamente, de 11,8% em janeiro para 9,8% em junho, os investidores individuaispassaram de vendedores líquidos no início do ano para compradores consistentes na reta final. As compras somaram R$ 5,8 bilhões em maio e R$ 2,8 bilhões em junho, levando o saldo acumulado para R$ 2,7 bilhões positivos.

Já as instituições financeiras tiveram comportamento mais irregular, alternando meses de compras e vendas relevantes. O grupo registrou saldo negativo de R$ 2,1 bilhões no semestre, funcionando como um agente de ajuste em diferentes momentos do mercado.

Mudança na formação dos preços

Para Gabriel Cecco, especialista e sócio da Valor Investimentos, o movimento vai além de uma simples troca de investidores e representa uma mudança estrutural na formação dos preços da bolsa.

"Quando o investidor estrangeiro domina o fluxo, a bolsa responde principalmente ao cenário internacional, aos juros americanos, ao dólar, ao crescimento da China, às commodities, à guerra e ao apetite global por risco. À medida que o investidor local ganha participação, esse cenário muda bastante. A bolsa passa a reagir muito mais ao noticiário doméstico", disse.

Na avaliação do especialista, isso significa que o segundo semestre tende a ser marcado por uma influência crescente da política monetária, do cenário fiscal e, principalmente, das eleições presidenciais.

"O mercado não está interessado na disputa política em si, mas em antecipar qual será o ambiente econômico contratado para 2027. O que move os preços é a expectativa para juros, inflação, trajetória da dívida pública e crescimento. Tudo isso acaba inevitavelmente ligado ao processo eleitoral".

Diante desse quadro, os agentes financeiros avaliam que a elevação da volatilidade do mercados deve se confirmar nos próximos meses.

"O investidor local acompanha muito mais de perto cada dado de inflação, cada decisão do Banco Central e cada votação importante no Congresso. Como ele passa a ter maior influência na formação dos preços, esses eventos ganham peso maior sobre a bolsa", afirmou Cecco.

O que está por trás da saída do capital estrangeiro

O sócio da Valor Investimentos adverte, contudo,  quea saída desde a segunda quinzena de abril dos estrangeiros não deve ser interpretada, necessariamente, como perda de confiança no Brasil.

"Grande parte desse movimento parece estar relacionada à realização de lucros e ao rebalanceamento global das carteiras. O Brasil teve um desempenho muito forte no início do ano, enquanto outros mercados passaram a oferecer oportunidades mais atrativas. O gestor internacional compara Brasil, Índia, México e outros emergentes o tempo todo".

Por outro lado, o investidor doméstico conhece melhor as empresas locais e consegue identificar oportunidades mesmo em um ambiente macroeconômico mais desafiador. Na avaliação de Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, a entrada dos investidores locais decorre principalmente de uma mudança na alocação de recursos, e não de uma reação direta à saída dos estrangeiros.

"Os investidores locais estavam praticamente fora da bolsa no fim do ano passado e no começo deste ano. O que aconteceu foi uma realocação de portfólio, com recursos saindo da renda fixa e, principalmente, dos fundos de crédito privado para a renda variável", disse.

O principal motivo da saída do capital estrangeiro foi oaumento das tensões entre Estados Unidos e Irã, que provocou uma redução do apetite por mercados emergentes e uma volta para ativos considerados mais seguros. "Ao mesmo tempo, as empresas de tecnologia nos Estados Unidos voltaram a ganhar força. Foi esse o principal motivo para a saída do investidor estrangeiro."

O CEO da Veedha explica que, apesar da participação dos investidores locais, o peso do capital internacional continua determinante para o comportamento da bolsa brasileira. "Um espirro de fluxo estrangeiro já faz o Ibovespa andar mil pontos em um dia. Para o investidor local provocar um movimento semelhante, é necessário um volume muito maior".

Bolsa barata, mas sem catalisadores

Os especialistas também destacam que o mercado brasileiro continua negociando com múltiplos considerados descontados.

"O desafio é que bolsa barata pode continuar barata por muito tempo se faltarem catalisadores. Enquanto os juros reais permanecerem elevados e houver dúvidas sobre o ajuste fiscal e o cenário político, o investidor continuará exigindo um prêmio elevado para investir nas ações brasileiras", afirma Cecco.

Para o especialista da Valor, existe espaço para uma reprecificação positiva dos ativos brasileiros, mas isso depende da melhora da percepção sobre o quadro fiscal e da continuidade do processo de desinflação. "Só preço descontado não basta. Se as incertezas aumentarem, mesmo empresas de boa qualidade podem continuar negociando com desconto porque o investidor exige um prêmio maior para carregar o risco Brasil".

O estrangeiro também não mostra pressa em voltar ao Brasil, segundo Marcatti. "Ele prefere pagar um pouco mais caro quando houver mais certeza do cenário do que tentar antecipar esse movimento. Os múltiplos continuam atrativos e os fundamentos das empresas seguem favoráveis, mas o timing ainda não ajuda", disse.

Casas veem bolsa descontada, mas ambiente mais desafiador

A leitura dos grandes bancos de investimento converge com a dos especialistas. O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) afirma que as ações brasileiras voltaram a negociar em níveis considerados atrativos após a correção dos últimos meses. Excluindo Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), o Ibovespa negocia perto de 9,7 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, cerca de um desvio-padrão abaixo da média histórica.

Mesmo assim, o banco pondera queos valuations perderam atratividade relativa diante da forte alta dos juros reais de longo prazo, que encerraram junho em 7,9%.

"Com a inflação acima da meta, o Banco Central do Brasil tem pouco espaço para cortar os juros. E com os juros de curto prazo prestes a subir nos EUA, isso limita ainda mais a sua capacidade de
reduzir as taxas de juros locais. Embora as ações brasileiras pareçam baratas, um cenário mais incerto pela frente e a ausência de claros catalisadores de curto prazo nos levaram a tornar a carteira 10SIM um pouco mais defensiva", disse o banco em relatório.

Desde meados de abril os investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 36 bilhões da bolsa brasileira, mostra o BTG, movimento associado a esse ambiente macroeconômico mais "desafiador".

A XP Investimentos também avalia que o segundo semestre será dominado por fatores domésticos. Para a corretora, inflação, política monetária e eleições passam a ser os principais vetores para o comportamento da bolsa brasileira.

Segundo a casa, o país entrou em um regime de inflação elevada e deve migrar, nos próximos meses, para um ambiente de inflação alta combinada com juros elevados — cenário que, historicamente, foi o mais desfavorável para o desempenho do Ibovespa.

A XP destaca ainda que o chamado "trade eleitoral" já começou a influenciar os mercados. Historicamente, a volatilidade tende a aumentar nos seis meses anteriores às eleições, comportamento que já pode ser observado tanto na bolsa quanto no câmbio.

Para a corretora, no entanto, mais importante do que o resultado eleitoral será a percepção sobre a trajetória das contas públicas. A casa afirma que uma melhora crível das expectativas fiscais pode destravar uma reprecificação dos ativos brasileiros, enquanto uma deterioração desse cenário tende a manter elevados os juros reais e limitar o potencial de valorização da bolsa.

AutorClara Assunção
FonteExame
Distribuído por