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MundoCMDT
12/10/2026
6 min

Irã à beira do colapso? Inflação de 90% e bloqueio do petróleo sufocam economia

Com o rial em mínimas históricas e estoques de petróleo em queda, Teerã enfrenta pressão econômica para negociar com os EUA

Irã à beira do colapso? Inflação de 90% e bloqueio do petróleo sufocam economia

A economia do Irã enfrenta uma de suas crises mais graves em décadas, pressionada pelas sanções americanas e pelo bloqueio militar imposto pelo governo de Donald Trump. Segundo a The Economist, o valor da moeda iraniana atingiu mínimas históricas, a inflação chegou a 90% em setembro e o país deixou de carregar novos embarques de petróleo pela primeira vez desde a Revolução Islâmica de 1979.

Até mesmo Mohsen Rezaei, uma das principais figuras da área de segurança iraniana, reconheceu recentemente que o país atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. O rial, moeda iraniana, é um dos principais indicadores da crise: cotado a cerca de 2,7 milhões por dólar, perdeu metade de seu valor apenas em 2026 e 99% ao longo da última década.

No mês passado, o banco central injetou US$ 2 bilhões em moeda estrangeira no mercado, medida que desacelerou temporariamente a desvalorização, mas não a reverteu.

A queda da moeda alimenta a disparada dos preços. Além da inflação anual de 90% registrada em setembro, alimentos e transportes ficaram mais de 115% mais caros, enquanto os preços das roupas subiram 97%, apura a Economist. Produtos básicos, como óleo de cozinha, ovos e arroz, registraram aumentos superiores a 200%.

A crise também atinge trabalhadores e aposentados: pensionistas realizaram protestos contra a perda do poder de compra, enquanto representantes da categoria de enfermeiros afirmam que alguns profissionais consideram abandonar seus empregos diante de salários equivalentes a apenas US$ 100 mensais.

Ademais, a deterioração econômica ocorre em meio à guerra no Golfo, que já dura oito meses, o que intensifica ainda mais a pressão sobre o governo iraniano.

A campanha americana de sanções e bloqueio tem comprometido as principais fontes de receita do país, embora ainda não esteja claro se conseguirá forçar Teerã a encerrar o conflito nos termos desejados por Washington. Apesar da crise econômica, o regime dos aiatolás permanece forte e busca uma solução diplomática em seus próprios termos.

Petróleo e bens sob pressão

Barril de petróleo sendo derramado.

Petróleo: guerra no Irã pressiona preços da commodity e agrava crise econômica enfrentada pelo país (Montagem com elementos Canva/Exame)

O principal instrumento de pressão americana é o bloqueio às exportações de petróleo, principal fonte de receita externa do Irã. Diferentemente de campanhas anteriores de sanções, que deixavam brechas para a comercialização da commodity, a estratégia atual envolve operações militares contra a infraestrutura logística do país. Segundo a The Economist, forças americanas desativaram ou afundaram pelo menos oito petroleiros iranianos no mês passado.

Apesar de não ter carregado novos embarques de petróleo bruto em setembro, o Irã continuou a vender a commodity à China, seu principal comprador, utilizando estoques mantidos a bordo de navios, principalmente na Ásia. Essa reserva, contudo, está prestes a se esgotar.

A empresa de análise de dados Kpler estima que o país disponha de cerca de 10 milhões de barris fora da área de bloqueio, em comparação com mais de 120 milhões antes da guerra. O volume restante pode se esgotar em poucas semanas, embora os pagamentos de vendas anteriores ainda possam continuar entrando até dezembro.

A restrição também afeta as exportações de produtos não petrolíferos. A China costuma importar mais de US$ 4 bilhões anuais em mercadorias iranianas, excluindo petróleo, mas comprou apenas US$ 746 milhões entre janeiro e agosto deste ano, queda de 67% em relação ao mesmo período de 2025 e de 74% em relação ao mesmo período de 2024. As compras de produtos como plásticos e pistaches recuaram, reduzindo ainda mais a entrada de divisas no país.

Teerã tenta contornar o bloqueio por rotas terrestres e pelo Mar Cáspio, que oferece conexões com a Rússia e países da Ásia Central.

As alternativas, porém, são limitadas: caminhões enfrentam filas de vários dias nas fronteiras, enquanto a capacidade dos portos e embarcações no Cáspio é insuficiente para compensar o transporte marítimo pelo Golfo.

A tentativa de enviar petróleo à China por ferrovia também tem alcance limitado, já que seriam necessários 2.800 vagões-tanque para transportar o equivalente à carga de um grande navio.

As sanções americanas também agravaram as dificuldades do transporte aéreo iraniano. Em setembro, Washington anunciou medidas contra empresas estrangeiras que abastecem ou prestam serviços a companhias aéreas do Irã.

Nas duas semanas seguintes à entrada em vigor das restrições, em 23 de setembro, o aeroporto internacional de Teerã registrou apenas 153 chegadas e partidas, ante 989 no mesmo período do ano anterior. Quase todos os voos restantes tinham como destino a China, a Rússia ou a Turquia.

A redução das conexões aéreas pode comprometer o abastecimento de medicamentos. Segundo estimativa da Bourse & Bazaar Foundation, centro de pesquisa especializado na economia iraniana, 60% das importações médicas do país chegam por via aérea. Antes mesmo das sanções mais recentes, a associação iraniana de farmacêuticos afirmava que os preços dos medicamentos já haviam subido 150% no ano.

Duro na queda

Líderes iranianos prestam homenagens ao caixão do falecido líder supremo Ali Khamenei durante cerimônia na Grande Mosalla, em Teerã.

Fotografia distribuída pelo gabinete do líder supremo iraniano mostra autoridades iranianas rezando ao lado dos caixões do falecido líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e de membros de sua família na Grande Mosalla, durante o segundo dia das cerimônias fúnebres em Teerã, em 5 de julho de 2026. (KHAMENEI.IR / AFP)

Diante do agravamento da crise, o governo iraniano procura uma saída diplomática, mas sem abrir mão de suas condições. No mês passado, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, manteve conversas indiretas com representantes americanos durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e apresentou uma nova proposta de acordo.

A oferta previa retomar, de forma acelerada, os termos de um memorando de entendimento assinado em junho. Caso Washington aceitasse determinadas condições, o Irã reabriria o Estreito de Ormuz em sete dias, prazo mais curto do que os 30 dias previstos no entendimento anterior. Trump, todavia, rejeitou a proposta.

A iniciativa gerou interpretações divergentes entre diplomatas. Para alguns, a redução do prazo indicaria que as dificuldades econômicas estão aumentando a disposição iraniana para negociar.

Outros avaliam que Teerã apresentou uma proposta que se esperava que fosse recusada, o que, subsequentemente, criaria uma justificativa para uma eventual escalada militar e permitiria ao governo afirmar que os Estados Unidos rejeitaram a diplomacia.

Essa possibilidade ganha força diante do aumento dos ataques iranianos contra navios comerciais no estreito, avalia a Economist, com pelo menos dez incidentes nas duas semanas anteriores à publicação da reportagem. Os dois lados também se preparam para uma nova rodada de guerra aberta.

O impasse pode se prolongar até dezembro, quando Trump já terá ultrapassado as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e os últimos pagamentos das exportações iranianas de petróleo vencerão.

Até lá, o bloqueio pode aprofundar a crise econômica e reduzir as opções de Teerã, embora a extensão de seu impacto sobre as decisões políticas e militares do regime ainda seja incerta.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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