Investidores estrangeiros voltam para a bolsa brasileira: apetite é temporário ou veio para ficar?

Depois de junho ter registrado a maior saída de capital estrangeiro da bolsa brasileira em quase um ano, com uma retirada de R$ 7,7 bilhões, o mês de julho tem sido marcado pela retomada da entrada de investimentos dos gringos. A primeira quinzena teve um saldo positivo de R$ 2,3 bilhões e parte do mercado defende que se trata de um ajuste natural após dois meses de saída, enquanto outros especialistas defendem que há fundamentos que justificam os ânimos melhores.
Entre os argumentos de quem acredita nos fundamentos está a recente safra de indicadores reforçando um desaquecimento mais claro da atividade econômica, como os dos dados de emprego de maio eo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho.
Outro ponto citado pelos especialistas é o nível de preço das ações brasileiras. Segudo Felipe Villegas, estrategista de renda variável da Genial, a bolsa segue barata e "pouco carregada".
Mas embora o apetite esteja melhor entre os investidores estrangeiros, a avaliação dos analistas é que esse movimento pode ser temporário e ficará na dependência de dois fatores: a decisão eleitoral no Brasil e o cenário internacional.
O que está em jogo agora
A divulgação do IPCA de junho foi um dos motivos que favoreceu a entrada de fluxo externo.
O alívio inflacionário de curto prazo ressuscitou, em boa parte dos agentes do mercado financeiro, apostas de uma nova queda de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorrerá nos dias 4 e 5 de agosto.
Dessa forma, a leitura é que se criam expectativas de um ambiente menos adverso para as empresas.
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"Vimos algum sinal de melhora, como foi naquela sexta-feira, quando saiu a notícia boa do IPCA. Houve entrada de R$ 1,521 bilhão, marcando a maior entrada líquida desde quando começou o grande movimento de saída, que foi no dia 15 de abril [quando houve saída de R$ 1,032 bilhão]", afirma o estrategista de ações da XP Investimentos, Raphael Figueredo.
Cenário geopolítico favorece o Brasil
Outro ponto que conta a favor da entrada de recursos externos para a B3 é o conflito geopolítico. O impasse beneficia países exportadores de petróleo, como o Brasil.
"Eu diria que no relativo, somos vencedores [...] É um contexto macro ruim, mas quando trazemos para o micro, não chega a ser tão ruim assim. Isso tem feito o Ibovespa se sustentar por volta de 175 mil, 178 mil pontos há alguns dias", diz Figueredo.
O fluxo externo tem sido o principal motor para a valorização da B3 em 2026. Em janeiro, os estrangeiros encerraram o mês com saldo positivo de R$ 26,314 bilhões, cifra que, naquele momento, já era maior do que a aportada por esses investidores durante todo o ano de 2025.
Até abril, a entrada desses recursos chegou a quase R$ 70 bilhões. Nos meses seguintes, o fluxo passou a minguar gradualmente, até que os últimos dados da B3 mostraram uma retomada positiva da tendência de apetite estrangeiro à bolsa.
O Ibovespa, principal índice de ações da bolsa brasileira, acumula ganho de 8% no ano, a 174.041 pontos no fechamento de sexta-feira (24).
Cautela ou sinal positivo: o que dizem os analistas
A Genial aponta ainda que a bolsa está "sensível a qualquer fluxo marginal", o que ajudou a explicar a tentativa de recomposição gradual da entrada de capital externo após dois meses de saída relevante.
Ainda assim, a corretora mantém postura defensiva, com preferência por liquidez, moeda forte como proteção e pagadoras de dividendos. O retorno do excepcionalismo norte-americano e a perspectiva de um dólar forte estrutural permanecem como o principal risco para os ativos locais, destaca a casa.
Se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) adotar postura mais restritiva, com juros mais altos por mais tempo, o fluxo para mercados emergentes pode ficar mais seletivo.
Ao mesmo tempo, a percepção de menor apetite exclusivo por ativos norte-americanos — em um ambiente de questionamentos institucionais — tem levado parte dos investidores a buscar diversificação geográfica.
Nesse contexto, a alocação tende a favorecer mercados que ainda oferecem valor e retorno, e o Brasil aparece como "barato" no comparativo, destaca Figueredo, da XP.
Apesar das preocupações com o setor de tecnologia, que volta e meia desvia capital de mercados emergentes para ativos nos EUA, o fundador e CEO do Market Makers, Thiago Salomão, ressalta que o Brasil ainda está longe de ser um destino natural para uma parcela relevante desses recursos.
Segundo ele, a inteligência artificial ajuda a explicar "mais quando o Brasil vai mal" do que quando atrai investimentos do exterior.
Mesmo com incertezas, Salomão pontua que há mais fatores para se surpreender positivamente do que negativamente em relação ao que pode influenciar o Ibovespa, como o início da temporada de balanços do segundo trimestre no Brasil neste mês.
Já o Citi vê o Brasil como uma espécie de "hedge de IA", à medida que as altas apostas em tecnologia demandam também um seguro na chamada "velha economia", ou seja, em ativos tangíveis, perfil da bolsa local.
Por isso, o banco norte-americano está "expectativa cautelosamente otimista" com o mercado de ações brasileiro no segundo semestre.
O Bank of America (BofA), por sua vez, avalia que a América Latina ainda não tem atraído fluxo global relevante, enquanto investidores seguem rotacionando para mercados emergentes com forte peso de tecnologia, com destaque para Coreia do Sul e Taiwan.
O banco aponta que os fundos de ações do Brasil tiveram entradas de US$ 100 milhões nos primeiros dias de julho, em comparação com uma média de saídas de R$ 600 milhões por semana no primeiro trimestre de 2026.
*Com informações do Estadão Conteúdo
