Investir no ‘básico’ pode ser a chave para sobreviver à tempestade financeira, afirma Janus Henderson

Em um ambiente de crescente especulação nos mercados globais, a orientação para o segundo semestre de 2026 é reduzir a exposição a riscos excessivos e retomar o foco no básico. A avaliação é de Richard Bernstein, head global de macro e investimentos personalizados da Janus Henderson, que defende uma postura mais cautelosa diante da atual euforia.
Segundo o analista, o comportamento recente dos investidores revela uma distorção relevante: a confusão entre o papel dos mercados financeiros e o dos mercados de apostas.
“Os mercados financeiros existem para a formação de capital. Os investidores assumem participações em empresasou emprestam recursos a elas, o que impulsiona o investimento e o emprego. Já os mercados de apostas não geram valor econômico para a economia como um todo”, afirma.
Na visão de Bernstein, essa dinâmica tem alimentado o aumento do apetite a risco. Um dos principais sinais é o avanço do volume negociado em opções— instrumentos alavancados que ampliam tanto ganhos quanto perdas. Nos últimos cinco anos, esse volume mais que triplicou, refletindo a crescente adoção de estratégias especulativas.
Diante desse cenário, a tese “Boring is Beautiful” (“o básico é bonito”), defendida pela gestora, ganha força. A estratégia inclui exposição a ações pagadoras de dividendos, mercados fora dos Estados Unidos,renda fixa de alta qualidade e curto prazo, além de ouro.
Expectativas de juros mudam nos EUA
Outro ponto central da análise é a reavaliação das expectativas para a política monetária americana. No início do ano, o consenso de mercado previa cortes mais agressivos de jurospor parte do Federal Reserve. Essa visão, no entanto, vem sendo revista.
Atualmente, os contratos futuros indicam juros elevados por mais tempo, com apenas um corte limitado no curto prazo e trajetória de alta nos próximos anos. Para Bernstein, esse ajuste reflete uma leitura mais realista da economia.
“O crescimento nominal dos EUA segue surpreendentemente forte […] acreditamos que esse cenário limitará a flexibilidade do Fed, que deve migrar gradualmente para uma postura mais restritiva e pode, inclusive, voltar a elevar os juros”, afirma.
Dados recentes reforçam essa avaliação. O PIB nominal superou 8% no terceiro trimestre de 2025 — o maior nível em cerca de 20 anos, desconsiderando o período da pandemia. Após uma desaceleração pontual no fim do ano, o crescimento voltou a acelerar em 2026, com alta acima de 5,5% no primeiro trimestre e projeções superiores a 7% no trimestre atual.
Menos liquidez, mais fundamento
Bernstein destaca que períodos de forte especulação costumam estar associados a ampla liquidez, condição que tende a se dissipar em um ciclo de juros mais altos.
Nesse contexto, a atenção dos investidores costuma migrar de estratégias baseadas em momentum para fundamentos.
A comparação entre segmentos do mercado de ações sugere que alguns dos ativos mais populares, como as chamadas “Magnificent 7”, apresentam hoje relações menos atrativas entre retorno esperado e valuation. Em contrapartida, ações com dividendos e mercados internacionais despontam como alternativas mais interessantes.
Na renda fixa, o alerta recai sobre os spreads de crédito de alto rendimento (high yield), atualmente em níveis historicamente baixos. Segundo Bernstein, episódios semelhantes ocorreram apenas duas vezes nas últimas três décadas — ambos seguidos por eventos relevantes de crédito.
Esse cenário indica que o prêmio de risco está comprimido, elevando a probabilidade de retornos abaixo do esperado. A recomendação, portanto, é priorizar ativos de maior qualidade, como títulos públicos, municipais e hipotecas, além de manter duration mais curta nas carteiras.
Para Bernstein, o comportamento dos investidores tende a oscilar entre extremos de cautela e excesso de risco. Se no início dos ciclos de alta prevalece o conservadorismo, momentos como o atual são marcados por apetite elevado por risco.
Diante disso, a recomendação é evitar o “efeito manada”. Mesmo em um ambiente de euforia, os fundamentos seguem apontando que estratégias mais simples e disciplinadas continuam sendo as mais adequadas para o investidor, segundo ele.
