Irã à beira do colapso? Inflação de 90% e bloqueio do petróleo sufocam economia
Com o rial em mínimas históricas e estoques de petróleo em queda, Teerã enfrenta pressão econômica para negociar com os EUA

A economia do Irã enfrenta uma de suas crises mais graves em décadas, pressionada pelas sanções americanas e pelo bloqueio militar imposto pelo governo de Donald Trump. Segundo a The Economist, o valor da moeda iraniana atingiu mínimas históricas, a inflação chegou a 90% em setembro e o país deixou de carregar novos embarques de petróleo pela primeira vez desde a Revolução Islâmica de 1979.
Até mesmo Mohsen Rezaei, uma das principais figuras da área de segurança iraniana, reconheceu recentemente que o país atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. O rial, moeda iraniana, é um dos principais indicadores da crise: cotado a cerca de 2,7 milhões por dólar, perdeu metade de seu valor apenas em 2026 e 99% ao longo da última década.
No mês passado, o banco central injetou US$ 2 bilhões em moeda estrangeira no mercado, medida que desacelerou temporariamente a desvalorização, mas não a reverteu.
A queda da moeda alimenta a disparada dos preços. Além da inflação anual de 90% registrada em setembro, alimentos e transportes ficaram mais de 115% mais caros, enquanto os preços das roupas subiram 97%, apura a Economist. Produtos básicos, como óleo de cozinha, ovos e arroz, registraram aumentos superiores a 200%.
A crise também atinge trabalhadores e aposentados: pensionistas realizaram protestos contra a perda do poder de compra, enquanto representantes da categoria de enfermeiros afirmam que alguns profissionais consideram abandonar seus empregos diante de salários equivalentes a apenas US$ 100 mensais.
Ademais, a deterioração econômica ocorre em meio à guerra no Golfo, que já dura oito meses, o que intensifica ainda mais a pressão sobre o governo iraniano.
A campanha americana de sanções e bloqueio tem comprometido as principais fontes de receita do país, embora ainda não esteja claro se conseguirá forçar Teerã a encerrar o conflito nos termos desejados por Washington. Apesar da crise econômica, o regime dos aiatolás permanece forte e busca uma solução diplomática em seus próprios termos.
Petróleo e bens sob pressão
Petróleo: guerra no Irã pressiona preços da commodity e agrava crise econômica enfrentada pelo país (Montagem com elementos Canva/Exame)
O principal instrumento de pressão americana é o bloqueio às exportações de petróleo, principal fonte de receita externa do Irã. Diferentemente de campanhas anteriores de sanções, que deixavam brechas para a comercialização da commodity, a estratégia atual envolve operações militares contra a infraestrutura logística do país. Segundo a The Economist, forças americanas desativaram ou afundaram pelo menos oito petroleiros iranianos no mês passado.
Apesar de não ter carregado novos embarques de petróleo bruto em setembro, o Irã continuou a vender a commodity à China, seu principal comprador, utilizando estoques mantidos a bordo de navios, principalmente na Ásia. Essa reserva, contudo, está prestes a se esgotar.
A empresa de análise de dados Kpler estima que o país disponha de cerca de 10 milhões de barris fora da área de bloqueio, em comparação com mais de 120 milhões antes da guerra. O volume restante pode se esgotar em poucas semanas, embora os pagamentos de vendas anteriores ainda possam continuar entrando até dezembro.
A restrição também afeta as exportações de produtos não petrolíferos. A China costuma importar mais de US$ 4 bilhões anuais em mercadorias iranianas, excluindo petróleo, mas comprou apenas US$ 746 milhões entre janeiro e agosto deste ano, queda de 67% em relação ao mesmo período de 2025 e de 74% em relação ao mesmo período de 2024. As compras de produtos como plásticos e pistaches recuaram, reduzindo ainda mais a entrada de divisas no país.
Teerã tenta contornar o bloqueio por rotas terrestres e pelo Mar Cáspio, que oferece conexões com a Rússia e países da Ásia Central.
As alternativas, porém, são limitadas: caminhões enfrentam filas de vários dias nas fronteiras, enquanto a capacidade dos portos e embarcações no Cáspio é insuficiente para compensar o transporte marítimo pelo Golfo.
A tentativa de enviar petróleo à China por ferrovia também tem alcance limitado, já que seriam necessários 2.800 vagões-tanque para transportar o equivalente à carga de um grande navio.
As sanções americanas também agravaram as dificuldades do transporte aéreo iraniano. Em setembro, Washington anunciou medidas contra empresas estrangeiras que abastecem ou prestam serviços a companhias aéreas do Irã.
Nas duas semanas seguintes à entrada em vigor das restrições, em 23 de setembro, o aeroporto internacional de Teerã registrou apenas 153 chegadas e partidas, ante 989 no mesmo período do ano anterior. Quase todos os voos restantes tinham como destino a China, a Rússia ou a Turquia.
A redução das conexões aéreas pode comprometer o abastecimento de medicamentos. Segundo estimativa da Bourse & Bazaar Foundation, centro de pesquisa especializado na economia iraniana, 60% das importações médicas do país chegam por via aérea. Antes mesmo das sanções mais recentes, a associação iraniana de farmacêuticos afirmava que os preços dos medicamentos já haviam subido 150% no ano.
Duro na queda
Fotografia distribuída pelo gabinete do líder supremo iraniano mostra autoridades iranianas rezando ao lado dos caixões do falecido líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e de membros de sua família na Grande Mosalla, durante o segundo dia das cerimônias fúnebres em Teerã, em 5 de julho de 2026. (KHAMENEI.IR / AFP)
Diante do agravamento da crise, o governo iraniano procura uma saída diplomática, mas sem abrir mão de suas condições. No mês passado, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, manteve conversas indiretas com representantes americanos durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e apresentou uma nova proposta de acordo.
A oferta previa retomar, de forma acelerada, os termos de um memorando de entendimento assinado em junho. Caso Washington aceitasse determinadas condições, o Irã reabriria o Estreito de Ormuz em sete dias, prazo mais curto do que os 30 dias previstos no entendimento anterior. Trump, todavia, rejeitou a proposta.
A iniciativa gerou interpretações divergentes entre diplomatas. Para alguns, a redução do prazo indicaria que as dificuldades econômicas estão aumentando a disposição iraniana para negociar.
Outros avaliam que Teerã apresentou uma proposta que se esperava que fosse recusada, o que, subsequentemente, criaria uma justificativa para uma eventual escalada militar e permitiria ao governo afirmar que os Estados Unidos rejeitaram a diplomacia.
Essa possibilidade ganha força diante do aumento dos ataques iranianos contra navios comerciais no estreito, avalia a Economist, com pelo menos dez incidentes nas duas semanas anteriores à publicação da reportagem. Os dois lados também se preparam para uma nova rodada de guerra aberta.
O impasse pode se prolongar até dezembro, quando Trump já terá ultrapassado as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e os últimos pagamentos das exportações iranianas de petróleo vencerão.
Até lá, o bloqueio pode aprofundar a crise econômica e reduzir as opções de Teerã, embora a extensão de seu impacto sobre as decisões políticas e militares do regime ainda seja incerta.
