Irã, América Latina e obras na Casa Branca: no que Trump deve focar como 'pato manco'?
Com a derrota nas eleições legislativas, analistas de risco e especialistas em política externa projetam um presidente isolado no cenário doméstico e em busca de grandes – e arriscadas – apostas diplomáticas e militares para consolidar seu legado

O Partido Democrata superou as expectativas nas eleições de meio de mandato, conquistando o controle da Câmara, do Senado (com pelo menos 54 assentos) e garantindo uma vitória surpreendente no governo do Texas.
Com o Congresso dominado pela oposição, o presidente Donald Trump entrou oficialmente na fase de "pato manco" (lame-duck) — um período em que líderes perdem o capital político necessário para aprovar leis domésticas e têm pouca (ou nenhuma) governabilidade no Legislativo. Segundo análises de risco, o isolamento interno pode empurrar o governo para apostas mais ousadas na política externa, em regiões como Oriente Médio, América Latina e Leste Europeu.
Com a ameaça de um Congresso democrata desgastante para a presidência, Trump buscará consolidar seu legado internacionalmente. Como escrevem os especialistas Daniel W. Drezner e Elizabeth N. Saunders, em artigo para a Foreign Affairs, "como pensam sobre o seu legado, os 'patos mancos' frequentemente se voltam para a política externa, onde o poder da presidência lhes permite agir sem as amarras da irritante política doméstica".
Sobre este mesmo cenário, nove especialistas do Council on Foreign Relations publicaram avaliações sobre como a nova legislatura pode afetar a política externa do país. Liana Fix afirma que "os restantes dois anos do mandato de Trump poderão centrar-se muito mais na política externa do que os primeiros dois".
Já Joshua Kurlantzick afirma que "um Trump 'pato manco' também poderia sentir-se ainda mais encorajado a fazer o que quiser - uma possibilidade que fará tremer alguns líderes asiáticos (e outros a nível mundial)". Por fim, Elisa Ewers diz que "Trump pode adotar uma política externa ainda mais aventureira, inclusive no Oriente Médio, ao enfrentar restrições reais à sua agenda interna".

Irã como alvo
A consultoria de risco Eurasia Group projeta altas chances de a Casa Branca escalar o conflito com o país persa. "O presidente Donald Trump continua propenso a uma escalada no Irã (65% de probabilidade), e continuará a se envolver com a Rússia, vendo ambos como questões de legado que agora carregam pouco risco político de desvantagem", diz o relatório da empresa.
A Foreign Affairs alerta, porém, que o plano pode ser desastroso. Segundo Drezner e Saunders, "os líderes iranianos não recuarão diante de mais força. Em vez disso, provavelmente aumentarão os ataques a navios comerciais, atingirão os aliados do Golfo e ignorarão as aberturas diplomáticas até que Trump deixe o cargo". Uma escalada poderia mergulhar o mundo em uma nova crise econômica devido à alta dos preços globais, principalmente no setor de combustível.
A disparada do custo da gasolina nas bombas, uma consequência da guerra, foi justamente uma das grandes insatisfações do eleitorado que votou em democratas nestas midterms.
O fator Marco Rubio
Outro foco da política externa americana é a América Latina. O governo americano impôs um embargo severo a Cuba para enfraquecer a ilha, que já sofre sem o apoio da Venezuela e com blecautes diários.
A medida seria baseada em convicções de dentro da própria Casa Branca: "Derrubar o governo de Cuba é uma prioridade pessoal de Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional de Trump, e estaria alinhado com a 'Doutrina Donroe'", afirmam Drezner e Saunders, na Foreign Affairs, em referência à visão que exalta o domínio dos Estados Unidos na região.
A Eurasia complementa que as ambições da atual gestão podem esbarrar em projetos eleitorais de 2028: "Espere que Rubio se incline para garantir eleições democráticas na Venezuela e destituir o regime de Castro em Cuba através de pressão econômica, enquanto constrói seu currículo de realizações na América Latina".
Já o vice-presidente JD Vance estaria engessado politicamente; segundo a Eurasia, "Vance, como vice-presidente em exercício, provavelmente está preso à última opção", referindo-se à necessidade de apenas "segurar a base de Trump".
No campo militar, o Pentágono enfrentará uma onda de fiscalização implacável. Michael C. Horowitz, diretor de defesa e segurança nacional do CFR, prevê que os democratas "provavelmente atacarão prioridades de defesa específicas de Trump que eles consideram ineficazes ou inúteis, como o Golden Dome", uma iniciativa dos Estados Unidos para criar um sistema integrado e multicamadas de defesa aérea e antimísseis.
Horowitz acrescenta que a nova formação do Legislativo levará a severas investigações em 2027, "incluindo percepções de corrupção em contratos, as controversas demissões de altos oficiais militares pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth, os ataques a barcos na costa da América do Sul e a operações militar contra o Irã".
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA (Freddie Everett/Official State Department Photo/Divulgação)
Leste europeu
Na campanha para retornar à presidência, Donald Trump chegou a dizer que poderia resolver a guerra entre Rússia e Ucrânia em questão de 24 horas. Atualmente, o conflito está no caminho para completar 5 anos.
Diante desse cenário de impasse para a finalização do conflito, a Eurasia aponta as movimentações diplomáticas esperadas para a reta final do mandato: Trump "permanecerá sob o feitiço de um acordo improvável com o presidente Vladimir Putin na reunião do G20 em dezembro, em Miami, e manterá a pressão diplomática sobre o presidente Volodymyr Zelensky".
Especialistas ressaltam, no entanto, que cúpulas com Rússia e China dificilmente produzirão resultados concretos. Drezner e Saunders dizem que "Putin não está interessado em compromissos e tem os recursos para continuar lutando. Xi vê Taiwan como uma questão doméstica chinesa e provavelmente não aceitará quaisquer restrições na sua abordagem à ilha".
Liana Fix do Council on Foreign Relations corrobora este pessimismo:. "O presidente pode tentar consolidar o seu legado acabando com a guerra na Ucrânia – muito possivelmente em termos desfavoráveis à Ucrânia", diz ela.
A "marca" Trump
Apesar da onda democrata, remover Trump do cargo via impeachment continua fora de alcance, pois, segundo destaca a Eurasia, "o Senado precisa de 67 votos para remover Trump do cargo, o que significa (...) 13 votos do Partido Republicano". Mesmo assim, a consultoria de risco nota que "perder grandes margens no Congresso e o cargo de governador do Texas — um reduto republicano se é que já existiu um — serão narrativas difíceis de superar e aumentam as chances de os membros do Partido Republicano estarem dispostos a romper com a Casa Branca".
Isolado, o presidente pode optar também por focar em projetos pessoais. Na análise dos autores da Foreign Affairs, "existe a chance de que ele passe seus dois últimos anos no cargo emitindo perdões, tentando processar inimigos políticos paralelamente e erguendo monumentos a si mesmo".
A visão é confirmada pela Eurasia, que detalha que Trump "também se inclinará a projetos como o arco do triunfo perto do Cemitério Nacional de Arlington, o redesenho do Campo de Golfe de East Potomac, e esforços para nomear o máximo de coisas possíveis com seu próprio nome", além de facilitar investimentos estrangeiros que, até agora, já teriam rendido bilhões de dólares à família Trump.
O presidente ainda tem uma obra inacabada: um enorme salão de baile avaliado em US$ 600 milhões e que está sendo construído no lugar da ala leste da Casa Branca.
Arco que Trump quer construir em Washington (Casa Branca /Harrison Design)
